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Tarifas dos EUA ameaçam exportações, mas Bolsa sobe e dólar recua

Mercado avalia que proposta do governo Trump tem impacto limitado no curto prazo devido às exceções, apesar de elevar a incerteza para exportadores

Tarifas dos EUA ameaçam exportações, mas Bolsa sobe e dólar recua (Foto: REUTERS/Carla Carniel)
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247 - O anúncio de uma proposta dos Estados Unidos para aplicar uma tarifa adicional de 25% sobre determinados produtos brasileiros movimentou o mercado financeiro nesta terça-feira (2). Apesar do potencial de aumentar as tensões comerciais entre os dois países, a reação inicial dos investidores foi moderada. Enquanto o Ibovespa operava em alta e o dólar registrava queda nas primeiras horas do pregão, especialistas apontavam que o impacto da medida tende a ser limitado no curto prazo devido à ampla lista de exceções prevista pelo governo norte-americano.

As informações foram publicadas originalmente pelo InfoMoney. A proposta foi apresentada no âmbito de uma investigação conduzida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), que avalia supostas práticas comerciais consideradas desleais por parte do Brasil. Entre os produtos excluídos da possível sobretaxa estão itens relevantes da pauta exportadora brasileira, como aeronaves, café e alguns insumos.

Segundo avaliação da Ágora Investimentos, a medida ainda deverá passar por consulta pública e negociações antes de uma eventual implementação. Ainda assim, a iniciativa aumenta o nível de incerteza para empresas exportadoras e pode afetar variáveis como câmbio, percepção de risco e expectativas para setores ligados ao comércio exterior.

Mercado reage com cautela

Apesar da notícia, os ativos brasileiros não registraram uma deterioração imediata. Por volta das 10h08, o Ibovespa avançava 0,61%, aos 173.245 pontos, enquanto o dólar recuava 0,18%, cotado a R$ 5,01.

Para Rachel de Sá, estrategista da XP Investimentos, uma análise mais detalhada do conteúdo da proposta ajudou a reduzir as preocupações iniciais dos investidores. Segundo ela, as exceções incluídas no pacote diminuem significativamente o alcance econômico da medida.

“Por isso, a leitura, por ora, é de que o episódio não é motivo para pânico e tende a fazer pouco preço no dia”, avalia.

Embora o mercado tenha demonstrado tranquilidade no curto prazo, especialistas alertam que o episódio não deve ser tratado apenas como um ruído político.

Risco para investimentos e fluxo de capital

Fábio Murad, sócio e fundador da Ipê Avaliações, considera que a proposta representa um risco macroeconômico concreto para o país. Na avaliação dele, mesmo com importantes setores preservados, o mercado costuma reagir negativamente a sinais de deterioração das relações comerciais e institucionais.

“Mesmo com exceções relevantes, o mercado tende a reagir ao sinal de tensão institucional e comercial entre os dois países, porque isso afeta percepção de risco, fluxo estrangeiro, câmbio e prêmio exigido para investir no Brasil”, afirma.

Murad destaca ainda que investidores internacionais costumam observar não apenas os efeitos diretos das tarifas, mas também o ambiente regulatório e diplomático do país. Um aumento da percepção de incerteza pode tornar o Brasil menos atrativo para aplicações em Bolsa, fundos, ETFs e projetos de longo prazo.

André Matos, CEO da MA7 Negócios, compartilha avaliação semelhante. Segundo ele, o tema merece atenção, mas não justifica uma reação exagerada dos mercados.

Investidor estrangeiro acompanha cenário

“Sobre a possibilidade de afastar o investidor estrangeiro, sim, há risco, mas indireto. O capital externo não é diretamente atingido pela tarifa, mas é sensível ao prêmio de risco país e à percepção de deterioração da relação bilateral”, aponta.

O especialista ressalta que qualquer aumento da instabilidade pode desacelerar a entrada de recursos estrangeiros no mercado acionário brasileiro, especialmente após um período recente de saída significativa de capital internacional.

