'Foi para criar lucro artificial e aumentar dividendo', diz ex-sócio de Lemann sobre maquiagem nos balanços da Americanas

Luiz Cezar Fernandes diz que a maquiagem começou "há muito tempo" e que Lemann, Telles e Sicupira se prepararam para a divulgação do rombo bilionário na empresa

www.brasil247.com - Lojas Americanas, Beto Sicupira, Jorge Paulo Lemann e Marcel Telles
Lojas Americanas, Beto Sicupira, Jorge Paulo Lemann e Marcel Telles (Foto: Divulgação | REUTERS/Ueslei Marcelino)


247 - Ex-sócio de Jorge Paulo Lemann, Luiz Cezar Fernandes afirmou à Veja que as maquiagens nos balanços da Americanas, que esconderam por anos um rombo de R$ 20 bilhões, provavelmente começaram "há muito tempo" e foram "uma maneira de criar lucro artificial para aumentar dividendo". 

"Foram ao extremo deixando um atraso no pagamento dos fornecedores. O fornecedor vendeu por 90 dias, eles atrasavam e pagavam com 120 dias. Mas isso não foi suficiente, então resolveu esconder o passivo dos bancos. Acho que chegou em um ponto que não dava mais, chamaram o (Sergio) Rial e falaram: 'temos um problema, não estamos mais conseguindo alavancar, você vem e fala que tem isso aqui e aqui'. Porque é impossível que o Rial em uma semana descubra um troço que nenhum analista tenha pegado nesses 50 anos, mil analistas e ninguém pegou. Ele é gênio, mas nem tanto. Aquilo foi combinado. 'Você diz que descobriu, aí a gente parte para resolver, então vamos dar o prejuízo para o Family Office e para os bancos'. Acho que isso começou há muito tempo", disse.

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A prática, segundo ele, estava atrelada diretamente ao pagamento de bônus aos executivos da Americanas. "Você paga o bônus de acordo com o lucro. Mas eles criaram o lucro para pagar dividendo e o monstro de bônus para os executivos, desproporcional ao lucro real que a empresa estava tendo". 

Fernandes ainda destaca que Lemann e seus sócios, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira, se prepararam para a divulgação do rombo, deixando o conselho da empresa para não se comprometerem. "Inflavam o lucro, pagavam bônus para os executivos, mas quem mandava na loja? Ninguém? Era o Beto Sicupira que mandava. Eles chegavam na reunião e ninguém podia discordar dele. A gente tinha consciência que era assim. Todo ano diziam: 'ah, vamos aumentar aqui e distribuir dividendos'. E eles vieram aproveitando que já estava batendo no limite para vender uma posição grande [das ações da empresa]. Sabiam que o problema iria estourar em algum momento e que as ações não ficariam naquele preço. O preço médio de venda hoje tem uma enorme queda. E todo mundo saiu do conselho de administração. O Jorge [Paulo Lemann] e o Marcel [Telles] saíram há anos, mas o Beto [Sicupira] deixou o conselho há um ano, com a desculpa que o mercado não aceitou. Na prática, ele era o controlador, que mandava e pronto, mas aparentemente passou a ser acionista de referência. Ele mandava no conselho todos os dias, mas tecnicamente não era controlador. Juridicamente, ele tem uma posição muito tranquila, se tiver um processo do Ministério Público e da CVM (Comissão de Valores Mobiliários). Por isso, acho que já estava no planejamento do Rial fazer a denúncia".

Para contar os bastidores da fraude, a TV 247 produzirá um documentário a respeito do caso, que pode ser apoiado neste link.

O projeto

No início de 2023, os brasileiros foram surpreendidos pela maior fraude contábil da história do Brasil: a maquiagem contábil de R$ 20 bilhões nos balanços das Americanas, empresa varejista controlada por Jorge Paulo Lemann, Carlos Alberto Sicupira e Marcel Telles, três dos homens mais ricos do País.

A fraude foi surpreendente porque atingiu em cheio três personagens cultuados pelo jornalismo econômico como "heróis" do capitalismo brasileiro, que são também controladores da Ambev e atuaram no processo de privatização da Eletrobrás, realizado na calada da noite. Inexplicavelmente, a fraude também não foi captada pelos auditores da PwC, uma das maiores empresas de auditoria do mundo.

O escândalo culminou com um calote bilionário nos credores, que terá como consequência maiores restrições no mercado de crédito privado, com repercussões negativas no crescimento econômico. Além disso, os funcionários perderam seus empregos, dezenas de milhares de investidores viram seus recursos virarem pó e mais de mil fundos de investimento, até mesmo de renda fixa, foram negativamente afetados.

Para completar a catástrofe, os controladores se negaram a capitalizar a empresa, mesmo depois de terem recebido, durante vários anos, dividendos sobre lucros forjados. Além de fraude aos credores, o caso também tem indícios de fraude tributária. E os donos da empresa, que são os principais propagadores da tese da "meritocracia", com forte influência na agenda pública, ostentam um estilo de vida luxuoso, com bens como iates, helicópteros e jatinhos de altíssimo luxo.

Para realizar este projeto, a TV 247, que tem hoje praticamente 1,2 milhões de inscritos em seu canal e um histórico de diversos documentários bem-sucedidos, irá entrevistar investidores, funcionários, fornecedores das Americanas, assim como autoridades incumbidadas de regular e fiscalizar o mercado de capitais. Entre os profissionais da TV 247, estão nomes consagrados do jornalismo profissional brasileiro, como Leonardo Attuch, Florestan Fernandes Júnior, Luís Costa Pinto, Helena Chagas, Tereza Cruvinel, Joaquim de Carvalho, Hildegard Angel e Mario Vitor Santos.

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