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“Quem diz que defende a família e é contra o fim da escala 6x1 é hipócrita”

Deputado federal Otoni de Paula afirma ao Bom Dia 247 que a jornada 6x1 impede a convivência familiar e deve ser tratada como pauta humanitária

“Quem diz que defende a família e é contra o fim da escala 6x1 é hipócrita” (Foto: Brasil 247)

247 - O deputado federal Otoni de Paula (PSD-RJ) defendeu, em entrevista ao Bom Dia 247, que o debate sobre o fim da escala 6x1 seja tratado como uma questão humanitária, ligada à convivência familiar, à saúde mental e à dignidade do trabalhador. Segundo ele, parlamentares que afirmam defender a família entram em contradição quando se opõem à redução desse modelo de jornada.

Para Otoni, o tema não deve ser limitado à disputa entre direita e esquerda. “Ser contra a escala 6x1 e lutar por uma escala que respeite minimamente o lado psicológico, o lado social e o lado humano do trabalhador, enquanto se diz defensor da família, é hipocrisia”, afirmou o deputado ao Bom Dia 247.

O parlamentar afirmou que a escala 6x1, na prática, retira de trabalhadores e trabalhadoras a possibilidade de convívio com seus filhos. Ele citou como exemplo a rotina de mães solo que saem de casa de madrugada, deixam os filhos dormindo e retornam quando eles já estão novamente dormindo. “Como eu digo que defendo a família e não dou dignidade a uma mãe solo para ter mais um dia com o seu filho? Essa mulher sai de madrugada para trabalhar, deixa o filho dormindo e, quando volta, muitas vezes encontra o filho dormindo também”, disse.

Otoni destacou que a jornada formal não pode ser analisada sem considerar o tempo gasto nos deslocamentos. No caso de trabalhadores da Baixada Fluminense que atuam na capital do Rio de Janeiro, afirmou, o trajeto pode consumir várias horas por dia. “Você precisa somar a carga horária de trabalho com o tempo que essa pessoa gasta dentro do ônibus, da van ou do metrô. Há trabalhador que leva duas, três e, quando há engarrafamento, até quatro horas para ir, e mais quatro para voltar”, declarou.

Segundo o deputado, o único dia livre de muitos trabalhadores acaba sendo usado para tarefas domésticas, e não para descanso ou convivência. “O único dia que essa mãe teria para descansar é o dia em que ela vai colocar a casa em ordem. Ou seja, ela não tem convívio maternal com essa criança. Por causa de uma carga horária pesada de trabalho, ela teve que terceirizar a maternidade”, afirmou.

O parlamentar relacionou a jornada 6x1 ao enfraquecimento dos laços familiares. Para ele, parte dos problemas sociais está ligada à ausência de tempo de convivência entre pais, mães e filhos. “Boa parte das desgraças sociais que nós estamos vendo hoje vem justamente desse esgarçamento familiar”, disse. “Nós somos uma geração que ainda teve algum convívio com pai e mãe, que nos deram valores mínimos porque conviveram conosco.”

Otoni também criticou a redução da defesa da família a pautas morais. Ele afirmou que, embora considere essas questões importantes em sua visão cristã, a atuação legislativa não pode ficar restrita a esse campo. “Eu sei qual é a família que alguns dizem defender. É a família do órgão genital. Hoje, para muitos, a defesa da família é apenas moral, orbita na esfera genital, se é homem, se é mulher, se é casal de dois homens ou duas mulheres, se é família tradicional ou não”, afirmou.

Para o deputado, a defesa da família deve abranger as condições concretas de vida dos trabalhadores. “As pautas morais são importantes, e eu as defendo pela minha cosmovisão cristã do mundo. Mas eu entendo que minha pauta moral, por mais importante que seja para mim, não pode ser a única coisa a orientar o poder que me foi conferido pelo povo brasileiro como legislador”, disse.

Ele afirmou ainda que há temas ligados à família que vão além da moralidade, e que a jornada de trabalho é um deles. “Há muito mais temas que orbitam a questão familiar do que propriamente a pauta moral. E o tema da escala 6x1 é um tema importante”, declarou.

Otoni rejeitou o argumento de que o fim da escala 6x1 quebraria o país. Para ele, o mercado tende a se adaptar a mudanças na legislação trabalhista. “Vai quebrar o Brasil? Não vai quebrar o Brasil, porque o mercado se adapta”, afirmou. “Quem vai pagar essa conta é todo mundo? Todo mundo sempre paga a conta. O empresário sempre repassa para a sociedade por meio do aumento de preços, e a gente paga do mesmo jeito.”

Na avaliação do deputado, a discussão sobre a escala de trabalho deve ser colocada acima de disputas eleitorais ou ideológicas. “Isso não deveria ser um debate dentro de espectros político-partidários ou ideológicos. Isso é uma pauta humanitária. É uma pauta que deveria estar acima de Lula e Bolsonaro, acima de direita e esquerda”, afirmou.

O parlamentar concluiu que a oposição à mudança na escala 6x1 revela uma contradição central no discurso de quem usa a família como bandeira política. “Quem defende a família, mas é contra o fim da escala 6x1, é contra o direito do pai e da mãe de dedicar mais tempo ao filho, de ter o mínimo de lazer e convivência com o filho”, disse.