Renata Souza: “Eu perdi a minha liberdade ao entrar na política”
Deputada Renata Souza relata ameaças de morte, cobra investigação e diz que falta protocolo de resposta rápida do Estado
247 - A deputada estadual Renata Souza (PSOL-RJ) afirmou que passou a viver sob escolta e com restrições permanentes de rotina após receber ameaças e ter dados pessoais expostos, e disse que “não dá para naturalizar” que representantes eleitas sejam intimidadas por meio de violência política. Segundo ela, o objetivo das mensagens é impedir sua atuação e frear sua trajetória, especialmente em período eleitoral.
As declarações foram dadas ao programa Bom Dia 247, da TV 247, em entrevista na qual a parlamentar detalhou como as ameaças chegaram, quais medidas de proteção foram adotadas e por que defende uma resposta institucional imediata para identificar autores e responsabilizá-los.
Renata Souza contou que as ameaças chegaram por e-mails pessoais, incluindo contas que ela já não utilizava, e também atingiram assessoras. “Essa ameaça chegou nos meus e-mails pessoais, inclusive e-mails que eu já não usava”, disse. Para ela, isso indica acesso indevido a dados: “Chegaram também por e-mails pessoais de duas assessoras minhas, ou seja, essa pessoa tem investigado, né, tem, enfim, uma rota em que os nossos dados ficaram disponíveis”.
A deputada afirmou que o nível de detalhamento das mensagens buscou intimidar e inviabilizar sua atuação. “Esse tipo de ameaça com essa riqueza de detalhes sórdidos, violentos, de como seria o meu assassinato, revela o tamanho da tentativa de intimidação, de ameaça e de inviabilização”, declarou. Ela situou o problema no contexto da violência política que atinge mulheres, especialmente mulheres negras: “A política já é um lugar extremamente hostil para nós mulheres, em especial nós mulheres negras”.
Na entrevista, Renata Souza disse que acionou autoridades e órgãos federais diante do conteúdo e da assinatura usada nas mensagens. “Acho que os órgãos públicos precisam responder, a contento, em especial os órgãos de investigação, as polícias”, afirmou. Ela relatou que busca envolver instâncias nacionais para apurar possíveis conexões com grupos extremistas: “A gente está acionando o Ministério da Justiça, a Polícia Federal, justamente para entender que esses grupos fascistas, neonazistas podem estar por trás disso”.
A deputada também conectou as ameaças ao histórico de sua atuação política e às pautas que defende. Ao lembrar sua trajetória ao lado de Marielle Franco, disse: “Eu venho para a política junto com Marielle, a gente trabalhou 20 anos juntas” e relatou que, após a eleição de Marielle, foi convidada para chefiar o gabinete. “Com ela trabalhei até o seu feminicídio político”, afirmou. Na avaliação de Renata, as mensagens miram diretamente a agenda que a levou à votação expressiva. “Esse e-mail ataca exatamente todas as perspectivas que nos levaram a ser a mulher mais votada da história do Rio de Janeiro”, disse, ao tratar do teor discriminatório presente nas ameaças.
Renata Souza afirmou que o caso não se limita à sua segurança individual e que o conteúdo das mensagens tem impacto institucional. “Não estão atacando a mim somente, estão atacando a democracia brasileira, estão atacando todos aqueles e aquelas que defendem pautas de garantia de dignidade e direito à vida”, declarou. Para ela, a dimensão do problema exige reação pública com responsabilização: “É sem dúvida nenhuma, um ataque ao Estado democrático de direito. E é por isso que o Estado democrático de direito precisa demonstrar firmeza nas investigações”.
Questionada sobre providências adotadas para protegê-la, a deputada disse que passou a ter escolta e carro blindado desde o início do mandato, citando o contexto de ameaças já em 2018. “Eu rapidamente acionei todos os órgãos, o partido e a própria Assembleia Legislativa de que eu não tomaria posse se eu não tivesse à minha disposição carro blindado e segurança”, afirmou. Depois, detalhou como a proteção foi estruturada: “Primeiro chegou o carro blindado, depois uma equipe de policiais”, acrescentando que houve um cuidado adicional na escolha da equipe. “Foram escolhidos a partir de policiais que são policiais antifascistas, que a gente tem confiança também no trabalho”, disse.
Mesmo com medidas de proteção, Renata Souza relatou mudanças sucessivas e perda de autonomia cotidiana. “Eu já tive que me mudar duas vezes, porque o meu endereço também foi parar numa rede bolsonarista”, afirmou. Em seguida, descreveu o impacto na rotina: “Eu mudei completamente a minha rotina. Eu não vou à padaria sozinha”. E concluiu: “Eu perdi a minha liberdade ao entrar na política diante de uma situação extremamente grave”.
Ao explicar por que considera insuficiente a resposta institucional até aqui, a deputada apontou a ausência de um procedimento padrão nas investigações. “A gente não tem nos órgãos de investigação nenhum tipo de protocolo que garanta uma ação imediata diante das ameaças e violências sofridas, em especial pelas mulheres negras”, afirmou. Ela disse que registrou ocorrências e aguarda retorno: “A própria delegada falou que já fez os procedimentos iniciais para a abertura da investigação. Então eu tô aguardando”, mas ressaltou que ainda não teve respostas de casos anteriores. “Eu sequer tenho resposta das investigações anteriores”, declarou.
A parlamentar também mencionou que levou o caso a organismos internacionais como forma de pressionar o Estado brasileiro a se comprometer com providências. “Provocando a ONU e a OEA, a gente tem o Estado brasileiro comprometido no processo”, afirmou. Para ela, trata-se de ativar mecanismos internacionais de direitos humanos para obter resposta concreta: “São organizações de direitos humanos internacionais que podem exercer (...) a provocação do Estado brasileiro. E é isso que a gente quer”.
Renata Souza disse que busca diálogo com autoridades estaduais e que estava com reunião marcada com o secretário de Segurança do Rio de Janeiro. “Hoje eu tenho uma reunião com o secretário de polícia do estado do Rio de Janeiro”, afirmou, e corrigiu em seguida: “De segurança”. Segundo ela, o objetivo é apresentar as informações e cobrar andamento: “Solicitar o que foi feito nas investigações anteriores”.
Na entrevista, a deputada evitou especular sobre quem está por trás das ameaças e afirmou que cabe ao poder público esclarecer a autoria. “Eu acho que as autoridades públicas precisam dar essa resposta”, disse. “Eu espero que as autoridades me digam quem foi de fato”, completou, ao defender que o caminho de rastreamento das mensagens seja seguido pelas instituições responsáveis.
