"Doméstica torturada expõe permanência da lógica escravagista", diz Vilma Reis
Socióloga e defensora dos direitos humanos cobrou punição rigorosa e defendeu mobilização nacional em defesa das trabalhadoras domésticas
247 - A socióloga e defensora dos direitos humanos Vilma Reis afirmou que o caso da trabalhadora doméstica grávida de cinco meses torturada pela patroa no Maranhão revela a permanência de estruturas escravagistas e racistas na sociedade brasileira.
Em entrevista ao programa Brasil Agora, da TV 247, Vilma cobrou punição rigorosa para os responsáveis pelas agressões e defendeu mobilização nacional em defesa das trabalhadoras domésticas.
O caso ocorreu em Paço do Lumiar, na Grande São Luís. A vítima, uma jovem de 19 anos grávida de cinco meses, denunciou ter sido agredida física e psicologicamente pela patroa, Carolina Estela Ferreira, e por um homem apontado como segurança da família. Segundo o relato da vítima, ela foi acusada injustamente de furtar um anel e submetida a sessões de tortura dentro da residência por uma hora.
Em áudios vazados que foram anexado ao inquérito, a patroa descreve agressões físicas contra a trabalhadora e afirma que ela “não era nem para ter saído viva”.
Vilma Reis classificou o episódio como uma expressão contemporânea da violência herdada do período escravagista brasileiro.
“A forma como ela narrou a tortura, o espancamento, foi o típico caso de sadismo escravagista”, afirmou.
Segundo a socióloga, a naturalidade com que a agressora descreveu as violências revela a sensação de impunidade e superioridade social ainda presente nas relações de trabalho doméstico no Brasil.
“É uma pessoa se autoelogiando pela brutalidade e pela sensação absoluta de impunidade”, declarou.
Vilma também lembrou que casos semelhantes já ocorreram em outras regiões do país e relacionou o episódio à morte do menino Miguel, em Pernambuco, durante a pandemia.
“Esse caso dessa nossa jovem irmã no Maranhão nos lembra também o que enfrentou a nossa irmã em Pernambuco, Mirtes Renata”, disse.
A defensora dos direitos humanos afirmou que o caso precisa mobilizar sindicatos, movimentos feministas, entidades de direitos humanos e órgãos públicos do Maranhão.
“Eu penso que nós precisamos mexer com algumas instâncias do Maranhão para que esse caso não fique impune”, declarou.
Vilma destacou o trabalho da Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (DEAM), responsável pelo acolhimento da vítima.
“Nossos parabéns para a Delegacia Especial de Atendimento à Mulher no Maranhão, que corretamente acolheu essa jovem de dezenove anos grávida”, afirmou.
Ela também defendeu atuação da Defensoria Pública, do Sistema Único de Assistência Social (SUAS) e de estruturas de proteção às mulheres.
“Essa mulher agora precisa de amparo e acolhimento, ela precisa de escuta qualificada”, disse.
Ao comentar as condições de trabalho relatadas pela jovem agredida, Vilma Reis criticou a precarização enfrentada por trabalhadoras domésticas no Brasil.
Segundo o depoimento da vítima, ela trabalhava de segunda a sábado, das 9h às 19h, com apenas 30 minutos de intervalo.
“Esse é um trabalho insalubre”, denuncia Vilma, lembrando que a luta das trabalhadoras domésticas no Brasil foi historicamente marcada pela ausência de direitos trabalhistas básicos.
“Foi somente em 2015, com a aprovação da PEC das Domésticas, que a gente passou a ter o conjunto dos direitos”, declarou.
Vilma também destacou a importância histórica da luta liderada por mulheres negras e trabalhadoras domésticas no país, citando nomes como Laudelina de Campos Melo, Creuza Oliveira e Conceição Evaristo.
“Derrubar a escala 6x1 tem um potencial civilizador”
Durante a entrevista, Vilma Reis também relacionou o caso à discussão sobre jornada de trabalho e direitos trabalhistas.
“Estamos lutando para derrubar essa escala seis por um, porque para muitas de nós a escala é sete por zero”, afirmou.
Segundo ela, a redução da jornada representa uma transformação estrutural nas relações de trabalho brasileiras.
“Derrubar a escala seis por um tem um potencial civilizador para o mundo do trabalho no Brasil”, declarou.
Vilma criticou ainda setores do empresariado que, segundo ela, tratam trabalhadores e trabalhadoras de forma desumana.
“É um patronato que despreza os trabalhadores e as trabalhadoras”, afirmou.
“Nossa presença é civilizadora”
Ao final da entrevista, Vilma Reis fez um chamado à mobilização popular e à defesa dos direitos das mulheres, especialmente das trabalhadoras domésticas negras e periféricas.
“A nossa presença é civilizadora, ela tem um potencial revolucionário”, declarou.
Ela também afirmou que o país precisa enfrentar estruturas históricas de desigualdade racial e social.
“Esse Brasil conservador, reacionário, que nos desumaniza”, disse.
Vilma encerrou a entrevista defendendo organização social e fortalecimento das lutas populares. “Esse é um tempo de organizar a luta”, concluiu.

