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Avanço dos EUA sobre o petróleo da Venezuela pressiona o Brasil e a Petrobras

A promessa de Donald Trump de ampliar a produção na Venezuela pode afetar preços, investimentos e acelerar decisões estratégicas da estatal brasileira

Sonda de perfuração ODN II na Margem Equatorial (Foto: Divulgação / Foresea)

247 - A sinalização de que os Estados Unidos pretendem impulsionar a produção de petróleo na Venezuela, caso se confirmem os planos anunciados pelo presidente Donald Trump, tende a redesenhar o cenário energético regional e trazer impactos relevantes para o Brasil e para a Petrobras. O país vizinho concentra as maiores reservas de petróleo do mundo, mas enfrenta há décadas uma forte retração produtiva, o que agora pode começar a ser revertido, informa o jornal O Globo.

No passado a Venezuela chegou a produzir cerca de 3,5 milhões de barris por dia, volume que posteriormente caiu para menos de 1 milhão. Um eventual avanço dessa produção, combinado com novos projetos em países vizinhos, tende a aumentar a concorrência por investimentos no setor.

Especialistas avaliam que esse cenário pressiona a Petrobras a acelerar decisões estratégicas, especialmente relacionadas à Margem Equatorial. Além da Venezuela, Guiana e Suriname já avançam em projetos relevantes, ampliando a oferta regional de petróleo. Esse movimento ocorre em um contexto de forte volatilidade no mercado, intensificada pelas tensões geopolíticas recentes.

Os contratos futuros do petróleo fecharam em alta no último pregão, refletindo a percepção de maior risco à oferta global após o ataque dos Estados Unidos à Venezuela no último sábado, que resultou no sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores. A instabilidade elevou os prêmios de risco associados à commodity.

Para Roberto Ardenghy, presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás (IBP), os efeitos diretos para a Petrobras devem ser sentidos no médio e longo prazos, à medida que a produção venezuelana avance. Segundo ele, a estatal brasileira precisará reforçar sua competitividade. “Em dois anos, se os planos de Trump derem certo, a produção na Venezuela pode aumentar para cerca de 400 mil barris por dia. Portanto, os efeitos serão percebidos no médio e longo prazos. Haverá uma disputa por investimento internacional, e a Petrobras precisará ser mais atrativa”, afirmou.

Ardenghy também chama atenção para impactos imediatos associados ao ambiente de conflito na região do Caribe, rota estratégica para o transporte de petróleo entre Brasil e Estados Unidos. “Haverá um aumento entre 10% e 15% nos custos com a atual situação na Venezuela. Temos agora um cenário de instabilidade na região”, disse, acrescentando que a expansão produtiva em Guiana e Suriname amplia as preocupações do setor brasileiro em um momento de reposição de reservas.

A Guiana, cujo principal projeto é liderado pela ExxonMobil, deve elevar sua produção dos atuais 900 mil barris diários para cerca de 1,3 milhão em dois anos. Já o Suriname, que possui mais de 750 milhões de barris recuperáveis, receberá ainda neste ano sua primeira plataforma da TotalEnergies, com início de produção previsto para 2028.

Segundo Pedro Rodrigues, do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), o aumento da oferta regional pode pressionar os preços internacionais do petróleo. “Com o aumento da produção na Venezuela há um cenário de queda de preços, já que a demanda cresce menos do que a oferta. Para a Petrobras, isso é ruim. Para a Margem Equatorial, também”, avaliou. Ele destaca que a Venezuela pode se tornar um destino mais atrativo para o capital internacional, intensificando a disputa com o Brasil. “A Petrobras precisará demonstrar ainda mais eficiência e disciplina de capital, além de lidar com a política de dividendos”, completou.

Rafael Chaves, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) e ex-diretor da Petrobras, ressalta que os reservatórios venezuelanos já são amplamente conhecidos, o que reduz riscos e acelera investimentos. Para ele, isso reforça a necessidade de o Brasil ganhar velocidade na exploração da Margem Equatorial. “O Brasil precisa ter pressa, porque o cenário global tende a se tornar cada vez mais competitivo. Se antes já era necessária mais velocidade, agora essa urgência é ainda maior”, afirmou, defendendo maior coordenação entre o Ministério do Meio Ambiente e o setor energético.

Na mesma linha, Marcus D’Elia, sócio-diretor da Leggio Consultoria, vê na conjuntura um incentivo adicional à exploração da Margem Equatorial, tanto para compensar a queda da produção nacional a partir de 2033 e 2034 quanto para oferecer ao mercado internacional um petróleo de melhor qualidade em relação ao venezuelano.

Enquanto a Venezuela possui cerca de 303 bilhões de barris em reservas comprovadas, a Margem Equatorial brasileira tem potencial estimado em 30 bilhões de barris, segundo estudo do CBIE. O geólogo Pedro Zalan observa que há também diferenças relevantes nos custos de produção: as reservas venezuelanas estão majoritariamente em terra e em águas rasas, ao contrário das jazidas da Margem Equatorial, da Guiana e do Suriname, localizadas em águas profundas e ultraprofundas, o que torna a extração na Venezuela mais barata e competitiva.

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