Em quatro segundos, Elon Musk ganha o mesmo que uma pessoa comum durante um ano
Relatório da Oxfam aponta disparada da riqueza dos bilionários desde 2020 e alerta para a fusão entre dinheiro, influência política e controle midiático
247 – Os super-ricos do mundo aumentaram a riqueza conjunta em 81% desde 2020 e, além disso, acumulam cada vez mais poder político e midiático, o que lhes permite “moldar as normas que regem nossa economia e sociedade em benefício próprio”, advertiu a ONG de ajuda humanitária Oxfam em relatório publicado nesta segunda-feira (19/01), por ocasião do início do Fórum Econômico de Davos, na Suíça.
A informação foi divulgada pelo Opera Mundi, com base no relatório da organização e em material de agências internacionais (Efe, AFP, DPA). Segundo a Oxfam, em 2025 havia 3 mil pessoas com fortunas superiores a US$ 1 bilhão (cerca de R$ 5,3 bilhões).
De acordo com o documento, no ano passado a soma das fortunas desses super-ricos cresceu US$ 2,5 bilhões (cerca de R$ 13,40 bilhões) — valor que equivale a toda a riqueza em posse da metade mais pobre do planeta, composta por 4,1 bilhões de pessoas. A fortuna somada de todos os super-ricos chega a US$ 18,3 trilhões — quase R$ 100 trilhões.
A Oxfam afirma que o relatório se baseou em dados de várias fontes, como estimativas da revista Forbes sobre a fortuna dos bilionários, além de números do Banco Mundial e o relatório sobre riqueza do banco UBS.
“Em quatro segundos”, o que um trabalhador leva um ano para ganhar
O estudo chama atenção para exemplos que ilustram a velocidade de acumulação no topo. “Os bilionários ganham em média 6 mil dólares durante um cochilo de 20 minutos”, diz o relatório.
No caso do homem mais rico do mundo, a Oxfam sustenta que Elon Musk “ganha em quatro segundos o mesmo que uma pessoa comum ganha em um ano”. Para diminuir sua fortuna, ele teria que doar mais de US$ 4,5 mil (R$ 24 mil) por segundo, segundo o documento.
Concentração de riqueza e poder político
A organização também vincula a aceleração da riqueza dos bilionários ao contexto político nos Estados Unidos. O relatório afirma que esse crescimento “se acelerou com a chegada de Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, ao poder”, ao citar medidas como redução de impostos para super-ricos, diminuição da pressão fiscal internacional sobre grandes corporações e limites a tentativas de frear o poder de monopólios.
A concentração simultânea de riqueza e poder político nas mesmas mãos “não é invisível: ocorre com total impunidade, diante dos nossos olhos, e ao vivo”, observou Franc Cortada, diretor da Oxfam.
Controle midiático, redes sociais e pressão sobre as democracias
Além do poder político, Cortada aponta que essa elite controla cada vez mais os meios de comunicação, incluindo as redes sociais, “sem que a maioria dos governos tenham conseguido colocar um freio nisso”. Segundo ele, o efeito é direto sobre a saúde das democracias.
“Os bilionários estão usando a riqueza e o poder deles para moldar a opinião pública, influenciar o debate público e até mesmo mudar o curso político. Eles não compram apenas iates, compram até mesmo democracias, alimentando o discurso de ódio e a polarização política”, afirmou o diretor da Oxfam.
Essa avaliação é aproximada da apresentada por outro estudo, a World Values Survey, realizado em 66 países, no qual quase metade dos entrevistados afirmou acreditar que os mais ricos “compram as eleições” em seus respectivos países.
Retrocesso de direitos e deterioração democrática
O relatório associa a concentração de riqueza a um retrocesso de liberdades e direitos, indicando que um quarto dos países do mundo passa por um processo de deterioração democrática.
“Muitos governos escolhem apoiar as demandas das elites e proteger a concentração de riqueza, enquanto cortam direitos e reprimem os protestos dos cidadãos, que precisam enfrentar os aumentos do custo de vida”, disse Cortada.
O que a Oxfam propõe para reduzir a desigualdade
Para enfrentar a desigualdade e conter a influência dos super-ricos, a Oxfam defende medidas ligadas ao Estado de bem-estar social, como reforçar a tributação das grandes fortunas, impulsionar planos nacionais para reduzir a desigualdade e ampliar as barreiras entre concentração de riqueza e política, com redução do poder de lobbies.


