Filme de Dandara Ferreira revisita a CPI da Covid e resgata a memória da pandemia
Em entrevista à TV 247, diretora diz que Anatomia do Caos resgata a memória da pandemia e cobra justiça
247 – A diretora Dandara Ferreira afirmou que seu documentário Anatomia do Caos nasce da necessidade de preservar a memória da pandemia de Covid-19 e impedir que uma das maiores tragédias da história recente do Brasil seja reduzida ao esquecimento. Em entrevista ao programa Mario Vitor e Regina Zappa, da TV 247, a cineasta explicou que a obra reconstrói os bastidores da CPI da Covid e procura estimular uma reflexão sobre as responsabilidades políticas e humanas pela condução da crise sanitária durante o governo Jair Bolsonaro.
Com estreia marcada para 2 de julho nos cinemas, o documentário reúne imagens inéditas, registros dos bastidores da comissão parlamentar e depoimentos que, segundo a diretora, ajudam a compreender a pandemia não apenas como uma emergência de saúde pública, mas como um acontecimento político, social e histórico que ainda produz consequências no país.
"O filme é sobre a disputa pela memória de uma das maiores tragédias da nossa história recente. Os dois temas centrais são memória e justiça", afirmou Dandara. "A maior contribuição do filme é fazer com que a pandemia seja lembrada não apenas como uma crise sanitária, mas como um acontecimento político, social e humano que transformou o Brasil."
A diretora contou que decidiu registrar a CPI quando percebeu que as investigações produziriam um documento histórico sobre a atuação do Estado durante a pandemia. Sem equipe e praticamente sozinha, assumiu todas as funções da produção.
"Fui eu sozinha. Nunca tinha operado uma câmera. Operei câmera, som, produção e fui descobrindo a história enquanto ela acontecia", relatou.
Segundo Dandara, o acesso ao Senado foi sendo conquistado gradualmente, à medida que conquistava a confiança de parlamentares e assessores. Utilizando uma câmera pequena para não chamar atenção, ela buscou permanecer praticamente invisível durante as sessões e nos bastidores da comissão, registrando momentos que dificilmente apareceriam na cobertura tradicional da imprensa.
A cineasta afirmou que o documentário nasceu também de uma necessidade pessoal de reagir ao período vivido pelo país.
"A pandemia foi um luto coletivo. A gente tenta esquecer porque foi um período muito duro. O filme é uma contribuição para que essa história não seja esquecida e para que haja justiça", declarou.
Durante a entrevista, Dandara ressaltou que o longa aborda temas que permanecem atuais, como o negacionismo científico, a desinformação, a responsabilização de agentes públicos e a banalização da morte.
"Naturalizar o que aconteceu é rebaixar o valor da vida a um nível insuportável", afirmou.
Entre os momentos mais marcantes da obra, a diretora destacou depoimentos de familiares de vítimas da Covid e relatos envolvendo hospitais privados investigados pela CPI. Ela lembrou que uma das frases mais impactantes presentes no documentário é "óbito também é alta", expressão que, segundo ela, simboliza a lógica desumanizada revelada pelas investigações.
Na avaliação da cineasta, o documentário evidencia que, enquanto milhares de brasileiros morriam, interesses políticos e econômicos conviviam com a disseminação do negacionismo e da desinformação.
O filme foi estruturado em três eixos narrativos: o chamado gabinete paralelo, as denúncias de corrupção envolvendo a pandemia e a política negacionista do governo Bolsonaro. Dandara explicou que o recorte foi necessário diante do enorme volume de imagens registradas ao longo de sete meses de acompanhamento da CPI.
"Se você fala de tudo, acaba não falando de nada", resumiu.
A montagem do documentário consumiu cerca de três anos. Segundo a diretora, todo o processo foi emocionalmente desgastante, tanto para ela quanto para os profissionais envolvidos na finalização da obra.
"Foi muito pesado revisitar tudo aquilo. Todo mundo que entrou na montagem dizia a mesma coisa: era difícil reviver aquelas falas, aquelas cenas e aqueles absurdos", contou.
Ao comentar a relação entre documentário e jornalismo, Dandara destacou que as duas linguagens cumprem funções complementares.
"O jornalismo tem compromisso com a notícia e com a urgência dos fatos. Um filme pode nos fazer sentir o peso do que aconteceu e compreender suas consequências humanas, políticas e históricas", afirmou.
Após a estreia nos cinemas, a diretora pretende ampliar o alcance do documentário por meio de plataformas de streaming ou, se necessário, disponibilizá-lo gratuitamente em ambiente digital.
"Meu objetivo é que esse filme chegue ao maior número possível de pessoas. Não é um filme pensado do ponto de vista comercial. É um filme com interesse social", disse.
Dandara também rejeitou interpretações de que o lançamento tenha caráter eleitoral. Para ela, a obra busca preservar a memória coletiva em um momento importante da vida política brasileira.
"O filme não é apenas sobre Bolsonaro. É sobre um país, sobre estruturas de poder, sobre vulnerabilidade coletiva e sobre como a política atravessa a vida das pessoas", concluiu.
