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Professor acusado de assédio volta à USP após um ano

Professor havia sido afastado após a abertura de um processo administrativo

Prédio da administração da USP (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)

247 - O professor José Maurício Rosolen, acusado por estudantes de assédio sexual, voltou a frequentar a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da Universidade de São Paulo (USP) cerca de um ano após ter sido afastado do cargo para investigação. O caso voltou a gerar repercussão entre alunos e ex-alunos da instituição, que demonstram preocupação com o retorno do docente e discutem mobilizações de protesto. As informações foram publicadas pelo portal Metrópoles.

Rosolen havia sido afastado após a abertura de um processo administrativo disciplinar (PAD) instaurado pela universidade para apurar denúncias de assédio sexual feitas por estudantes. A medida previa inicialmente 180 dias de afastamento, com possibilidade de prorrogação pelo mesmo período, enquanto a apuração dos fatos era conduzida internamente.

Com o retorno do professor às atividades na unidade de Ribeirão Preto, estudantes passaram a questionar a transparência da universidade sobre o andamento das investigações e os desdobramentos do processo administrativo. O tema ganhou força principalmente entre alunos do curso de química, área em que o docente atua.

Na segunda-feira (9), estudantes realizaram uma assembleia para discutir a possibilidade de paralisação das atividades acadêmicas em protesto contra a volta do professor aos corredores da instituição. A mobilização foi convocada pelo Centro Estudantil da Química (CENEQui), que publicou um comunicado criticando a situação.

“Casos de assédio não podem ser normalizados dentro da universidade”, dizia o texto divulgado pela entidade estudantil ao convocar os alunos para a reunião.

Após a assembleia, os estudantes criaram um formulário on-line para consultar a comunidade acadêmica sobre a realização de uma paralisação. Um novo encontro está previsto para quinta-feira (12), quando o grupo deve voltar a discutir possíveis formas de mobilização.

O caso também passou a circular em grupos de mensagens entre alunos da faculdade. Um cartaz compartilhado nas redes internas da instituição questiona a suficiência da punição aplicada ao professor e levanta dúvidas sobre a segurança no ambiente universitário.

“Um ano de afastamento. Isso é punição suficiente? A comunidade universitária está segura?”, diz o material que circula entre estudantes.

Reprodução /FFCLRP

As denúncias contra Rosolen vieram a público em 2025, quando alunas atuais e ex-estudantes relataram episódios de assédio sexual durante atividades acadêmicas. Além da investigação administrativa conduzida pela universidade, a Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Ribeirão Preto também instaurou um inquérito para apurar as acusações.

Segundo relatos de ex-alunas ouvidas pela reportagem do Metrópoles, o comportamento do professor já era conhecido entre estudantes do laboratório onde ele atuava. Uma das mulheres afirmou que havia preocupação entre as alunas em evitar ficar sozinhas com o docente durante as atividades acadêmicas.

“É uma sensação de que não vale a pena denunciar”, afirmou uma ex-aluna, que diz ter sido vítima de assédio entre 2022 e 2023.

De acordo com o relato, o professor teria uma reputação negativa entre as estudantes, o que levava alunas a adotarem estratégias para evitar situações de isolamento durante o trabalho nos laboratórios.

“A gente tomava cuidado no laboratório para não deixar nenhuma mulher sozinha com ele”, contou a ex-estudante.

Ela afirma ainda ter presenciado situações em que o docente teria tocado o corpo de alunas ao circular pelo espaço restrito do laboratório, onde havia uma passagem estreita entre as bancadas e a parede.

“A pia do laboratório fica no meio, então as pessoas passam atrás de você. Tem uns 80 centímetros, todos nós conseguíamos passar ali sem tocar uns nos outros. A não ser ele. Ele que tinha que passar a mão na cintura de alguém.”

Segundo o relato, quando questionado sobre esse tipo de comportamento, o professor minimizava as situações relatadas pelas alunas. Em um dos casos, uma estudante que reclamou dos toques teria sido chamada de “sensível” pelo docente.

Pelo Código Penal brasileiro, o crime de assédio sexual é caracterizado quando alguém constrange outra pessoa com o objetivo de obter vantagem ou favorecimento sexual, aproveitando-se de sua posição de superioridade hierárquica ou influência no ambiente de trabalho ou estudo.

A legislação prevê pena de um a dois anos de detenção para o crime, podendo ser aumentada caso a vítima seja menor de 18 anos.

Até o momento, a universidade não detalhou publicamente o resultado do processo administrativo disciplinar que investigou o caso. Enquanto isso, estudantes continuam cobrando esclarecimentos e afirmam que pretendem manter a mobilização para discutir medidas que garantam mais segurança dentro do ambiente acadêmico.