Governo Lula busca excluir carne em trânsito de cota chinesa
Brasil tentará negociar com Pequim para evitar tarifa de 55% sobre cargas já embarcadas após anúncio de salvaguardas que limitam exportações
247 - O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) prepara uma ofensiva diplomática junto às autoridades da China para evitar que a carne bovina brasileira já embarcada e atualmente em trânsito seja incluída na nova cota de importação anunciada por Pequim. A intenção é impedir que esses volumes sejam alcançados pela tarifa adicional de 55% que o país asiático passará a aplicar sobre importações que ultrapassem o limite estabelecido.
As informações foram divulgadas inicialmente pela Folha de S.Paulo, com base em dados oficiais e em fontes do setor. Nesta quarta-feira (31), o Ministério do Comércio da China informou que, a partir de 1º de janeiro, passará a cobrar tarifas de 55% sobre as importações de carne bovina provenientes de países como Brasil, Argentina, Uruguai e Estados Unidos que excederem um volume determinado.
Para o Brasil, a cota fixada para 2026 será de 1,1 milhão de toneladas. Todo o volume exportado acima desse patamar ficará sujeito à sobretaxa. A medida preocupa o setor, uma vez que a China é hoje o principal destino da carne bovina brasileira.
O pedido para que a carne já embarcada não seja considerada no cálculo da cota é visto como uma das principais tentativas do governo brasileiro de reduzir os efeitos imediatos do chamado tarifaço chinês. De acordo com pessoas que acompanham de perto o mercado, entre 100 mil e 150 mil toneladas de carne podem estar nessa situação, já a caminho do país asiático.
Além dessa iniciativa, o governo brasileiro estuda, nos primeiros dias de 2026, solicitar algum tipo de compensação às salvaguardas impostas pela China. Entre as alternativas avaliadas está o pedido de acesso preferencial ao mercado chinês para miúdos bovinos e suínos, uma demanda antiga do Brasil que ainda enfrenta restrições sanitárias e comerciais.
Dados da Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes) indicam que o Brasil exportou aproximadamente 1,7 milhão de toneladas de carne bovina para a China em 2025, em sua maioria de produto in natura. Caso o novo limite seja mantido em patamares semelhantes aos deste ano, mais de 500 mil toneladas poderão ser impactadas pela tarifa adicional.
Apesar do risco, representantes do setor ressaltam que 2025 foi um ano especialmente favorável para as exportações brasileiras à China. Entre os fatores que impulsionaram as vendas está o aumento das barreiras comerciais adotadas pelos Estados Unidos durante o governo de Donald Trump, o que levou Pequim a absorver parte da carne que seria destinada ao mercado norte-americano.
Em nota conjunta, a Abiec e a CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) afirmaram que a decisão chinesa exige mudanças estruturais no setor. Segundo as entidades, as tarifas tornam necessários “ajustes ao longo de toda a cadeia, da produção à exportação, para evitar impactos mais amplos”.
No mesmo comunicado, as duas organizações destacaram que “a Abiec e a CNA seguirão acompanhando a implementação das medidas, atuando diretamente junto ao governo Brasileiro e às autoridades chinesas para reduzir os danos que essa sobretaxa causará aos pecuaristas e exportadores brasileiros e para preservar o fluxo comercial historicamente praticado”.
O governo chinês justificou a imposição das tarifas como uma medida de proteção ao mercado interno. Nos últimos anos, os preços da carne bovina no país vêm apresentando tendência de queda, influenciados por excesso de oferta e pela demanda enfraquecida em meio à desaceleração da segunda maior economia do mundo, segundo analistas do setor.
Ao mesmo tempo, as importações de carne cresceram de forma expressiva, tornando a China um mercado estratégico para grandes produtores globais, especialmente países da América Latina e a Austrália. Pesquisadores chineses concluíram que a compra de carne bovina estrangeira causou prejuízos à indústria nacional, de acordo com comunicado do Ministério do Comércio.
A investigação conduzida pelas autoridades chinesas abrangeu carne bovina fresca e congelada, com osso e sem osso. As tarifas adicionais, segundo o governo da China, terão validade de três anos e permanecerão em vigor até 31 de dezembro de 2028.

