A revolução do xisto. Bom para a economia, péssimo para o meio ambiente

O gás extraído do xisto está transformando a produção de energia nos Estados Unidos e poderá tornar o país autossuficiente em 2035. A novidade significa uma revolução econômica e política, mas traz consequências perigosas ao meio ambiente – e protestos no mundo todo. O Brasil também já entrou na era do xisto

O gás extraído do xisto está transformando a produção de energia nos Estados Unidos e poderá tornar o país autossuficiente em 2035. A novidade significa uma revolução econômica e política, mas traz consequências perigosas ao meio ambiente – e protestos no mundo todo. O Brasil também já entrou na era do xisto
O gás extraído do xisto está transformando a produção de energia nos Estados Unidos e poderá tornar o país autossuficiente em 2035. A novidade significa uma revolução econômica e política, mas traz consequências perigosas ao meio ambiente – e protestos no mundo todo. O Brasil também já entrou na era do xisto (Foto: Gisele Federicce)
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Enorme usina canadense para o processamento do xisto betuminoso

 

 

Por Eduardo Araia

Nada como uma revolução tecnológica para virar o mundo de cabeça para baixo e obrigar cientistas e governos a revisar os conceitos e refazer as previsões. Quem diria que os Estados Unidos, o maior consumidor de energia do mundo, poderiam se tornar autossuficientes em 2035? Pois esse é o prognóstico da Agência Internacional de Energia (IEA, em inglês) no relatório 2012, o World Energy Outlook, ao analisar as transformações por que o país vem passando desde que uma rocha – o xisto – e um polêmico meio de extrair petróleo e gás – o fraturamento hidráulico, mais conhecido como fracking – ganharam peso na produção energética americana. A extração do gás contribui para a recuperação econômica do país, mas abre perspectivas sinistras ao meio ambiente, alarmando os ecologistas.

Os EUA possuem enormes reservas de xisto, mas até 2006 os métodos disponíveis para extrair combustível da rocha eram caros e não compensavam o investimento. Naquele ano, porém, empresas de petróleo e gás começaram a usar o fracking nessas áreas. O resultado não tardou: já existem mais de 20 mil poços em operação no país, e o gás natural, que até 2000 representava 1% da produção americana de energia, saltou para 30% em 2010 e poderá chegar a 50% em 2035.

Embora alguns especialistas afirmem que o tempo de produção de cada um desses poços não superará 15 ou 20 anos, a dimensão das reservas norte-americanas de xisto garante uma boa longevidade ao setor. “Os suprimentos de gás natural agora economicamente recuperáveis do xisto nos EUA poderiam acomodar a demanda doméstica do país por gás natural nos níveis atuais de consumo por mais de cem anos”, anunciaram os pesquisadores Michael McElroy e Xi Lu, da Universidade Harvard, no artigo “Fracking’s Future”, publicado na edição de fevereiro de 2013 da Harvard Magazine.

 

Usina para o fracking do xisto na província de Sichuan, China

 

Preços baixos e menos poluição

Em geral favorável às energias renováveis, o governo do presidente Barack Obama tem apoiado politicamente a produção do gás de xisto, mesmo com a controvérsia ambiental que cerca a questão. Em primeiro lugar, o gás natural é o menos poluente dos combustíveis fósseis, uma vantagem para um país que usa carvão e petróleo para gerar energia. A Agência Ambiental Americana (EPA, na sigla em inglês) credita a melhora geral da poluição atmosférica no país nos últimos anos ao aumento no uso do gás de xisto.

Em segundo lugar, as vantagens econômicas são indiscutíveis. O gás de xisto fez o preço do insumo cair nos EUA, nos últimos anos, de US$ 12 para US$ 3 por milhão de BTU (sigla para British Termal Unit, “unidade térmica britânica”, medida usada para gás). Para comparar, o preço do gás convencional no Brasil custa entre US$ 12 e US$ 16 por milhão de BTU. A queda de preços faz os EUA importarem menos petróleo, explica o físico José Goldemberg, “uma vez que aquele combustível vem substituindo derivados do petróleo tanto na indústria quanto no transporte”. O país passou até a exportar gás.

A terceira razão é geopolítica: a autossuficiência energética livraria os EUA da dependência de fornecedores problemáticos e/ou potencialmente hostis, como os países árabes, a Venezuela e a Rússia. Como efeito colateral, a saída do mercado desse megacomprador baixaria os preços do petróleo e até poderia inviabilizar alguns projetos de produção, salienta Goldemberg. “Até a exploração do pré-sal no Brasil poderia ser afetada por essa queda de preços”, adverte o físico.

