Nísia Trindade: “O Brasil voltou a avançar na vacinação infantil”
Ex-ministra destaca recuperação das coberturas vacinais, fortalecimento do SUS e combate à desinformação como pilares da retomada da imunização no país
247 - A ex-ministra da Saúde Nísia Trindade afirmou que a recuperação da vacinação infantil foi uma das principais conquistas dos primeiros anos do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em entrevista ao programa Bom Dia 247, ela destacou que o país enfrentava um cenário de forte queda nas coberturas vacinais e de desconfiança em relação às políticas públicas de imunização, resultado de anos de disseminação de desinformação e enfraquecimento das estruturas de saúde pública.
Segundo Nísia, a reconstrução desse processo exigiu uma ampla mobilização nacional envolvendo o Ministério da Saúde, estados, municípios, instituições científicas, entidades médicas e organismos internacionais. O objetivo, afirmou, era recuperar a confiança da população e restabelecer a capacidade do Sistema Único de Saúde (SUS) de alcançar crianças e famílias em todo o território nacional.
“O Brasil estava entre os vinte países que menos vacinavam crianças”, lembrou a ex-ministra ao descrever o cenário encontrado no início da gestão.
A reversão desse quadro começou a aparecer nos indicadores de imunização. De acordo com Nísia, 16 das 17 vacinas do calendário infantil registraram aumento de cobertura durante sua gestão. Entre os resultados alcançados, ela destacou a recuperação do certificado de eliminação do sarampo, reconhecimento internacional que depende tanto da vacinação quanto da manutenção de uma rede eficiente de vigilância epidemiológica.
Para a ex-ministra, o avanço só foi possível porque houve uma recomposição da capacidade de coordenação do Ministério da Saúde. Ela afirmou que uma das prioridades foi reconstruir a relação de confiança entre o governo federal, os gestores estaduais e municipais e a comunidade científica, que voltou a participar da formulação das estratégias de imunização.
Nísia também ressaltou que o combate à desinformação se tornou uma frente permanente da política pública. Segundo ela, a pandemia de Covid-19 marcou a consolidação de uma estratégia política baseada no negacionismo científico, que transformou vacinas em objeto de disputa ideológica e comprometeu a adesão da população às campanhas de imunização.
A ex-ministra argumentou que enfrentar esse fenômeno exigiu não apenas desmentir notícias falsas, mas criar condições para que a população voltasse a confiar nas instituições de saúde. Nesse processo, tiveram papel importante as campanhas de comunicação pública, o trabalho das equipes locais do SUS e a aproximação entre saúde e educação.
Um dos exemplos citados foi a retomada da vacinação nas escolas, iniciativa que permitiu ampliar o alcance das campanhas e facilitar o acesso de crianças e adolescentes aos imunizantes. Segundo Nísia, a articulação entre os sistemas de saúde e educação ajudou a recuperar uma tradição histórica do país na promoção da vacinação em massa.
Ela destacou ainda que a experiência demonstrou a importância de políticas públicas estruturadas e permanentes. Em sua avaliação, campanhas de imunização não produzem resultados imediatos e dependem de planejamento, financiamento e continuidade administrativa para alcançar metas de proteção coletiva.
Durante a entrevista, Nísia aproveitou para reforçar a importância das campanhas atualmente em curso, como a vacinação contra a influenza e a imunização contra o HPV para meninas e meninos entre nove e 14 anos. Segundo ela, a prevenção continua sendo uma das ferramentas mais eficazes para reduzir doenças e proteger a população.
Ao analisar os desafios futuros, a ex-ministra defendeu a manutenção dos investimentos no SUS, na ciência e na vigilância em saúde. Para ela, a recuperação das coberturas vacinais demonstra que o Brasil possui capacidade técnica e institucional para enfrentar crises sanitárias, desde que haja compromisso com a ciência, coordenação federativa e políticas públicas voltadas para o interesse coletivo.

