Irã amplia controle sobre o estreito de Ormuz com inspeções, acordos diplomáticos e cobranças de taxas
Teerã impõe novas regras para navios em rota estratégica do petróleo mundial
247 - O Irã consolidou nas últimas semanas um rígido sistema de controle sobre o Estreito de Ormuz, uma das principais rotas marítimas do planeta para o transporte de petróleo e gás. Segundo reportagem investigativa da Reuters publicada nesta quarta-feira (20), Teerã passou a adotar um mecanismo complexo de autorizações, inspeções e acordos diplomáticos para permitir a travessia de embarcações na região, em meio à guerra que afeta o abastecimento global de energia.
A apuração da Reuters ouviu 20 fontes ligadas ao setor marítimo, autoridades iranianas e iraquianas, além de analisar documentos iranianos e rastrear o deslocamento de navios pelo estreito. A investigação mostra que o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC, na sigla em inglês) exerce papel central no esquema, que inclui desde negociações entre governos até cobranças de taxas para garantir a passagem segura de navios.
Um dos casos detalhados pela agência envolve o petroleiro Agios Fanourios I, carregado com petróleo iraquiano e destinado ao Vietnã. A embarcação ficou retida desde o fim de abril próximo à costa de Dubai e só recebeu autorização para cruzar o estreito em 10 de maio, após um acordo direto entre Iraque e Irã supervisionado pelo então primeiro-ministro iraquiano Mohammed Shia al-Sudani.
Durante a travessia, o navio seguiu uma rota determinada pelas autoridades iranianas, passando próximo a ilhas estratégicas controladas por Teerã. Em determinado momento, já perto da Ilha de Ormuz, lanchas rápidas da Guarda Revolucionária ordenaram a parada da embarcação para inspeção, sob suspeita de contrabando.
A operação transformou um trajeto normalmente concluído em cerca de cinco horas em uma viagem de dois dias. “Quando fomos informados de que o Agios havia passado por Ormuz, respiramos aliviados”, declarou uma das pessoas que acompanhavam o deslocamento do navio.
O gerente de operações da Eastern Mediterranean Shipping, Konstantinos Sakellaridis, afirmou à Reuters que a embarcação conseguiu autorização após pressão diplomática do Iraque e do Vietnã. “Temos razões para acreditar que os iranianos fizeram vista grossa para a passagem do Agios Fanourios I após pressão do Iraque e do Vietnã”, declarou.
A reportagem revela ainda que o Irã estabeleceu uma espécie de sistema hierárquico para autorizar a passagem de navios. Embarcações ligadas a aliados estratégicos, como China e Rússia, recebem prioridade. Países com boas relações com Teerã, como Índia e Paquistão, aparecem em seguida. Já outras nações precisam negociar diretamente com o governo iraniano.
O controle iraniano sobre Ormuz ganhou força após o agravamento do conflito regional iniciado no fim de fevereiro, quando Israel lançou ataques aéreos contra o território iraniano. Desde então, Teerã passou a restringir a circulação de embarcações ligadas aos Estados Unidos ou a Israel.
O Estreito de Ormuz é responsável pela passagem de cerca de um quinto do petróleo consumido no mundo. O impacto da crise já provocou gargalos marítimos e forte instabilidade no mercado energético global. Segundo dados citados pela Reuters, aproximadamente 1.500 embarcações com 22,5 mil marinheiros ficaram presas na região até o início de maio.
O governo dos Estados Unidos, presidido por Donald Trump, alertou empresas e governos sobre os riscos de negociar com Teerã para obter autorização de passagem. O Departamento do Tesouro norte-americano afirmou estar preparado para aplicar sanções contra companhias que realizarem pagamentos ao regime iraniano.
“O departamento está preparado para agir contra qualquer empresa estrangeira que apoie o comércio ilícito iraniano”, declarou o Tesouro dos EUA à Reuters.
Mesmo assim, empresas do setor marítimo relataram à agência que algumas embarcações têm pago mais de US$ 150 mil para garantir a travessia segura pelo estreito. Autoridades iranianas ouvidas pela Reuters confirmaram a existência de taxas de segurança e navegação, embora não tenham informado valores específicos.
Especialistas afirmam que o novo cenário representa uma mudança profunda no equilíbrio geopolítico da região. O pesquisador Danny Citrinowicz, do Instituto de Estudos de Segurança Nacional de Israel, afirmou que o Irã passou a controlar efetivamente o fluxo marítimo no estreito.
“Os estreitos serão bloqueados ou abertos apenas com a aprovação do regime iraniano”, afirmou. “Alguns passarão por alianças políticas, outros terão de pagar, outros serão barrados. Esse é o novo normal.”
Segundo a Reuters, o processo de autorização inclui uma extensa checagem conduzida pela Guarda Revolucionária. Proprietários de navios precisam fornecer informações detalhadas sobre carga, bandeira da embarcação, destino, origem, tripulação e vínculos comerciais. O objetivo é verificar possíveis conexões com Estados Unidos ou Israel.
“A checagem de afiliação serve para identificar se o navio tem alguma ligação com os EUA ou Israel”, afirmou uma fonte europeia do setor marítimo.
A Índia também passou a negociar diretamente com o Irã para retirar embarcações da região. Um funcionário do Ministério dos Transportes indiano disse que os capitães recebem rotas específicas e são orientados a desligar os sistemas de localização e evitar comunicações por satélite.
“Os capitães são instruídos rigorosamente a seguir a rota determinada”, declarou a autoridade indiana.
A tensão no estreito tem provocado temor entre marinheiros. Um tripulante indiano ouvido pela Reuters relatou o clima de medo durante a travessia. “Foi uma visão assustadora”, afirmou. “Nem nos meus sonhos mais loucos consigo imaginar voltar ao mar durante uma guerra.”
Mesmo após deixar as águas iranianas, o Agios Fanourios I ainda foi interceptado pela Marinha dos Estados Unidos, que mantém um bloqueio contra embarcações ligadas ao Irã. O navio permaneceu seis dias sob verificação até ser liberado, em 16 de maio, para seguir viagem rumo ao Vietnã transportando cerca de 2 milhões de barris de petróleo bruto.



