China reafirma amizade com a América Latina e propõe nova etapa de cooperação em infraestrutura verde e digital
No Fórum de Infraestrutura China-CELAC, China destaca recorde histórico no comércio, integração produtiva, transição energética e transformação digital
Por Leonardo Attuch, de Macau – A China reafirmou seu compromisso de longo prazo com a América Latina e o Caribe durante o 12º Fórum de Cooperação em Infraestrutura China-América Latina (China-CELAC), realizado nesta quinta-feira (11), em Macau. Reunindo autoridades governamentais, representantes de organismos internacionais e executivos de grandes empresas de infraestrutura, energia e tecnologia, o encontro consolidou a visão de uma nova etapa da parceria sino-latino-americana, baseada em infraestrutura sustentável, industrialização, economia digital e fortalecimento do multilateralismo.
A principal mensagem política do evento foi transmitida por Zhang Run, diretor-geral do Departamento de América Latina e Caribe do Ministério das Relações Exteriores da China. Citando mensagem enviada pelo presidente Xi Jinping à 10ª Cúpula da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), Zhang afirmou que a China manterá seu compromisso histórico com a região.“A China será sempre uma boa amiga e uma boa parceira dos países da América Latina e do Caribe”, declarou.
Segundo Zhang Run, a realização da 12ª edição do Fórum de Infraestrutura China-CELAC representa uma demonstração concreta dessa política. Em um cenário internacional marcado por conflitos, instabilidade e profundas transformações geopolíticas, ele afirmou que as relações entre China e América Latina seguem avançando com estabilidade, baseadas na confiança política, na expansão da cooperação econômica e no fortalecimento dos laços entre os povos.
O diplomata destacou que, apenas no último ano, Xi Jinping realizou mais de dez encontros e conversas com líderes latino-americanos, incluindo representantes de Brasil, Colômbia, Chile, Cuba e Uruguai. Também ressaltou que a 10ª Cúpula da CELAC, realizada na Colômbia, incluiu pela primeira vez em seu documento final uma avaliação positiva da cooperação institucional entre China e América Latina.
Comércio bate recorde histórico
Zhang Run apresentou números que ilustram a crescente integração econômica entre as duas regiões. Segundo ele, o comércio bilateral atingiu o recorde histórico de US$ 549 bilhões em 2025.Nos cinco primeiros meses de 2026, o intercâmbio comercial alcançou US$ 247,3 bilhões, crescimento de 17,6% em relação ao mesmo período do ano anterior.O dado mais significativo, segundo o diplomata, foi a expansão das importações chinesas provenientes da América Latina, que cresceram 27,6%, atingindo US$ 120 bilhões. Para Zhang, o resultado demonstra um equilíbrio cada vez maior nas relações comerciais.Ele também ressaltou medidas recentes para ampliar a integração entre as duas regiões, incluindo a política de isenção de vistos para cidadãos de Brasil, Argentina, Chile, Peru e Uruguai, além da ampliação dos voos diretos entre a China e países latino-americanos, entre eles o Brasil.
Segundo Zhang, pesquisas recentes realizadas por centros internacionais de pesquisa mostram crescimento da percepção positiva da China entre os latino-americanos, tornando o país a única grande potência extrarregional cuja imagem registrou avanço na região.
Infraestrutura entra em nova fase
Na sequência do fórum, Wang Qi, diretor-adjunto do Departamento de Investimentos Externos e Cooperação Econômica do Ministério do Comércio da China, apresentou um panorama da evolução da cooperação em infraestrutura entre a China e a América Latina.
Segundo ele, os projetos desenvolvidos sob a Iniciativa Cinturão e Rota (Belt and Road Initiative) permitiram a construção de uma rede abrangente de cooperação que hoje engloba transportes, energia, telecomunicações e desenvolvimento urbano.