 

Nas proximidades da cidade de Nova York, o xisto é abundante e aparece em placas, na superfície do terreno

 

Na avaliação da IEA, o Brasil é o décimo colocado em reservas de gás de xisto tecnicamente recuperáveis, com 6,3 trilhões de metros cúbicos de reservas, basicamente no Centro-Sul. Para a diretora-geral da ANP, Magda Chambriard, porém, as reservas em terra podem superar as do pré-sal e chegar a 14,16 trilhões de metros cúbicos. “Isso ainda precisa ser comprovado”, ressalva ela. “Temos de investir e saber o potencial do país.”

O Brasil não tende a se atirar ao gás de xisto, pois mal começou a exploração da camada do pré-sal, mas a nova riqueza não escapa aos olhos do governo. Das 72 áreas leiloadas pela Agência Nacional do Petróleo (ANP) leiloou em novembro de 2013, 54 envolviam bacias de xisto. Empresas como Petrobras, HRT, OGX, Orteng, Cemig e Petra já demonstram interesse na extração do gás de xisto.

 

Protestos contra o fracking do xisto, no Canadá

 

Trâmites habituais

A polêmica que cerca o fracking não representa problema, de acordo com as autoridades. A ANP reconhece que faltam estudos sobre os impactos ambientais do método. Um comunicado à imprensa, em 13 de maio passado, afirma que “o tema do fraturamento hidráulico tem causado alvoroço na imprensa mundial, pois seus riscos não foram esclarecidos plenamente”. Mas a agência previa que o leilão de novembro seguiria os trâmites habituais, com as áreas “previamente analisadas quanto à sensibilidade ambiental pelo Ibama e pelos órgãos estaduais competentes”.

O secretário de Minas e Energia, Marco Antônio Almeida, considera que bastam algumas adaptações para dar conta das variáveis envolvidas. “Teremos algumas exigências adicionais (em relação aos leilões habituais), como fraturamento com poço revestido, cimentação mais adequada e projeto aprovado pela ANP”, afirma. Por seu lado, o Ministério do Meio Ambiente informa – olimpicamente –, que não tem relação com o tema.

Na seara ambientalista, porém, a dupla fracking-gás de xisto causa engulhos. “O único argumento por trás da exploração é o econômico”, diz Carlos Rittl, coordenador do programa Mudanças Climáticas e Energia da organização ambientalista WWF-Brasil, que critica a ausência de discussão sobre os aspectos sociais e ambientais da questão e a guinada do Brasil rumo aos combustíveis fósseis, na contramão do que recomenda o aquecimento global.

 

Na Inglaterra, um boneco monstruoso representando o fracking é levado por manifestantes contrários ao uso dessa tecnologia

 

“Há uma clara vontade política para que a exploração por meio de fracking aconteça, especialmente após as recentes avaliações muito otimistas sobre o potencial de gás de xisto em terra, no Brasil”, afirma Antoine Simon, da divisão europeia da organização internacional Amigos da Terra. “Até agora, não existe nada específico sendo estudado pelo Ibama, Ministério do Meio Ambiente ou ANA (Agência Nacional de Águas)”, lamenta o ex-deputado Fabio Feldmann (PV).

De qualquer forma, não custa pensar como São Tomé e aguardar para ver. Afinal, no pré-sal os combustíveis já estão prontos para extração, enquanto a exploração do gás de xisto envolve uma série de indefinições. “No Brasil, pelo menos até agora, não temos legislação específica para o gás não convencional nem incentivos fiscais ou financeiros que aumentem a atratividade do investimento”, afirma Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura. “As reservas nós já temos. Se a produção vai se dar em 2 ou 10 anos, depende da vontade do governo de enfrentar os gargalos que prejudicam o mercado de gás no Brasil.”

 

A extração do xisto betuminoso costuma promover destruição em vasta escala do terreno circundante. Isso é o que acontece nessa zona do Canadá

 

Rocha transformadora

Xisto é o nome popular da rocha denominada folhelho. Uma de suas variações, o xisto betuminoso, contém querogênio nos poros, uma mistura de compostos químicos orgânicos a partir da qual se produz hidrocarbonetos como óleo e gás (sobretudo metano). Estima-se que os depósitos de xisto betuminoso no mundo equivaleriam a um volume entre 2,8 trilhões e 3,3 trilhões de barris de óleo recuperável, enquanto as reservas provadas da Arábia Saudita, o maior produtor mundial, eram de 265,4 bilhões de barris em 2011. Já as reservas de gás de xisto seriam de 187,51 trilhões de metros cúbicos. Confira a seguir os países que abrigam as maiores jazidas do mundo.

