Guerra afeta combustíveis e normalização pode levar meses
Mesmo com cessar-fogo, impacto global no petróleo persiste; governo amplia subsídios e reforça medidas para conter preços ao consumidor
247 - Mesmo diante de um eventual cessar-fogo no Oriente Médio, a normalização do mercado global de combustíveis não deve ocorrer de forma imediata. De acordo com informações da U.S. Energy Information Administration (EIA) e da International Energy Agency (IEA), a cadeia internacional de petróleo e derivados tende a enfrentar uma “ressaca logística”, com efeitos prolongados por meses após o fim de conflitos geopolíticos.
O diagnóstico, divulgado por órgãos internacionais e repercutido no Brasil, aponta que o sistema energético global opera com alta complexidade e pouca margem para falhas. Assim, rupturas como guerras provocam um efeito cascata, com acúmulo de cargas, quebra de contratos e gargalos logísticos que levam tempo para serem absorvidos, mesmo após a estabilização do cenário internacional.
No Brasil, esse impacto é ainda mais sensível. O país importa cerca de 30% do diesel que consome, o que o torna diretamente exposto à volatilidade dos preços internacionais. Nesse contexto, o principal risco não está apenas na elevação dos preços do combustível, mas na possibilidade de desabastecimento, o que amplia a relevância da atuação das distribuidoras no equilíbrio da oferta.
A composição do preço dos combustíveis evidencia essa dinâmica. Cerca de 55% do valor final corresponde ao custo do produto — que inclui produção, refino e importação. Os impostos estaduais e federais representam aproximadamente 17%, enquanto os biocombustíveis adicionados respondem por cerca de 13%. Já a distribuição representa entre 5% e 10% do preço, desempenhando papel estratégico na logística e na garantia de abastecimento em todo o território nacional, enquanto a revenda corresponde a cerca de 10%.
Governo amplia medidas para conter alta
Diante da pressão internacional sobre os preços, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva intensificou ações para reduzir os impactos ao consumidor. O pacote reúne subsídios, ajustes tributários e maior controle sobre a cadeia de distribuição.
A principal medida é a subvenção de R$ 1,20 por litro para a importação de diesel, dividida entre União e estados, além de um incentivo anterior de R$ 0,32 por litro. Em paralelo, o governo passou a exigir que distribuidoras informem semanalmente suas margens à Agência Nacional do Petróleo (ANP), com possibilidade de sanções em caso de descumprimento.
Durante coletiva, o ministro Alexandre Silveira afirmou: “As ações de fiscalização, as novas regras que foram criadas e o próprio anúncio das subvenções que estão em fase de implementação já estão conseguindo frear o aumento dos preços dos combustíveis no país. Mas, além disso, estamos criando outros mecanismos para impedir que um grupo pequeno de empresas aumente seu lucro de forma abusiva e prejudique toda a população”.
O pacote também inclui subsídio ao gás de cozinha, com aporte de R$ 330 milhões e desconto estimado de R$ 11 por botijão, além da isenção de PIS/Cofins sobre biodiesel e querosene de aviação. Há ainda previsão de crédito de até R$ 9 bilhões via BNDES para o setor aéreo e envio de projeto de lei para criminalizar aumentos abusivos de preços.
Além disso, o ministro de Relações Institucionais, José Guimarães, afirmou nesta sexta-feira (17/4) que o governo avalia subsidiar a gasolina caso o conflito com o Irã avance. “O país não vai deixar que a conta do Trump seja transferida para o consumidor. Nós não podemos aceitar isso, porque o problema da guerra atinge todo mundo, não é um problema só do governo. Claro que nós estamos governando e a responsabilidade é nossa de tomar medidas — e já tomamos algumas muito corajosas, mas elas ainda são insuficientes para dar conta do tamanho do estrago que essa guerra está fazendo no Brasil. Mas, o Dario [Durigan, ministro da Fazenda] está ciente, está conversando e eu acho que logo serão tomadas outras medidas”.


