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Mais de 150 crianças brasileiras foram detidas pela imigração nos EUA em 2025

Dados oficiais indicam apreensões de bebês a adolescentes, com maioria encaminhada a centros do ICE e casos concentrados no Texas e em Massachusetts

Mais de 150 crianças brasileiras foram detidas pela imigração nos EUA em 2025

247 - Ao menos 157 crianças e adolescentes brasileiros foram apreendidos por autoridades migratórias dos Estados Unidos entre janeiro e outubro de 2025, segundo registros oficiais do governo norte-americano. Os dados mostram que a maioria desses menores foi levada a centros de detenção vinculados ao sistema de imigração, revelando um cenário de rigor crescente nas operações de controle migratório que atingem famílias brasileiras no país.

O levantamento foi realizado pela Folha de S.Paulo, que analisou documentos obtidos por meio da lei de acesso à informação dos Estados Unidos e compilados pelo Deportation Data Project, iniciativa da Universidade da Califórnia. A partir dessa análise, foi possível identificar que, dos 157 menores apreendidos, 142 acabaram encaminhados a centros de detenção administrados pelo ICE, o Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA.

Os registros indicam que as crianças apreendidas tinham idades bastante variadas, indo de bebês nascidos em 2024 a adolescentes nascidos em 2008, com 16 ou 17 anos. O número real pode ser ainda maior, já que o estudo não incluiu jovens nascidos em 2007, que poderiam ter até 18 anos no momento da abordagem, pois os documentos não trazem a data completa de nascimento.

Segundo os dados, 114 desses menores já deixaram os Estados Unidos. Não há informação oficial sobre se estavam acompanhados por adultos no momento da detenção, mas em pelo menos 40 casos é possível inferir que se tratava de detenções familiares. Isso ocorre porque algumas instalações do sistema migratório, como o South Texas Family Residential Center, em Dilley, e o Karnes County Residential Center, no Texas, não recebem, ao menos em tese, menores desacompanhados. No período analisado, o centro de Dilley recebeu 29 crianças brasileiras, enquanto o de Karnes County acolheu outras 11.

O caso de permanência mais longa registrado envolve um menino nascido em 2023, que ficou 44 dias detido no South Texas Family Residential Center entre julho e setembro de 2025. De acordo com as informações fornecidas pelo governo norte-americano, a criança foi deportada em 3 de setembro do ano passado.

O centro de detenção no sul do Texas ganhou repercussão internacional após a apreensão de Liam Conejo Ramos, um menino equatoriano de cinco anos, levado ao local junto com o pai depois de serem detidos em 20 de janeiro de 2026, em Minneapolis, no estado de Minnesota. Um deputado que visitou a criança afirmou que “o menino está deprimido”. Imagens de Liam usando um gorro azul com orelhas de coelho e uma mochila do Homem-Aranha no momento da apreensão tornaram-se símbolo dos protestos contra as operações anti-imigração do governo de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos.

Para dimensionar quantas crianças brasileiras tiveram destino semelhante, a Folha analisou duas bases de dados distintas do Deportation Data Project. A primeira reúne informações sobre pessoas detidas diretamente pelo ICE em operações administrativas dentro dos EUA, sem incluir apreensões feitas por agentes de fronteira do CBP, o Serviço de Alfândega e Proteção das Fronteiras. Nesse conjunto, foram identificados 84 menores brasileiros, dos quais 69 foram levados a centros de detenção e 15 fichados e liberados.

A segunda base de dados registra imigrantes que passaram a custódia do ICE mesmo tendo sido inicialmente detidos por outras forças de segurança, geralmente o CBP. Nessa planilha aparecem outros 73 menores brasileiros, a maioria relacionada a apreensões ocorridas na fronteira com o México.

O perfil etário das crianças varia conforme o órgão responsável pela detenção inicial. Nos casos em que o CBP realizou a abordagem, crianças de 1 a 5 anos representam 53% do total. Já nas apreensões feitas diretamente pelo ICE, há uma distribuição mais equilibrada: 32% tinham até 5 anos, 32% estavam na faixa de 11 a 15 anos, e 29% tinham entre 6 e 11 anos. Maiores de 15 anos são minoria nesse grupo.

Do total de menores apreendidos, 89 são meninos e 68 meninas. Entre os casos envolvendo ações diretas do ICE, 53 crianças foram encontradas em Boston, no estado de Massachusetts, onde há uma numerosa comunidade brasileira, além de registros em outros nove estados. Um desses episódios envolve um adolescente de 13 anos detido em Everett, subúrbio de Boston, em 9 de outubro de 2025. Ele foi transferido para um centro de detenção de menores infratores após o governo norte-americano acusá-lo de ligação com uma gangue. Os dados não informam a data de soltura, mas jornais da comunidade brasileira relataram que o jovem retornou ao Brasil no fim de outubro. A Folha não conseguiu contato com a família.

Nos casos em que a detenção inicial foi feita por outras agências, 57 dos 73 menores foram apreendidos no Texas. Em geral, o tempo de permanência das crianças e adolescentes nos centros de detenção variou de algumas horas a cerca de um mês, independentemente do órgão responsável pela abordagem.

A maioria das crianças que deixou o país aparece registrada como deportada. Apenas dois casos constam como saída voluntária. Dados do painel do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania do Brasil apontam que 93 menores foram deportados entre 7 de fevereiro e 31 de dezembro de 2025. A diferença entre os números pode estar relacionada à dificuldade de acesso a informações completas sobre detenções realizadas pelo ICE e a situações em que menores foram enviados a outros países, como o Panamá.

Outros 43 menores brasileiros ainda permaneciam nos Estados Unidos no momento da extração dos dados, em outubro de 2025. Quase metade desses casos estava classificada como processo ativo, o que indica a existência de procedimentos em andamento que podem resultar em deportação. Em três situações, não há registro da data de saída do centro de detenção, pois as apreensões ocorreram no mesmo mês em que os dados foram enviados ao Deportation Data Project, o que sugere que o status pode já ter sido alterado posteriormente.

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