Wang destacou o Porto de Chancay, no Peru, como um dos exemplos mais expressivos dos resultados alcançados.Segundo ele, a nova infraestrutura reduziu o tempo de transporte marítimo entre o Peru e a Ásia de 35 para 23 dias, diminuindo significativamente os custos logísticos e fortalecendo a integração econômica transpacífica.Outro exemplo citado foi a Linha 1 do Metrô de Bogotá, na Colômbia, que deverá reduzir o tempo médio de deslocamento da população de mais de duas horas para apenas 27 minutos.O dirigente afirmou ainda que projetos conduzidos por empresas chinesas na América Latina já contribuíram para a criação de quase um milhão de empregos, além da construção de hospitais, escolas, pontes, aeroportos, estradas e portos em diversos países da região.
Durante sua apresentação, Wang Qi defendeu uma nova fase da cooperação baseada em três pilares fundamentais.
O primeiro é a integração entre infraestrutura e desenvolvimento industrial. Segundo ele, a América Latina precisa ampliar sua participação nas cadeias globais de produção, e a infraestrutura pode desempenhar papel decisivo nesse processo.
O segundo é a transição ecológica. Wang afirmou que a China pretende aprofundar a cooperação em energia limpa, infraestrutura verde, transporte sustentável e finanças verdes.
O terceiro eixo é a digitalização. Segundo ele, a infraestrutura latino-americana está passando de uma etapa de simples conectividade física para uma nova fase de conectividade digital.
“Quanto mais fortes forem os ventos e as ondas, mais a comunidade de futuro compartilhado China-América Latina deve navegar unida”, afirmou.
PowerChina e gigantes chinesas ampliam presença regional
As discussões do fórum ocorreram em meio à crescente presença de grandes grupos chineses de infraestrutura na América Latina. Entre os participantes estiveram representantes da PowerChina, China Energy Engineering, China Railway Construction Corporation, China Harbour Engineering e Huawei.
A presença dessas empresas reflete a estratégia chinesa de combinar investimentos em infraestrutura tradicional com projetos voltados à transição energética, redes inteligentes, digitalização e modernização logística.
A PowerChina, em particular, vem ampliando sua atuação na região em áreas como energia renovável, transmissão elétrica, infraestrutura hídrica e grandes obras de engenharia, setores considerados prioritários para o desenvolvimento latino-americano.
Cooperação econômica e desenvolvimento sustentável
Na abertura do fórum, o representante internacional de Comércio da China e vice-ministro do Comércio, Li Chenggang, defendeu o aprofundamento da cooperação econômica entre China e América Latina.
Segundo ele, as duas regiões devem fortalecer o multilateralismo, ampliar a liberalização do comércio e dos investimentos e aprofundar a cooperação em áreas como energia renovável, redes elétricas inteligentes, proteção ambiental, cidades inteligentes, centros de dados e redes 5G.
Li também ressaltou a necessidade de promover mecanismos inovadores de financiamento e ampliar a participação de empresas e instituições financeiras nos projetos de infraestrutura.
Guiana destaca crescimento da parceria China-CELAC
Representando a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos, o ministro das Obras Públicas da Guiana, Juan Anthony Edghill, afirmou que os países da região atribuem grande importância à continuidade do diálogo com a China.
O ministro destacou que a cooperação bilateral ganhou impulso desde a criação do Fórum China-CELAC, em 2014, durante encontro realizado em Brasília com a participação do presidente Xi Jinping.
“Temos testemunhado um crescimento exponencial de nossa agenda de cooperação”, afirmou.
Edghill declarou que a parceria com a China tem contribuído para o avanço das prioridades nacionais e regionais dos países latino-americanos e caribenhos e defendeu a construção de uma relação baseada na inclusão e no benefício mútuo.
Ao final dos debates, emergiu uma mensagem comum entre autoridades chinesas e latino-americanas: em um cenário internacional marcado por incertezas e disputas geopolíticas, a cooperação em infraestrutura, energia, tecnologia e desenvolvimento sustentável aparece cada vez mais como um dos principais pilares da aproximação entre China e América Latina, consolidando o papel do 12º Fórum de Infraestrutura China-CELAC, realizado em Macau, como um dos mais importantes espaços de articulação estratégica entre as duas regiões.
