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New York Times: "Ataque de Trump à Venezuela é ilegal e imprudente"

Jornal americano aponta ilegalidade, alerta para violação do direito internacional e vê repetição de erros históricos da política externa dos EUA

O presidente dos EUA, Donald Trump (Partido Republicano), em evento no Salão Oval da Casa Branca 6 de novembro de 2025 (Foto: Jonathan Ernst/Reuters)

247 - O recente agravamento da ofensiva militar dos Estados Unidos contra a Venezuela provocou forte reação internacional e levantou questionamentos jurídicos e políticos dentro do próprio país. A operação, determinada por Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, incluiu o deslocamento de uma grande força naval e aérea para o Caribe e culminou na captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro, classificada pela Casa Branca como parte de um “ataque em larga escala”.

Segundo análise publicada pelo New York Times, a iniciativa representa uma escalada perigosa e carece de fundamentos legais tanto no plano interno quanto no direito internacional. O jornal sustenta que Trump vem utilizando meios militares de grande porte —como porta-aviões, navios de guerra, aeronaves e milhares de soldados— para justificar ações que, até agora, não passaram pelo crivo do Congresso americano, exigência expressa da Constituição dos Estados Unidos. 

O texto do jornal norte-americano reconhece que o governo de Maduro acumulou denúncias graves ao longo dos anos, incluindo repressão política e violações de direitos humanos. Ainda assim, o editorial argumenta que a experiência histórica dos Estados Unidos demonstra que tentativas de derrubar regimes pela força frequentemente agravam crises internas, desestabilizam regiões inteiras e produzem consequências duradouras. Casos como Afeganistão, Iraque, Líbia e intervenções na América Latina são citados como exemplos de políticas que resultaram em cenários mais caóticos do que os anteriores.

Para o New York Times, Trump não apresentou uma justificativa coerente para a operação militar contra a Venezuela. A alegação oficial de combate ao “narco-terrorismo” é tratada como frágil, já que o país não figura entre os principais produtores das drogas associadas à crise de overdoses nos Estados Unidos. O jornal observa ainda que o fluxo de cocaína ligado à Venezuela tem como principal destino a Europa, o que enfraquece o argumento de ameaça direta à segurança americana.

O editorial também aponta contradições na postura do presidente norte-americano ao lembrar que, enquanto ordenava ataques a embarcações venezuelanas sob suspeita de tráfico, Trump concedeu perdão a Juan Orlando Hernández, ex-presidente de Honduras condenado por envolvimento com o narcotráfico. Para o jornal, esse contraste expõe a seletividade e o caráter político das decisões adotadas.

Outro ponto central da crítica está na Estratégia de Segurança Nacional recentemente divulgada pelo governo Trump, que reafirma a Doutrina Monroe e defende a ampliação da presença militar dos Estados Unidos na América Latina. O documento menciona explicitamente o uso de força letal, a redistribuição de tropas e a contenção de migrantes, o que, na avaliação do New York Times, revela uma visão imperial renovada e perigosa para a ordem internacional.

O jornal destaca ainda que as ações militares violam princípios básicos do direito internacional humanitário. Ao destruir embarcações sob mera suspeita de crimes, sem qualquer possibilidade de defesa, os ataques configurariam execuções extrajudiciais, proibidas tanto pelas Convenções de Genebra quanto pela legislação americana. Um dos episódios citados envolve um segundo ataque contra um barco já avariado, que resultou na morte de dois marinheiros que não representavam ameaça imediata. Nesse contexto, o editorial cita o colunista David French, ex-advogado do Exército dos EUA, ao afirmar: “O que separa a guerra do assassinato é a lei”.

Além da dimensão jurídica, o New York Times sustenta que a ofensiva não atende aos interesses estratégicos dos Estados Unidos. A Venezuela, diferentemente de intervenções passadas como a do Panamá, apresenta um risco muito maior de fragmentação interna, violência prolongada e instabilidade regional. Mesmo com a captura de Maduro, os generais que sustentaram o regime permaneceriam influentes, e não há garantia de uma transição pacífica de poder.

O editorial alerta para possíveis desdobramentos negativos, como o fortalecimento de grupos armados, o agravamento da crise migratória e impactos nos mercados globais de energia e alimentos. O texto também menciona a líder da oposição venezuelana María Corina Machado, destacando que, apesar de seu reconhecimento internacional, não há indícios de que as Forças Armadas venezuelanas aceitariam automaticamente sua liderança.

Ao concluir, o New York Times afirma compartilhar a angústia de venezuelanos que veem na intervenção externa uma saída para a crise, mas ressalta que não existem soluções simples. Para o jornal, o mundo já dispõe de evidências suficientes sobre os riscos da mudança de regime imposta pela força. A avaliação final é de que o belicismo de Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, viola a lei, amplia o sofrimento da população venezuelana e ameaça gerar danos duradouros à estabilidade regional e à credibilidade internacional de Washington.

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