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“Sem investimento público não existiria ciência no Brasil”

Pesquisadora da UFRJ afirma que financiamento estatal sustenta pesquisas de longo prazo e relata impactos diretos dos cortes orçamentários na ciência

“Sem investimento público não existiria ciência no Brasil” (Foto: Reprodução)

247 - A pesquisadora Tatiana Coelho de Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), afirmou que a produção científica depende estruturalmente do investimento público, desde a pesquisa básica até a aplicação em saúde. Ao abordar o desenvolvimento da polilaminina, conduzido ao longo de 25 anos, ela detalhou o percurso de financiamento, os limites orçamentários enfrentados por pesquisadores e os efeitos concretos dos cortes de recursos sobre a continuidade de projetos estratégicos.

As declarações foram dadas em entrevista ao programa Conversas com Hildgard Angel, da TV 247. Na conversa, Tatiana destacou que não existe ciência sustentável sem financiamento estatal, mesmo em países com forte presença de universidades privadas. “Em nenhum lugar do mundo a ciência existe sem investimento público. Mesmo as grandes universidades privadas dependem do dinheiro público para financiar pesquisa”, afirmou. 

Pesquisa básica como ponto de partida

Segundo Tatiana, o trabalho que resultou na polilaminina começou como pesquisa básica, sem aplicação clínica definida. “No início, não era uma pesquisa voltada para um medicamento. Era uma pesquisa básica, sem uma pergunta direcionada para uso terapêutico”, explicou. Ela destacou que esse tipo de investigação é essencial para descobertas científicas, embora frequentemente não gere resultados imediatos.Durante esse período inicial, o financiamento veio exclusivamente de agências públicas. “Tive apoio de órgãos de fomento nacionais e estaduais, como a Faperj e o CNPq, além de um auxílio direto do Ministério da Saúde”, relatou. No caso específico da pesquisa em lesão medular, ela ressalta o papel do financiamento estadual: “Os recursos da Faperj foram fundamentais para viabilizar etapas decisivas do trabalho”.A pesquisadora também esclareceu o papel da universidade pública nesse processo. “A UFRJ oferece a infraestrutura, o espaço físico e paga os salários. As universidades não financiam diretamente a pesquisa, mas sustentam a base que torna a pesquisa possível”, afirmou.

Diferença entre financiamento e custo real da pesquisa

Tatiana chamou atenção para a distância entre os valores concedidos por editais públicos e o custo real de um projeto científico em estágio avançado. “Esse financiamento foi um divisor de águas, mas o valor total que recebemos é equivalente ao que hoje eu gasto em um único dia de trabalho”, disse. Segundo ela, à medida que a pesquisa avança, os custos aumentam significativamente, especialmente quando envolvem testes clínicos e produção em escala.Com a divulgação dos resultados, a pressão social também cresceu. “As pessoas passaram a me procurar o tempo todo, ligam dia e noite em busca de ajuda”, contou, ressaltando que a ciência não avança no mesmo ritmo da urgência vivida por pacientes e familiares.

Cortes orçamentários e perda de patentes

Um dos pontos centrais da entrevista foi o impacto dos cortes de recursos sobre a proteção intelectual da pesquisa. Tatiana explicou que o pedido de patente foi feito em 2007, quando o potencial terapêutico ainda estava distante. “Levamos 18 anos para conseguir a concessão da patente nacional”, afirmou, ao mencionar a lentidão do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).Segundo ela, a situação se agravou com a falta de recursos para manter patentes internacionais. “Por causa dos cortes orçamentários, especialmente em 2015 e 2016, a universidade não conseguiu continuar pagando as taxas internacionais. Perdemos todas as patentes fora do Brasil”, relatou. Para evitar a perda imediata da patente nacional, Tatiana afirmou ter arcado pessoalmente com os custos por um período. “Cheguei a pagar do meu bolso para não perder a patente no Brasil”.Ao comentar o contexto político do período, ela confirmou que os cortes tiveram consequências estruturais. “Essas decisões inviabilizam projetos e acabam entregando o conhecimento produzido nas universidades públicas para uso externo”, disse.

O papel do investimento público no cenário internacional

Tatiana também rebateu a ideia de que países centrais dependem menos do financiamento estatal. “Nos Estados Unidos, a maior parte do financiamento da pesquisa também vem do dinheiro público”, afirmou. Ela lembrou que a redução desses recursos gerou forte reação da comunidade científica. “Houve muita contestação quando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, cortou verbas para a ciência”.

Parceria com empresa e continuidade do projeto

Somente em uma etapa posterior o projeto passou a contar com financiamento privado. “Desde 2021, o laboratório Cristália assumiu o financiamento completo do desenvolvimento”, explicou. Segundo Tatiana, o acordo foi estruturado para reconhecer o trabalho realizado na universidade pública. “Foi uma cooperação cuidadosamente negociada para garantir que a UFRJ não fosse prejudicada”, disse.Ela destacou ainda que a patente é compartilhada. “A patente pertence à UFRJ e à empresa em regime de copropriedade”, afirmou. A exclusividade comercial no Brasil, no entanto, é limitada. “A empresa terá exclusividade por apenas dois anos; depois disso, qualquer laboratório poderá produzir”.

Ciência como política de longo prazo

Ao longo da entrevista, Tatiana Coelho de Sampaio reforçou que descobertas científicas exigem continuidade institucional, financiamento estável e tempo. Para ela, a experiência da polilaminina evidencia que ciência não é resultado de esforços individuais isolados, mas de políticas públicas persistentes. “Sem investimento público, a ciência simplesmente não acontece”, concluiu.

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