Quaquá convida Silvio Almeida para pensar o Brasil a partir de Maricá e para coordenar museu sobre a contribuição africana
Iniciativa articula projeto intelectual, memória histórica e construção de um novo ISEB com a questão racial no centro
247 – O prefeito de Maricá, Washington Quaquá, do PT, anunciou um movimento estratégico de grande alcance político e intelectual ao convidar o jurista e filósofo Silvio Almeida para atuar na cidade em dois eixos fundamentais: a coordenação de um museu dedicado à escravidão e à contribuição africana e a participação na formulação de um novo projeto nacional a partir da futura universidade local. Em postagem recente, Quaquá destacou a relevância do convite e o simbolismo da iniciativa, afirmando: “Será uma grande honra ter um intelectual do calibre do amigo Silvio Almeida com a gente aqui em Maricá.”
Segundo o prefeito, o convite inclui a liderança do Museu da Escravidão Negra no Atlântico e da contribuição Africana ao Brasil e ao Mundo, além da colaboração na construção da UniMar, universidade em desenvolvimento no município. A proposta vai além de um projeto acadêmico ou cultural isolado: trata-se de posicionar Maricá como um novo polo de pensamento estratégico brasileiro, capaz de articular memória histórica, produção de conhecimento e formulação de políticas públicas com impacto nacional.
Maricá como laboratório de um novo projeto nacional
A iniciativa surge em um momento em que o Brasil busca redefinir seus rumos após avanços sociais importantes, mas ainda sem um projeto de longo prazo plenamente consolidado. Nesse contexto, a ideia de reunir grandes intelectuais para pensar o país ganha centralidade — e é justamente aí que entra a proposta de criação de um novo ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros).
O ISEB original, criado em 1955, foi um dos mais importantes centros de pensamento estratégico da história do Brasil. Reunindo intelectuais como Hélio Jaguaribe, Guerreiro Ramos e Ignácio Rangel, o instituto formulou as bases do nacional-desenvolvimentismo, defendendo a industrialização, a soberania econômica e o papel ativo do Estado na superação do subdesenvolvimento. Funcionando como um verdadeiro laboratório de ideias, influenciou diretamente o debate público e políticas de governo no período pré-1964, até ser extinto após o golpe militar, em um movimento que interrompeu um dos mais ambiciosos esforços de formulação de um projeto nacional no país.
Um novo ISEB com a questão racial no centro
Silvio Almeida, um dos principais pensadores contemporâneos sobre racismo estrutural, democracia e Estado, pretende liderar a articulação de um espaço semelhante ao histórico ISEB, mas com uma atualização decisiva: a centralidade da questão racial. Diferentemente do instituto original, que priorizou o desenvolvimento econômico e a soberania nacional sem enfrentar plenamente as desigualdades raciais, a nova proposta busca integrar esses elementos em um mesmo eixo estratégico.
A proposta de um novo ISEB representa, assim, uma inflexão histórica no pensamento brasileiro. Ao incorporar o racismo como elemento estruturante da desigualdade, o projeto amplia e aprofunda o legado do instituto original, conectando desenvolvimento econômico, justiça social e democracia em uma mesma agenda.
Museu da escravidão e da contribuição africana
Outro pilar da iniciativa é a criação do museu dedicado à escravidão no Atlântico e à contribuição africana. O projeto pretende não apenas resgatar a memória histórica, mas também reposicionar o papel da população negra na formação do Brasil e do mundo.
A proposta dialoga com experiências internacionais de museus de memória, mas com um enfoque ampliado: não apenas registrar a violência da escravidão, mas também valorizar as contribuições culturais, econômicas e civilizatórias africanas. Trata-se de um movimento de reconstrução simbólica e histórica, fundamental para a construção de uma identidade nacional mais consciente e inclusiva.
UniMar e a formação de novos quadros
A criação da UniMar surge como base institucional para esse novo ciclo. A universidade pretende formar quadros capazes de pensar o Brasil de forma estratégica, combinando excelência acadêmica com compromisso social e nacional.
Ao articular universidade, centro de pensamento e projeto cultural, Maricá busca reproduzir — em chave contemporânea — o papel que o ISEB desempenhou no passado, mas com uma agenda mais ampla e alinhada aos desafios do século XXI.
Um movimento estratégico de longo alcance
A iniciativa liderada por Quaquá e abraçada por Silvio Almeida aponta para algo maior do que projetos isolados. Trata-se da tentativa de reconstruir a capacidade do Brasil de pensar a si mesmo de forma soberana e estratégica, algo que foi profundamente afetado após 1964.
Ao convidar Silvio Almeida, Quaquá não apenas reforça o compromisso de Maricá com políticas inovadoras, mas também posiciona o município como um espaço privilegiado para a formulação de ideias que podem influenciar o futuro do Brasil. Em um momento de redefinição histórica, a criação de um novo ISEB, agora com a questão racial no centro, surge como uma das iniciativas mais promissoras para recolocar o país no caminho de um projeto nacional robusto, inclusivo e de longo prazo.