Cassio Viana de Jesus, diretor de investimentos e novos negócios da Pilar Capital, chama atenção para o fato de que a medida ainda não está em vigor. Segundo ele, trata-se apenas de uma proposta formal apresentada pelo USTR após uma investigação aberta em julho de 2025 com base na Seção 301 da legislação comercial norte-americana.

De acordo com Viana, o cronograma prevê audiência pública no dia 6 e eventual entrada em vigor apenas após 15 de julho, o que abre espaço para negociações entre os governos.

Pressão política e regulatória

O executivo também destaca que a discussão atual difere das disputas tarifárias observadas anteriormente. Segundo ele, as justificativas apresentadas pelos Estados Unidos envolvem questões relacionadas à soberania regulatória brasileira sobre plataformas digitais, regras para comércio eletrônico, decisões judiciais envolvendo redes sociais americanas, propriedade intelectual, etanol e políticas ambientais.

“Ou seja, é tarifa usada como instrumento de pressão política e regulatória — não resposta a desequilíbrio comercial, até porque, na corrente bilateral, é o Brasil que importa mais do que exporta dos EUA”, aponta.

Na avaliação do especialista, as inúmeras isenções previstas reduzem significativamente o alcance macroeconômico da medida. Os impactos mais relevantes ficariam concentrados em determinados segmentos industriais e bens de capital, sem potencial para provocar efeitos sistêmicos na economia brasileira.

Viana também rebate interpretações de que a medida possa gerar pressão inflacionária direta no Brasil.

Efeito limitado sobre a economia

“Sobre inflação, vale desfazer um equívoco: a tarifa é paga pelo importador americano, recaindo sobre o consumidor dos EUA, não sobre o IPCA. Para o Brasil, o canal inflacionário relevante é indireto, via câmbio”, avalia.

Ele acrescenta que, no curto prazo, pode haver algum efeito sobre o fluxo de capitais de portfólio, já que investidores financeiros costumam reagir rapidamente a episódios de instabilidade institucional. No entanto, os investimentos estruturais tendem a ser menos afetados.

Segundo o executivo, a própria composição do Ibovespa ajuda a explicar a resiliência observada nesta terça-feira. Empresas como Vale e Petrobras, que possuem forte exposição a commodities negociadas globalmente, além dos grandes bancos com atuação predominantemente doméstica, estariam menos vulneráveis aos efeitos diretos da medida.

“O investidor de portfólio reage rápido a risco institucional e imprevisibilidade regulatória, podendo reduzir exposição, pressionar o dólar e abrir a curva de juros. Mas parte relevante do Ibovespa é estruturalmente menos exposta: dominado por Vale (VALE3) e Petrobras (PETR4) (commodities isentas e precificadas globalmente) e bancos (negócio doméstico), como se viu na absorção dos choques de 2025 sem ruptura”, aponta.

Para ele, os fatores que continuam determinando o comportamento dos fluxos financeiros são a situação fiscal brasileira, as decisões de política monetária do Federal Reserve e o ciclo internacional das commodities.

Negociações ainda podem alterar cenário

Na avaliação de Leonel Oliveira Mattos, analista de inteligência de mercados da Stonex, ainda não há garantia de que as tarifas propostas serão efetivamente implementadas pelo governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

“É possível que o governo Trump demore a anunciar medidas efetivas contra o Brasil ou até mesmo deixe esse prazo transcorrer antes de uma decisão. Nesse meio-tempo, a incerteza tende a permanecer”, pondera.

Diante desse cenário, analistas entendem que o mercado seguirá acompanhando atentamente os próximos passos das negociações entre Brasília e Washington. Embora a proposta represente um novo foco de tensão nas relações comerciais bilaterais, a avaliação predominante é que os impactos imediatos sobre a economia e os mercados brasileiros permanecem limitados, especialmente devido à ampla lista de produtos poupados da possível sobretaxa.

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