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FUP defende controle público para autossuficiência do diesel

Federação diz que meta da Petrobras é viável, mas exige expansão do refino, reestatização de ativos e controle da cadeia para reduzir dependência externa

Tanque de Diesel R na Refinaria Presidente Bernardes (RPBC) em Cubatão (SP) (Foto: Divulgação Petrobras)

247 - A meta anunciada pela presidente da Petrobras, Magda Chambriard, de tornar o Brasil autossuficiente na produção de diesel em até cinco anos foi avaliada como positiva e factível pela Federação Única dos Petroleiros. A entidade, no entanto, sustenta que o objetivo só será alcançado com a retomada do controle público sobre refinarias e o fortalecimento da cadeia integrada de combustíveis.

Atualmente, cerca de 30% do diesel consumido no país ainda é importado, cenário que evidencia a dependência externa e a necessidade de ampliar a capacidade de refino nacional. Dados da Agência Nacional do Petróleo mostram que, em fevereiro de 2026, as importações representaram 31% da demanda. Para alcançar a autossuficiência, o Brasil precisará elevar sua produção em aproximadamente 30%. No mesmo período, a produção média foi de 844 mil barris por dia, o que exigiria um acréscimo de cerca de 260 mil barris diários.

Nesse contexto, a FUP também defende a reversão da venda de ativos estratégicos realizada nos últimos anos, como a BR Distribuidora, a Liquigás e refinarias privatizadas, consideradas essenciais para garantir maior controle sobre o abastecimento e os preços.

O coordenador-geral da FUP, Deyvid Bacelar, avalia que iniciativas já anunciadas são importantes, mas insuficientes isoladamente. “A expansão das refinarias Abreu e Lima (Rnest) e Duque de Caxias (Reduc), além da adaptação de unidades em São Paulo, são positivas, mas os investimentos precisam ser acompanhados de mudanças estruturais no setor”, pontua.

A entidade também chama atenção para os impactos recentes da política de preços no mercado. Desde 28 de fevereiro — data associada ao início do conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã — até 2 de abril, a Acelen, responsável por uma refinaria privatizada na Bahia, reajustou o diesel em 88%, a gasolina em quase 60% e o gás de cozinha em 15,2%. No mesmo período, a Petrobras manteve estáveis os preços da gasolina e do gás de cozinha e promoveu aumento de 11,4% no diesel.

Para Bacelar, a autossuficiência está diretamente ligada à reconstrução do sistema nacional de refino e distribuição. “É fundamental garantir que o país tenha controle sobre toda a cadeia, ‘do poço ao posto’. Sem isso, o Brasil continuará vulnerável às oscilações internacionais e a práticas de mercado que pressionam os preços”, afirmou.

As distorções também aparecem no repasse ao consumidor. Levantamento da ANP aponta que, em março, o diesel S500 teve alta média de 11,8% nos postos, enquanto o S10 subiu 12%, mesmo após medidas do governo federal para conter os preços, como a redução de tributos.

De acordo com Cloviomar Cararine, do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos, há uma discrepância entre a política de preços da Petrobras e a atuação de agentes privados. “Enquanto a Petrobrás mantém os preços estáveis, sem reajustes no gás de cozinha na refinaria desde novembro de 2024, há agentes privados promovendo reajustes acelerados que não refletem a realidade do mercado nacional e acabam pressionando artificialmente o custo do gás de cozinha para a população. A Petrobrás produz 75% do gás de cozinha do Brasil, o restante é importado por ela, que não reajusta o preço do produto desde novembro de 2024”, informa.

Ele acrescenta que a pressão por aumentos não encontra respaldo nos dados do mercado. “Portanto, a pressão das distribuidoras por reajustes não se justifica, pois a Acelen, que aumentou ontem o gás de cozinha em 15%, fornece para apenas três cidades da Bahia. Ou seja, o efeito da alta é localizado e não em todo o país”, finaliza.

Diante desse cenário, a FUP defende a reestatização das refinarias privatizadas e a retomada da atuação da Petrobras na distribuição de combustíveis. Para a federação, essas medidas são fundamentais para assegurar soberania energética, estabilidade de preços e proteção ao consumidor. A avaliação é de que a autossuficiência em diesel só será sustentável com planejamento de longo prazo, ampliação do refino e recomposição do controle público sobre setores considerados estratégicos.

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