Israel mata 31 profissionais da saúde em ataque no Líbano
Bombardeios no sul do país atingiram ambulâncias e centros médicos
247 - Ataques militares de Israel provocaram a morte de ao menos 31 profissionais de saúde no Líbano desde o início de março, de acordo com informações divulgadas neste sábado (14) pelo Ministério da Saúde libanês. O governo do país também contabiliza 51 trabalhadores da área médica feridos no mesmo período, em meio à intensificação da guerra entre Israel e o grupo Hezbollah.
Com base em dados do Ministério da Saúde do Líbano, os ataques ocorreram a partir de 2 de março, quando o conflito entre Israel e o Hezbollah se intensificou no sul do território libanês. As autoridades afirmam que, desde então, ao menos 37 bombardeios atingiram profissionais e estruturas médicas, incluindo ambulâncias, equipes de emergência e instalações da Cruz Vermelha e da Defesa Civil.
Centro de saúde destruído no sul do Líbano
Um dos episódios mais graves ocorreu na noite de sexta-feira (13), quando um ataque israelense atingiu um centro de atenção primária à saúde na cidade de Borj Qalaouiyeh, no sul do Líbano.
De acordo com o Ministério da Saúde, o bombardeio provocou um incêndio e fez o prédio desabar sobre os profissionais que estavam em serviço no momento do ataque.
A pasta informou que quase toda a equipe médica presente no local morreu. Entre as vítimas estavam médicos, enfermeiros e paramédicos.
No total, 12 pessoas morreram no bombardeio, enquanto apenas um trabalhador sobreviveu, embora em estado grave. Autoridades libanesas também relataram que quatro pessoas permaneciam desaparecidas após o ataque.
Israel afirma que episódio está sob análise
Em comunicado oficial, as Forças Armadas de Israel informaram que estão cientes das denúncias sobre o ataque ao centro de saúde em Borj Qalaouiyeh e declararam que o episódio está sendo analisado.
O governo israelense sustenta que suas operações militares têm como alvo posições e estruturas do Hezbollah utilizadas para lançar ataques contra Israel.
Neste sábado, o porta-voz militar israelense Avichay Adraee afirmou que o Hezbollah estaria fazendo “uso militar extensivo de ambulâncias” e de instalações médicas. Ele não indicou locais específicos nem afirmou se o centro atingido no sul do Líbano estaria sendo utilizado pelo grupo.
O Ministério da Saúde libanês rejeitou a acusação e classificou a alegação como “nada mais do que uma justificativa para os crimes que está cometendo contra a humanidade”.
Hezbollah também nega uso de hospitais
Um integrante da cúpula do Hezbollah, ouvido pelo The New York Times sob condição de anonimato, também negou que o grupo utilize ambulâncias ou centros médicos para fins militares. Segundo ele, a acusação israelense seria falsa e teria como objetivo enfraquecer a população atingida pela guerra.
O Exército israelense também afirmou, sem apresentar provas, que o Hezbollah estaria transportando foguetes e outras armas ao longo da costa libanesa em caminhões civis.
Em nota oficial, o Ministério da Saúde do Líbano classificou o bombardeio ao centro médico como “conduta criminosa” e afirmou que o ataque “violou todas as leis humanitárias internacionais”.
Sistema de saúde sob pressão
A situação do sistema de saúde libanês se agravou com a intensificação do conflito. Segundo autoridades do país, mais de 2 mil civis feridos já foram atendidos desde o início da nova fase da guerra.
Nesta semana, a Cruz Vermelha informou que o voluntário Youssef Assaf morreu após sofrer ferimentos enquanto participava de uma operação de resgate de vítimas de bombardeios no sul do Líbano.
O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, condenou os ataques contra trabalhadores da área médica e afirmou que eles representam “um desenvolvimento trágico na escalada da crise no Oriente Médio”.
Escalada militar no país
A atual fase da guerra começou em 2 de março, quando o Hezbollah lançou uma série de foguetes contra Israel. O episódio desencadeou uma campanha de bombardeios israelenses em território libanês.
Desde então, o Hezbollah continuou disparando foguetes enquanto tropas israelenses avançaram para áreas do sul do Líbano.
Dados do Ministério da Saúde libanês apontam que 826 pessoas morreram no país desde o início da ofensiva israelense, enquanto cerca de 1 milhão de pessoas foram deslocadas dentro do território.
Histórico de ataques a estruturas médicas
Ataques contra trabalhadores e instalações de saúde já haviam sido registrados em confrontos anteriores entre Israel e Hezbollah. Durante o conflito de 13 meses entre as duas partes em 2024, dezenas de socorristas e profissionais médicos foram mortos, além de danos a centenas de ambulâncias e centros de atendimento.
Israel também foi alvo de acusações de crimes de guerra relacionadas a ataques contra hospitais e unidades médicas em Gaza durante a guerra de dois anos no território, segundo investigações conduzidas por uma comissão da ONU.
Em 2024, um procurador do Tribunal Penal Internacional (TPI) afirmou que alegações sobre a presença de integrantes do Hamas em hospitais cercados pelo Exército israelense haviam sido “grosseiramente exageradas”.
Organizações humanitárias alertam que acusações semelhantes envolvendo o Hezbollah podem servir de justificativa para novos bombardeios contra instalações médicas no Líbano.
Para Ramzi Kaiss, pesquisador da Human Rights Watch para o Líbano, a situação levanta preocupações graves sobre o respeito às normas internacionais.
“Os ataques a ambulâncias, centros de atenção primária, organizações de defesa civil e profissionais de saúde que respondem a locais atingidos por bombardeios são extremamente alarmantes”, afirmou.
Ele acrescentou que, segundo as leis internacionais de guerra, “médicos, enfermeiros e paramédicos são protegidos em todas as circunstâncias e jamais devem ser atacados”.


