Robô Perseverance encontra matéria orgânica em rochas de Marte
Perseverance encontra matéria orgânica em rochas de Marte e amplia pistas sobre o passado habitável do planeta vermelho
247 - A detecção de matéria orgânica em rochas de Marte pelo rover Perseverance amplia as pistas sobre o passado habitável do planeta vermelho e reforça o esforço científico para investigar se o ambiente marciano já reuniu condições favoráveis à vida, segundo a Folha de São Paulo.
Os dados foram obtidos na cratera Jezero, região explorada pelo Perseverance desde 2021 e escolhida pela Nasa por ter abrigado, no passado remoto, um delta formado por um rio que desaguava no interior da cratera. De acordo com o relato da Folha, os resultados foram publicados na revista científica Science Advances e assinados por 62 pesquisadores, em estudo liderado por Ashley Murphy, do Instituto de Ciência Planetária, nos Estados Unidos.
A descoberta confirma a presença de macromoléculas de carbono em rochas expostas na superfície marciana. Esse tipo de composto é considerado relevante porque a vida, tal como conhecida na Terra, é formada por moléculas complexas de carbono. Os cientistas, no entanto, tratam o achado com cautela: a presença de matéria orgânica não significa, por si só, evidência de vida.
A análise foi feita com auxílio do instrumento Sherloc, um espectrômetro Raman instalado no Perseverance. O equipamento utiliza imagens em ultravioleta para ajudar a identificar a composição química das rochas. Duas amostras analisadas pelo rover chamaram a atenção dos pesquisadores por apresentarem sinais compatíveis com macromoléculas de carbono.
O resultado é considerado importante porque, segundo os pesquisadores, trata-se da primeira detecção desse tipo de material diretamente exposto à atmosfera marciana. O ambiente de Marte é extremamente agressivo a moléculas orgânicas complexas, devido à radiação, à baixa pressão atmosférica e às condições químicas do solo. Por isso, a preservação desses compostos levanta novas hipóteses.
Uma possibilidade é que as moléculas encontradas sejam especialmente resistentes às condições marcianas. Outra hipótese é que a rocha analisada tenha sido exposta à atmosfera em período relativamente recente, reduzindo o tempo de degradação do material orgânico.
A descoberta se soma a outros indícios reunidos em Marte nos últimos anos. O próprio Perseverance já havia observado formações rochosas que lembram padrões associados, na Terra, à atividade de bactérias. Antes dele, o rover Curiosity também havia detectado matéria orgânica em rochas marcianas, embora sem vínculo comprovado com processos biológicos.
A estratégia da Nasa para investigar Marte há décadas é conhecida pela expressão “siga a água”. A lógica é reconstruir a história hídrica do planeta, hoje seco e desértico, para identificar regiões que, no passado, possam ter oferecido condições mais favoráveis à vida. A cratera Jezero foi selecionada justamente por preservar sinais geológicos de um antigo ambiente aquático.
Apesar do avanço, os cientistas ainda enfrentam limitações importantes. Os experimentos realizados por robôs em Marte são sofisticados, mas não substituem a análise direta das amostras em laboratórios na Terra. Por isso, a missão original da Nasa previa que o Perseverance coletasse rochas marcianas para uma futura operação de retorno ao planeta.
Esse plano, porém, foi interrompido após atrasos e aumento de custos. A missão de retorno de amostras da Nasa acabou cancelada em seu formato previsto, criando incertezas sobre o destino do material já selecionado pelo Perseverance.
A China prepara uma missão própria para trazer amostras de Marte no início da próxima década. A iniciativa, no entanto, não conta com um rover precursor equivalente ao Perseverance, capaz de examinar lentamente o terreno e escolher as rochas mais promissoras do ponto de vista científico.
Com isso, o material coletado e pré-analisado pelo rover norte-americano continua sendo visto como uma das apostas mais relevantes para esclarecer se Marte já teve vida no passado. A confirmação ou descarte dessa possibilidade dependerá da capacidade de levar essas amostras a laboratórios terrestres, onde poderão ser submetidas a testes mais precisos.



