Ludovitch defende engenharia nacional e diz que Brasil não pode voltar a ser colônia
Candidato ao Confea critica privatizações, enfraquecimento das empresas brasileiras e cobra um projeto soberano de desenvolvimento
247 - O engenheiro civil Henrique Ludovitch defendeu a retomada de um projeto nacional de desenvolvimento baseado na soberania, no fortalecimento da engenharia brasileira e na reconstrução da capacidade tecnológica do Estado. Em entrevista ao programa Conversas com Hildegard Angel, Ludovitch afirmou que o Brasil precisa deixar de atuar como mero exportador de matérias-primas e voltar a transformar conhecimento científico em tecnologia, indústria, infraestrutura e empregos qualificados.
“Nós não podemos absolutamente ser um exportador de matéria-prima e consumidor de material de alta tecnologia. O Brasil não pode voltar a ser colônia de país algum”, declarou. Para ele, a engenharia não deve ser tratada apenas como pauta corporativa, mas como eixo de um projeto de país “desenvolvido social e economicamente, inclusivo, soberano e sustentável”.
Ex-presidente do Confea e candidato novamente à presidência do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia, Ludovitch criticou a privatização da Eletrobras, que, segundo ele, reduziu a capacidade do Estado brasileiro de induzir investimentos estratégicos no setor elétrico. Ele lembrou que a estatal respondia por parcela expressiva da geração e da transmissão de energia no país e teve papel decisivo em programas de universalização, como o Luz para Todos.
“Levamos energia elétrica aos confins mais distantes do nosso país, às aldeias indígenas, aos assentamentos rurais, aos municípios mais pobres”, afirmou. Ludovitch sustentou que a chegada da energia teve impacto direto em indicadores sociais, como educação, saúde pública e fixação de populações em áreas antes marcadas pelo isolamento.
Na entrevista, ele também associou o enfraquecimento da engenharia nacional à destruição de grandes empresas brasileiras de construção e consultoria. Ao comentar os efeitos da Lava Jato, defendeu que eventuais casos de corrupção deveriam ter sido punidos sem comprometer a existência de companhias estratégicas. “Puna-se a corrupção e os corruptos, mas não se destrua empresas brasileiras, empresas nacionais”, disse.
Ludovitch citou como exemplo recente a licitação do túnel Santos-Guarujá, na qual, segundo ele, nenhuma empresa brasileira conseguiu se credenciar nos termos do edital. Para o engenheiro, o país deveria exigir, em obras de alta complexidade, mecanismos de transferência de tecnologia, como consórcios entre empresas estrangeiras e nacionais ou participação de companhias brasileiras na fiscalização e execução dos projetos.
Outro ponto central da entrevista foi a queda do interesse dos jovens pela engenharia. Ludovitch afirmou que, em décadas anteriores, os melhores estudantes buscavam carreiras tecnológicas porque havia empresas fortes, salários atraentes e perspectiva de participação em grandes projetos nacionais. Hoje, segundo ele, a falta de valorização profissional, o descumprimento do salário mínimo da categoria e a ausência de carreiras públicas estruturadas afastam a juventude.
“O país só será competitivo em termos internacionais se tiver uma área tecnológica forte”, afirmou. Ele defendeu a criação de um programa “Mais Engenharia”, inspirado no Mais Médicos, para levar profissionais qualificados a municípios carentes, sobretudo aqueles sem equipes técnicas capazes de elaborar projetos e captar recursos para obras de saneamento, mobilidade, energia, habitação e infraestrutura.
Na avaliação de Ludovitch, a engenharia brasileira já deu provas históricas de sua capacidade, da Petrobras ao pré-sal, da expansão energética à transposição do São Francisco, da Embrapa à transformação do Cerrado em área produtiva. Para ele, esses exemplos demonstram que o Brasil tem condições de disputar mercados internacionais, desde que volte a apostar em ciência, tecnologia, empresas nacionais e planejamento estatal.
O engenheiro também criticou a perda de instrumentos públicos estratégicos, como refinarias e a BR Distribuidora, e defendeu que a Petrobras retome sua atuação integrada “do poço ao posto”. Na visão de Ludovitch, sem empresas públicas fortes, o governo perde capacidade de interferir em setores sensíveis, como energia e combustíveis, em defesa do interesse nacional.
Ao tratar da eleição do sistema Confea-Creas-Mútua, marcada para 3 de julho, Ludovitch afirmou que sua candidatura representa um campo democrático e soberanista dentro da engenharia. Ele disse que pretende mobilizar profissionais, entidades e conselhos regionais em torno de uma agenda de valorização da área tecnológica e de defesa do desenvolvimento nacional.
“A engenharia nacional, a agronomia e as geociências já demonstraram a complexidade do seu trabalho e a sua capacidade de fazer o país avançar”, afirmou. “Precisamos estar cada vez mais integrados ao mundo, mas sempre de forma soberana.”