 

Reservas tecnicamente recuperáveis de gás de xisto

(em trilhões de metros cúbicos)

China

36,10

EUA

24,41

Argentina

21,92

México

19,28

África do Sul

13,73

Austrália

11,21

Canadá

10,99

Líbia

8,21

Argélia

6,54

Brasil

6,40*

Fonte: IEA, 2009

* Só considera a Bacia do Paraná

 

Impactos ambientais

O fraturamento hidráulico, ou fracking, é conhecido desde a década de 1940, mas o aumento nos custos da exploração de petróleo e gás viabilizou economicamente sua utilização nos últimos anos. Os poços abertos para trazer à superfície os combustíveis contidos no xisto são inicialmente perfurados no sentido vertical, em geral até 2 mil metros de profundidade. Quando se atinge a camada desejada, entra em cena a inovadora perfuração horizontal, numa extensão que costuma variar entre 300 e 2.000 metros.

Por esse duto se injeta água, a uma pressão bastante alta, misturada com areia e produtos químicos. A manobra causa fraturas nas rochas, por onde é liberado o combustível. Este sobe com a água para tanques de armazenagem, onde os produtos são separados.

 

Após ser retirado das rochas de xisto pela tecnologia do fracking, o gás é canalizado e levado aos consumidores

 

O fracking está longe de ser unanimidade. Na Europa, ele é permitido no Reino Unido e na Polônia, mas já foi proibido na França e na Bulgária. Nos EUA, os Estados de Nova York, Pensilvânia e Texas aprovaram regulamentações exigentes relativas ao método. Os principais problemas são os seguintes:

1) Vazamento – Muitos depósitos de xisto estão abaixo de aquíferos. Se a vedação do poço tiver falhas, produtos químicos usados no fracking poderão ser liberados na água. Embora um executivo da Halliburton tenha sido notícia em 2011 ao beber o fluido de fracking utilizado pela empresa, para mostrar que ele é seguro, há dúvidas sobre a composição desse material. Uma pesquisa da Universidade Duke (EUA) detectou um aumento da concentração de metano na água potável na vizinhança dos poços, que pode ocasionar incêndios ou explosões.

2) Contaminação – A mistura de água, areia e produtos químicos injetada nos poços sobe gradualmente para a superfície, podendo contaminar o solo e a água.

3) Consumo de água – Retirar as imensas quantidades de água usadas no processo pode prejudicar os ecossistemas da região. Calcula-se que um poço normal exija em média entre 11 milhões e 30 milhões de litros de água durante sua vida útil.

4) Terremotos – Embora cientistas britânicos afirmem no Journal of Marine and Petroleum Geology que o fracking não causa abalos sísmicos importantes, não há consenso sobre o tema. Para eliminar o problema, um dos autores do estudo, o professor Richard Davies, da Universidade de Durham, sugere evitar perfurações perto de falhas tectônicas.

5) Poluição originária do processo – Um estudo da Universidade Cornell divulgado em 2011 na revista Climatic Science estima que a pegada de carbono do processo de extração do gás de xisto seja até 20% maior do que a do carvão, o mais “sujo” dos combustíveis fósseis.

 

Área de extração do xisto em São Mateus do Sul, no Paraná

 

Xisto paranaense

O Brasil explora o xisto comercialmente desde 1972, quando a Petrobras abriu sua refinaria de Industrialização do Xisto, a SIX, em São Mateus do Sul (PR). A cada dia, cerca de 7 mil toneladas de xisto são retiradas do solo por técnicas de mineração, moídas e submetidas a altas temperaturas. Desse processo são obtidos diariamente 4 mil barris de petróleo, além de derivados como o enxofre.

A atividade apresenta dois impactos ambientais salientes. O primeiro, ligado ao processo de abertura das minas, envolve a retirada da vegetação e do solo. O segundo, relacionado ao processamento e refino, é a emissão de gases-estufa. A Petrobras afirma que controla as emissões e recupera em escala industrial as áreas exploradas desde 1979. Um estudo da Universidade Federal do Paraná feito em 2009 reforça essa tese, ao mostrar que o solo original e o recuperado tinham composição química bem parecida.

Por outro lado, uma pesquisa do Instituto Ambiental do Paraná, órgão fiscalizador do Estado, revela que a SIX foi multada em 2004 e 2006 por descumprir normas de qualidade de água. Outro estudo, de Helvio Rech, da Universidade Federal do Pampa (RS), detectou que a exploração do xisto está diretamente relacionada à incidência de problemas respiratórios na população de São Mateus do Sul.

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