Canadá aposta em reaproximação com a China e elogia liderança de Xi Jinping
Mark Carney afirma que Ottawa e Pequim inauguram nova fase de cooperação em meio a tensões globais e disputas comerciais
247 - O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, afirmou nesta quinta-feira (15) que as relações entre seu país e a China entraram em uma fase de aquecimento, marcada por diálogo político, cooperação econômica e maior previsibilidade diplomática. Em visita oficial a Pequim, Carney destacou o papel do presidente chinês, Xi Jinping, e disse que os dois países buscam construir parcerias estratégicas em um cenário internacional de instabilidade.
A informação foi divulgada pela agência Reuters, que acompanha a primeira visita de um primeiro-ministro canadense à China desde 2017. A agenda oficial de quatro dias inclui encontros de alto nível e negociações voltadas principalmente a comércio, tarifas e investimentos, após anos de deterioração das relações bilaterais.
Durante reunião com Zhao Leji, principal legislador da China, Carney elogiou a condução política do governo chinês e o ritmo da reaproximação entre os dois países. “Estamos encorajados pela liderança do presidente Xi Jinping e pela rapidez com que nosso relacionamento progrediu”, afirmou o premiê canadense. Segundo ele, esse movimento “prepara o terreno para essas importantes discussões sobre uma ampla gama de questões em que podemos ser parceiros estratégicos, desde energia e agricultura até laços interpessoais, multilateralismo e questões de segurança”.
A visita ocorre após um encontro considerado positivo entre Carney e Xi Jinping em outubro, na Coreia do Sul, e antecede uma nova reunião entre os dois líderes prevista para esta sexta-feira. O esforço diplomático marca uma mudança em relação ao período do governo anterior, de Justin Trudeau, quando os laços entre Ottawa e Pequim se deterioraram significativamente.
O processo de reaproximação também ganhou impulso após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, impor tarifas ao Canadá no ano passado e sugerir que o país poderia se tornar o 51º estado norte-americano. Diante desse cenário, o governo canadense passou a buscar maior diversificação de seus mercados de exportação, com a China ocupando papel central nessa estratégia.
Em reunião separada com o primeiro-ministro chinês, Li Qiang, Carney ressaltou os avanços recentes no diálogo econômico. “Nossas equipes trabalharam arduamente, resolvendo os problemas comerciais e criando plataformas para novas oportunidades”, disse. Em seguida, acrescentou: “Acredito que, juntos, estamos trazendo esse relacionamento de volta para onde ele deveria estar”.
As relações entre os dois países enfrentaram episódios de forte tensão na última década. Um dos pontos mais sensíveis ocorreu em 2024, quando o governo Trudeau impôs tarifas sobre veículos elétricos chineses, seguindo medidas semelhantes adotadas pelos Estados Unidos. Em resposta, a China retaliou em março do ano passado com tarifas sobre mais de US$ 2,6 bilhões em produtos agrícolas e alimentícios canadenses, incluindo óleo e farelo de canola. Dados alfandegários divulgados nesta semana mostram que as importações chinesas desses produtos caíram 10,4% em 2025.
Apesar do novo clima diplomático, Ottawa e Pequim ainda não trataram publicamente, de forma direta, das tarifas sobre veículos elétricos e canola. No entanto, um roteiro comercial e econômico assinado nesta quinta-feira prevê o compromisso de “manter canais de comunicação abertos” para lidar com questões relacionadas ao comércio agrícola.
No documento, o Canadá manifesta abertura a investimentos chineses nos setores de energia, agricultura e bens de consumo. Já a China demonstra interesse em ampliar investimentos canadenses em áreas como serviços, novos materiais, aeroespacial e manufatura avançada. Para Carney, esses acordos representam “um exemplo para o mundo de cooperação em meio a um período global de divisão e desordem”.
A mídia estatal chinesa atribuiu as tensões do passado às políticas do governo Trudeau, alinhadas à estratégia dos Estados Unidos de conter a China. A avaliação também é compartilhada por setores empresariais. “Foi muito difícil acompanhar o governo anterior”, afirmou Jacob Cooke, diretor executivo da WPIC Marketing + Technologies, empresa canadense sediada em Pequim que trabalhou com marcas como Arc’teryx e Lululemon. Em entrevista à Reuters, ele acrescentou: “Sabemos que Carney tem muita experiência empresarial e já esteve na China muitas vezes. Portanto, da perspectiva da comunidade empresarial, estamos muito otimistas e confiantes”.
Desde que chegou à capital chinesa, Carney tem se reunido com executivos de grandes grupos empresariais, incluindo a fabricante de baterias para veículos elétricos CATL e a China National Petroleum Corp. Também participaram dos encontros representantes da Envision Energy, do Banco Industrial e Comercial da China, do grupo de investimentos Primavera Capital e da gigante do comércio eletrônico Alibaba.