"O cérebro ainda é do neandertal, mas a tecnologia é dos deuses"
Raimundo Oliveira relembra prisões na ditadura, passagem pela Petrobras e IBM e defende projeto nacional
247 - Aos 85 anos, o engenheiro e professor Raymundo Theodoro Carvalho de Oliveira revisitou episódios decisivos de sua vida — da expulsão do ITA e prisões durante a ditadura militar a funções estratégicas na Petrobras e na área de tecnologia — e usou a própria trajetória para fazer um alerta sobre o descompasso entre avanço tecnológico e maturidade política no mundo.
A entrevista foi exibida na TV 247, no programa Conversas com Hildegard Angel, e está disponível no YouTube. Ao longo do diálogo, Oliveira narrou passagens pessoais, detalhou bastidores profissionais e afirmou que o Brasil só supera ciclos de crise se voltar a pensar em planejamento de longo prazo.
Da matemática ao ITA, e o choque com a ditadura
Oliveira contou que sua escolha pela engenharia não nasceu de “vocação romântica”, mas de afinidade objetiva com números. “Eu era bom em matemática e não era bom em português”, disse, explicando que decidiu disputar o ITA por ser “a escola mais difícil”. No ambiente da instituição, recordou, havia uma cultura de distanciamento do movimento estudantil tradicional: “A média dos alunos se julgava meio acima do normal, meio genial”.
A virada veio quando participou de uma assembleia para filiar o ITA à UNE. “Eu fui expulso do ITA porque eu, como estudante, tinha participado de uma assembleia para filiar o ITA à UNE”, relatou. Depois do golpe, descreveu um clima de vigilância e denúncias, inclusive internas: “Houve colegas que denunciaram”. Ele foi levado à prisão e passou meses detido. “Eu fiquei preso três meses”, disse, ao lembrar que esteve em instalações da Aeronáutica no Guarujá.
A expulsão, a UFF e o peso de um nome
Sem concluir o curso no ITA, Raimundo se transferiu para a Universidade Federal Fluminense, onde se formou engenheiro eletricista. Ele fez questão de registrar o papel decisivo do então diretor que viabilizou sua matrícula: “Graças a um grande brasileiro chamado Otávio Cantanhede… foi ele que nos garantiu a matrícula”. Na avaliação do entrevistado, até aceitar um estudante nessas condições tinha custo político na época, pois poderia ser visto como “acobertar esquerdistas”.
Modelos matemáticos, Petrobras e a lógica do petróleo
No campo técnico, Raimundo descreveu uma fase em que ajudou a introduzir métodos de decisão na Petrobras. “Muitas dessas coisas eu introduzi na Petrobras”, afirmou, ao explicar que participou de um grupo pioneiro de programação linear e pesquisa operacional. O foco era estratégico: escolher, entre diferentes origens, quais petróleos importar para refinar gastando menos divisas. “Definir que petróleo o Brasil deveria importar para refinar, para atender ao mercado interno”, resumiu.
Ele situou o contexto: a estatal já era grande, mas o país ainda dependia de importações. “Produzia 25% a 30% do que o Brasil precisava”, recordou. No modelo, entravam petróleos nacionais e estrangeiros — ele citou exemplos como Venezuela e Iraque — e o sistema indicava quantidades e combinações para reduzir custos e atender às características das refinarias.
IBM, prêmios e a segunda prisão
Depois de ser desligado da Petrobras — “Eu fui expulso da Petrobras porque descobriram que eu tinha sido expulso do ITA”, disse —, Raimundo foi para a IBM, onde relata ter vivido um contraste: “Eu fui tratado no colo”. Ele citou reconhecimentos internos e viagens como parte de programas de desempenho: “Era um prêmio… chamava-se top performance”.
Mesmo na IBM, voltou a ser preso. “Me prenderam… eu saindo de manhã pro trabalho”, afirmou, ressaltando que o peso institucional da empresa ajudou a evitar desfechos piores: “Isso ajudou muito a não me matar”.
Engenharia nacional, Promon e críticas à destruição de capacidades
Ao comentar a passagem pela Promon, Oliveira afirmou que viu ali um símbolo do que considera perdas estruturais para o país. “A Promon representa… um dos crimes que fizeram contra o Brasil, contra a engenharia brasileira”, declarou, associando a erosão de grandes empresas de engenharia e construção a processos políticos e econômicos mais amplos. Na entrevista, ele citou a Operação Lava Jato como fator central de destruição de capacidades e também mencionou impactos de políticas anteriores.
Nesse trecho, Raimundo narrou ainda um encontro com Norberto Odebrecht, quando presidia o Clube de Engenharia, para reforçar a aproximação institucional com o setor. “Eu quero dizer que a Odebrecht era um patrimônio do Brasil”, afirmou, citando exemplos de atuação internacional da empresa como evidência de competitividade.
Tecnologia acelerada e o risco global
Um dos momentos mais marcantes da conversa veio quando Raimundo voltou a uma tese que atravessa sua visão de mundo: o avanço técnico corre à frente da maturidade social. Ele comparou o cérebro humano a eras remotas, enquanto a tecnologia alcança potência inédita — e perigosa. “É como se você tivesse um jardim da infância e cada criança com uma metralhadora na mão”, afirmou, para explicar a ideia de que ferramentas extremamente letais operam nas mãos de sociedades ainda movidas por impulsos primitivos.
Nesse contexto, ele também comentou tensões internacionais e criticou decisões políticas recentes envolvendo o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, especialmente em debates sobre petróleo e instabilidade global, sempre dentro do tom de preocupação com a escalada de conflitos.
A missão na Colômbia e a libertação de engenheiros
Raimundo relatou um episódio que, segundo ele, ficou pouco comentado dentro da Petrobras: a negociação para libertar três engenheiros sequestrados na Colômbia pelo Exército de Libertação Nacional (ELN). Ele disse que alertou a direção sobre a necessidade de dialogar com quem compreendesse “a linguagem da guerrilha” e aceitou a missão quando foi designado. “Eu não fiz nenhum ato heróico… eu era só o chefe da missão”, afirmou, descrevendo o uso de interlocução local e uma carta de Pedro Casaldáliga como peça importante para abrir caminhos.
Ao lembrar do impacto humano do caso, contou que visitou familiares e ouviu pedidos diretos. “Eu tinha visitado… a mãe de um dos engenheiros que me implorou: traz o meu filho de volta”, disse.
“O Brasil não tem projeto”, diz Raimundo
Na reta final, o engenheiro conectou memória e diagnóstico: para ele, o país não consegue sustentar desenvolvimento sem planejamento continuado. “O Brasil não tem projeto”, afirmou, criticando que a política nacional seja empurrada por crises e escândalos em vez de metas claras. “O Brasil é dirigido pelos escândalos”, completou, defendendo que entidades como o Clube de Engenharia ajudem a sustentar a ideia de um projeto de nação com horizonte de décadas, incluindo educação, indústria, energia e enfrentamento da crise climática.