“Responsabilidade pelo caso Banco Master é de Bolsonaro e Campos Neto”, afirma Edinho Silva
Presidente do PT defende revisão da autonomia do Banco Central, critica juros elevados e cobra maior protagonismo do Estado no desenvolvimento econômico
247 - Em entrevista ao jornalista Breno Altman, no programa 20 Minutos, do Ópera Mundi, o ex-prefeito de Araraquara e presidente do PT, Edinho Silva atribuiu ao governo de Jair Bolsonaro e à gestão de Roberto Campos Neto no Banco Central a responsabilidade política pela criação das condições que permitiram a atuação do Banco Master, instituição que se tornou alvo de controvérsias no sistema financeiro brasileiro.
Ao comentar a autonomia do Banco Central, Edinho afirmou que o episódio envolvendo o Banco Master demonstra a necessidade de reavaliar o modelo atualmente em vigor. Para ele, a independência da autoridade monetária não pode ser tratada como um dogma, sobretudo diante de falhas de supervisão que, segundo sua avaliação, ocorreram durante a gestão anterior.
“Essa autonomia do Banco Central levou à criação do Banco Master. Então, que autonomia é essa? Onde, dentro do coração do Banco Central, você pariu a maior fraude financeira da história brasileira?”, questionou.
O dirigente petista sustentou que as autorizações concedidas à instituição financeira ocorreram sob um Banco Central autônomo, argumento que, segundo ele, enfraquece a narrativa de que a independência da autoridade monetária seria, por si só, uma garantia de eficiência e segurança para o sistema financeiro.
“O Banco Master foi criado dentro do Banco Central. As autorizações de operação do Banco Master foram dadas pelo Banco Central autônomo”, declarou.
Críticas aos juros altos
Durante a entrevista, Edinho também criticou a política monetária adotada nos últimos anos e afirmou que o processo de redução da taxa básica de juros deveria ter ocorrido de forma mais rápida. Segundo ele, o debate sobre inflação no Brasil precisa distinguir fatores estruturais de elementos conjunturais e temporários.
Na avaliação do petista, eventos como quebras de safra ou oscilações de preços provocadas por fatores climáticos e geopolíticos não deveriam justificar, isoladamente, a manutenção de juros elevados.
“Você não pode manter uma taxa de juros porque teve uma quebra na safra do arroz. Isso é sazonal. Na próxima safra, o preço pode cair”, argumentou.
Edinho defendeu uma abordagem menos ortodoxa para a condução da política monetária e afirmou que o país precisa aprofundar a discussão sobre o papel do Banco Central e seus mecanismos de controle externo.
Debate sobre o arcabouço fiscal
Questionado sobre os limites impostos pelo atual arcabouço fiscal, o dirigente afirmou que nenhuma legislação econômica pode ser considerada imutável. Segundo ele, as regras fiscais devem acompanhar as transformações da economia e as necessidades de investimento do país.
Embora tenha reconhecido a importância da responsabilidade fiscal, Edinho defendeu maior flexibilidade para ampliar investimentos públicos voltados ao desenvolvimento e à modernização da economia brasileira.
“O arcabouço fiscal é uma lei, não pode ser uma lei pétrea. Você tem que olhar as condições econômicas e as condições de produção do país”, afirmou.
Ele destacou que o governo Lula tem promovido esforços de reindustrialização e citou investimentos superiores a R$ 600 bilhões destinados à recuperação da capacidade produtiva nacional.
Metais raros e soberania tecnológica
Outro tema abordado foi o potencial estratégico das reservas brasileiras de terras raras e minerais críticos, considerados essenciais para setores de alta tecnologia e para a transição energética global.
Edinho afirmou que o Brasil precisa evitar o papel de simples exportador de matérias-primas e desenvolver uma política industrial capaz de agregar valor à produção nacional.
Segundo ele, o Partido dos Trabalhadores defende a criação de uma estrutura estatal voltada especificamente para a gestão desses recursos estratégicos.
“Nós podemos fazer parcerias com Índia, China ou empresas norte-americanas, mas a tecnologia precisa ficar como patrimônio do povo brasileiro”, defendeu.
Críticas ao empresariado
Ao analisar os desafios do desenvolvimento nacional, Edinho fez críticas a setores do empresariado brasileiro, afirmando que falta uma elite econômica comprometida com um projeto nacional de crescimento.
Ele citou como exemplo a reação considerada tímida de parte dos empresários diante das medidas tarifárias adotadas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra produtos brasileiros.
“O que falta para o Brasil é uma elite empresarial que pense o Brasil e apresente um projeto de desenvolvimento para o país”, declarou.
Redução da jornada de trabalho
O dirigente petista também se manifestou favoravelmente ao fim da escala 6x1 e à redução da jornada de trabalho. Segundo ele, o avanço tecnológico e a inteligência artificial estão aumentando a produtividade, mas também reduzindo postos de trabalho e pressionando a renda dos trabalhadores.
Na sua avaliação, a diminuição da jornada poderia contribuir para distribuir melhor o emprego e fortalecer o mercado consumidor.
“Nós estamos aumentando a produção e reduzindo a base de consumo. O empresariado deveria estar debatendo a redução da jornada para recompor renda e ampliar o mercado consumidor”, afirmou.
Defesa de maior intervenção estatal
Ao longo da entrevista, Edinho argumentou que as principais economias do mundo têm recorrido a políticas públicas expansivas desde a crise financeira de 2008 e, especialmente, após a pandemia de Covid-19.
Para ele, o receituário neoliberal perdeu capacidade de responder aos desafios econômicos contemporâneos, marcados por concentração de renda, financeirização e desaceleração do crescimento.
“Esse neoliberalismo ortodoxo foi derrotado. Ele não tem instrumentos para responder à crise que estamos vivendo”, disse.
Herança fiscal do governo Bolsonaro
Edinho também comentou a situação das contas públicas herdadas pelo governo Lula. Integrante da equipe de transição presidencial, ele afirmou que o desequilíbrio fiscal deixado pela gestão Bolsonaro foi superior aos números frequentemente divulgados.
Segundo o petista, as medidas adotadas pelo novo governo para reforçar a credibilidade fiscal tinham justificativa política, embora ele considere que metas mais graduais para a redução do déficit poderiam ter proporcionado maior margem para investimentos públicos.
“Se você contabilizar todas as maquiagens feitas na reta final de 2022, chegamos perto de R$ 300 bilhões de rombo. Politicamente, eu entendi a necessidade de sinalizar responsabilidade fiscal, mas talvez houvesse espaço para uma trajetória mais gradual”, concluiu.



