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“Temos que ter o compromisso político de mudar a nossa sociedade”, diz Reimont

Deputado do PT-RJ relaciona Campanha da Fraternidade 2026 ao déficit habitacional e cobra mobilização política por moradia digna

Reimont (Foto: Vinicius Loures/Câmara dos Deputados)

247 - O enfrentamento da crise de moradia no Brasil exige mais do que ações emergenciais ou iniciativas isoladas de solidariedade. Para o deputado federal Reimont (PT-RJ), é necessário um compromisso político efetivo da sociedade para alterar estruturalmente a realidade das desigualdades no país.

Em entrevista ao programa Bom Dia 247, o parlamentar abordou o tema ao comentar a Campanha da Fraternidade 2026, promovida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que terá como tema “Fraternidade e Moradia” e o lema “Ele veio morar entre nós”. 

A dimensão do déficit habitacional no Brasil

Integrante da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, Reimont apresentou números que, segundo ele, ajudam a compreender a gravidade do cenário habitacional brasileiro.

“Nós falávamos naquela época de 320 mil cidadãos, homens e mulheres, que viviam em situação de rua no Brasil. Nós falávamos naquela época de 7 milhões de pessoas sem moradia. E nós estamos falando hoje de 26 milhões de famílias. Se você coloca 26 milhões de famílias numa média de três pessoas por família, estaríamos falando de 100 milhões. Metade da população brasileira praticamente vive em moradias sem a infraestrutura necessária para que a vida aconteça com dignidade”, afirmou.

Campanha da Fraternidade e denúncia social

Ao analisar a escolha do tema pela CNBB, o deputado situou a campanha dentro da tradição de engajamento social da Igreja Católica, iniciada em 1964. Para ele, a edição de 2026 resgata um caráter crítico e de denúncia diante das desigualdades sociais.

“Esta campanha da fraternidade é uma campanha de denúncia. Ela se reveste de uma visão progressista da fé, no entendimento de que a fé e a vida dialogam, que a fé e a vida não dialogam com a hipocrisia”, declarou.

Vila Autódromo como símbolo da desigualdade

Reimont também mencionou a trajetória da comunidade Vila Autódromo, na zona oeste do Rio de Janeiro, como exemplo das distorções no acesso à moradia. Segundo ele, das cerca de 620 famílias que viviam no local antes das remoções relacionadas às obras dos Jogos Olímpicos de 2016, restaram 22, que hoje mantêm o Museu das Remoções para preservar a memória do processo.

“Nós, no movimento social de moradia, temos uma frase cunhada que diz assim: ‘Muita casa sem gente e muita gente sem casa’”, disse.

Eleições e responsabilidade política

O parlamentar defendeu que gestos individuais de solidariedade — como oferecer água em dias de calor intenso ou dialogar com pessoas em situação de rua — são importantes, mas não suficientes para enfrentar o problema em sua dimensão estrutural.

“Se você tem consciência de que é um direito dele também ter uma moradia, acione o seu governo, exija do seu governo, exija do seu prefeito, exija dos seus parlamentares que esse debate esteja na pauta das políticas públicas”, afirmou.

Reimont destacou ainda o peso das escolhas eleitorais na definição das prioridades do Estado. “Quando eu voto em alguém que diz assim: ‘Eu quero dar mais armas do que livros’, eu faço uma opção. Quando voto alguém que diz assim: ‘A população em situação de rua precisa morrer’, eu tô fazendo uma opção. Quando se vota alguém que diz: ‘A população em situação de rua precisa ser reconhecida e precisa ter política pública para ela’, eu tô fazendo uma opção”, declarou.

Ao concluir, o deputado reforçou que a superação da crise habitacional depende de mobilização coletiva e responsabilidade política. “Para além das nossas ações pontuais, que são necessárias, nós temos que ter compromisso político de mudar a nossa sociedade. Não podemos conviver no Rio de Janeiro de maneira pacificada tendo 20 mil pessoas morando nas ruas. Isso é um absurdo”, concluiu.