Homenagem a Lula na Acadêmicos de Niterói domina redes e tem maioria de reações positivas, aponta Ativaweb
Monitoramento de 32,2 milhões de menções entre 14 e 16 de fevereiro indica 56,2% de sentimento favorável
247 – A homenagem ao presidente Lula no desfile da Acadêmicos de Niterói virou um dos principais assuntos do debate digital e registrou predominância de reações positivas nas redes sociais. A conclusão é de um levantamento da agência Ativaweb, publicado pelo site PlatôBR, com base no monitoramento de mais de 32,2 milhões de menções ao tema ao longo de segunda-feira, 16 de fevereiro, e dos três dias anteriores.
Segundo a análise, o conteúdo favorável respondeu por 56,2% das menções, o equivalente a cerca de 18,1 milhões de registros. Já as manifestações negativas somaram 41,7% (aproximadamente 13,4 milhões), enquanto o sentimento neutro representou apenas 2,1% do total, perto de 676 mil menções — composto, sobretudo, por postagens informativas, cobertura jornalística e repostagens.
O que impulsionou o sentimento positivo
O recorte da Ativaweb indica que a onda positiva se concentrou em mensagens que conectavam a homenagem à trajetória do presidente, com ênfase em origem popular, mobilidade social e simbolismos associados à democracia. Entre os termos mais recorrentes no campo favorável aparecem "homenagem", "orgulho", "emocionante", "gigante", "líder" e "povo" — palavras que, segundo o monitoramento, sintetizam o tom predominante de exaltação.
Na prática, o episódio exemplifica como o Carnaval, além de festa, funciona como arena de disputa simbólica e de memórias coletivas. O desfile e sua repercussão atravessaram bolhas digitais distintas: enquanto parte do público reagiu com entusiasmo à escolha do enredo e à leitura histórica associada ao presidente, outra parte interpretou o movimento como provocação política e gatilho para confrontos já cristalizados no ambiente online.
Críticas também foram expressivas e se organizaram por “frames” políticos
Apesar da maioria favorável, o volume crítico foi alto. A Ativaweb identificou que as menções negativas se concentraram em três eixos principais: questionamentos sobre uso político do Carnaval, críticas ao gasto de dinheiro público e referências diretas à polarização. Nesse grupo, dominaram expressões como "propaganda", "dinheiro público", "vergonha", "fora Lula" e "pão e circo".
O dado relevante, aqui, é menos a existência de críticas — esperada em qualquer tema com alta visibilidade — e mais a forma como elas se estruturam em “frames” repetidos e facilmente replicáveis. Em redes de alto engajamento, mensagens curtas, indignadas e com gatilhos morais tendem a circular com rapidez, especialmente quando alimentadas por disputas prévias. A combinação entre um evento cultural massivo e um personagem de alta centralidade digital amplia o alcance e acelera o atrito.
Neutralidade quase desaparece e expõe um padrão do debate público
A fatia neutra de 2,1% chama atenção por ser pequena. Em termos práticos, significa que o espaço “informativo” ficou comprimido, com menos margem para leituras intermediárias ou contextualizações sem carga emocional. Isso não ocorre apenas por causa do tema, mas também pelo modo como as plataformas privilegiam conteúdos de maior reatividade.
O fundador da Ativaweb, Alek Maracajá, atribuiu esse padrão à consolidação de um ecossistema permanente de conflito no debate público brasileiro. Para ele, "A polarização no Brasil deixou de ser um estado momentâneo e se tornou um sistema vivo, alimentado continuamente por emoção, memória coletiva e algoritmos que recompensam o conflito".
A frase ajuda a explicar por que, mesmo quando a maior parte das menções é positiva, o volume negativo ainda se apresenta robusto e altamente visível. Em ambientes de recomendação algorítmica, antagonismos não competem apenas por “verdade” ou “fato”, mas por tempo de tela e capacidade de provocar resposta imediata.
Quando cultura vira pauta política, o algoritmo vira protagonista
O caso revela como manifestações culturais de grande audiência passaram a operar também como “eventos de plataforma”. Não é apenas o desfile em si que se torna assunto, mas o conjunto de reações que ele produz em tempo real, com disputa por narrativas, enquadramentos e moralidades.
Em termos de comunicação política, a alta centralidade digital do presidente intensifica o fenômeno: qualquer menção relevante tende a se transformar em onda de engajamento cruzado, porque mobiliza apoios e rejeições com intensidade semelhante. A leitura da Ativaweb sugere que, nesse tipo de debate, a neutralidade perde espaço e a conversa pública se organiza em blocos concorrentes, com vocabulários próprios e objetivos distintos — elogio, ataque, ironia, convocação.
O ponto decisivo é que, quando as plataformas “recompensam” conflito, a discussão se retroalimenta. Como sintetizou Maracajá, "A polarização no Brasil deixou de ser um estado momentâneo e se tornou um sistema vivo, alimentado continuamente por emoção, memória coletiva e algoritmos que recompensam o conflito". Nesse cenário, a repercussão de um desfile pode extrapolar o campo cultural e se converter em termômetro do próprio ambiente político, não necessariamente por intenção da escola, mas pelo modo como a disputa se comporta nas redes.
O que os números indicam sobre 2026 e a disputa de narrativas
Os percentuais apontados pela Ativaweb — 56,2% positivos, 41,7% negativos e 2,1% neutros — desenham um retrato de alta temperatura social em torno do presidente e de qualquer representação pública ligada a ele. A predominância positiva mostra capacidade de mobilização simbólica e de apoio, enquanto a massa crítica evidencia que a oposição digital mantém presença expressiva, com repertório consolidado e pronta resposta.
Mais do que “quem venceu” a disputa nas redes, o caso sinaliza que o Brasil entrou numa fase em que grandes eventos culturais viram, automaticamente, arenas de interpretação política e de choque identitário. E, ao que tudo indica, esse padrão não se limita a ciclos eleitorais: ele se mantém ativo porque se encaixa na lógica de engajamento que organiza as plataformas.


