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Em meio a avanço do agro, Centro-Oeste ultrapassa Sul e Sudeste em renda média

Agronegócio impulsiona renda do trabalho no Centro-Oeste, que supera Sul e Sudeste em 2025, enquanto desigualdade segue elevada no país

Em meio a avanço do agro, Centro-Oeste ultrapassa Sul e Sudeste em renda média (Foto: Reuters/Enrique Marcarian)

247 - O Brasil alcançou em 2025 o maior rendimento médio mensal real da série histórica, enquanto o Centro-Oeste passou a liderar a renda do trabalho no país, impulsionado pela expansão do agronegócio; as informações são do InfoMoney, com base em dados do IBGE e análises de especialistas.

O rendimento médio mensal real de todas as fontes chegou a R$ 3.367, já descontada a inflação, uma alta de 5,4% em relação a 2024. Foi o maior valor já registrado desde o início da série histórica, em 2012. Também pela primeira vez, 67,2% da população brasileira passou a contar com algum tipo de rendimento, o equivalente a 143 milhões de pessoas.

O principal motor desse avanço foi o mercado de trabalho. Em 2025, 47,8% da população tinha rendimento ligado à atividade profissional, sem considerar aposentadorias, benefícios sociais ou outras fontes. O rendimento médio de todos os trabalhos também atingiu patamar inédito, estimado em R$ 3.560.

Para Fernando de Holanda Barbosa Filho, pesquisador do FGV/Ibre ouvido pelo InfoMoney, o mercado de trabalho apresentou um “desempenho extraordinário” nos últimos anos e se consolidou como fator decisivo para o aumento da renda domiciliar no país.

Centro-Oeste assume liderança na renda do trabalho

Uma das principais mudanças reveladas pelos dados está na distribuição regional da renda. Tradicionalmente concentrado no eixo Sul-Sudeste, o topo do ranking salarial passou a ser ocupado pelo Centro-Oeste.

Na região, o rendimento habitual do trabalho chegou a R$ 4.133 em 2025. O valor ficou acima dos R$ 4.026 registrados no Sul e dos R$ 3.958 no Sudeste.

Segundo Barbosa Filho, a mudança está diretamente relacionada ao fortalecimento do agronegócio nas últimas décadas. Cidades de médio porte ligadas à produção agropecuária passaram a concentrar cadeias econômicas mais complexas, com serviços, comércio, logística e atividades empresariais associadas ao setor.

Esse processo elevou a remuneração média regional e enfraqueceu a percepção de que os salários mais altos do país estariam necessariamente nos grandes centros urbanos do Sudeste.

Aposentadorias e benefícios também pesam na renda

Além dos salários, outras fontes de rendimento também ganharam relevância. Rendimentos como aluguéis, benefícios, doações, aposentadorias e pensões alcançaram 27,1% dos brasileiros.

O envelhecimento da população aparece como um fator importante nesse movimento. De acordo com Gustavo Fontes, analista da PNAD Contínua, o percentual de pessoas que recebiam aposentadorias e pensões chegou ao maior nível da série histórica, atingindo 13,8% da população. O rendimento médio desse grupo ficou em R$ 2.697.

Barbosa Filho avalia que essa participação tende a continuar crescendo, em razão do envelhecimento demográfico no país.

Os programas sociais também mantiveram peso relevante na composição da renda. Em 2025, 9,1% da população recebia algum tipo de transferência governamental. O índice ficou estável em relação a 2024, mas permaneceu acima do patamar anterior à pandemia, quando era de 6,3%.

O rendimento médio vindo dessas transferências ficou em torno de R$ 870. O valor representa crescimento superior a 70% na comparação com os níveis nominais e de referência observados antes de 2020.

No Norte e no Nordeste, o impacto dos benefícios é ainda mais expressivo. Nessas regiões, a assistência social chega a representar 15,8% das rendas locais.

Apesar de reconhecer a importância desse suporte, Barbosa Filho aponta desafios para as contas públicas e para a dinâmica do mercado de trabalho. Segundo ele, o valor dos benefícios subiu nos últimos anos até se aproximar de 70% de um salário mínimo, o que amplia o debate sobre sustentabilidade fiscal e possíveis efeitos sobre a oferta de emprego formal em algumas regiões.

Desigualdade permanece em nível elevado

Mesmo com a renda em patamar recorde, a desigualdade continuou alta no Brasil. O Índice de Gini do rendimento domiciliar per capita passou de 0,504, em 2024, para 0,511 em 2025. Quanto mais próximo de 1, maior a desigualdade.

Para Barbosa Filho, a variação indica estabilidade estatística, mas não representa avanço na redução das disparidades sociais.

Os dados do IBGE mostram que os 10% da população com os maiores rendimentos concentraram 40,3% de toda a massa de rendimentos domiciliares do país. Esse grupo detém mais renda do que os 70% da população localizados na base da pirâmide.

Na média, os mais ricos ganham 13,8 vezes mais do que os 40% com menores rendimentos.

“A nossa capacidade de reduzir a desigualdade através de programas de transferência de renda parece ter chegado no seu limite”, afirmou o pesquisador do FGV/Ibre.

Segundo Barbosa Filho, as políticas de assistência social tiveram papel relevante nas últimas décadas, mas seus efeitos adicionais sobre a redução da desigualdade parecem mais limitados no cenário atual.

Mercado de trabalho deve perder força em 2026

Para 2026, a expectativa é de desaceleração no ritmo de crescimento observado em 2025. Barbosa Filho aponta que a política monetária restritiva, marcada por juros elevados, já começa a produzir sinais de esfriamento da economia.

Ainda assim, o pesquisador não prevê uma ruptura brusca no mercado de trabalho. A perspectiva é de uma “deterioração suave”, com manutenção de parte importante da resiliência recente e sem alta acentuada do desemprego.

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