Adolescentes obesos. Como lidar com o excesso de peso nos jovens

Gianpaolo De Filippo, endocrinologista pediátrico no Hospital Bicêtre, na França, explica as especificidades dos cuidados com jovens com obesidade grave. O problema das crianças e adolescentes com excesso de peso é cada vez maior, sobretudo nos países desenvolvidos.

Siga o Brasil 247 no Google News Assine a Newsletter 247

Por: Gianpaolo De Filippo

A obesidade, com seu impacto sobre a saúde, física e psicológica, representa um problema importante de saúde pública, que não poupa nenhuma faixa etária. Os programas implementados em todo o mundo para conter o que foi definido como epidemia, tem demonstrado uma eficácia na prevenção, mas o problema surge quando o excesso de peso significativo já está presente.

Em todo o mundo desenvolvido, dezenas de milhares de crianças e adolescentes estão com sobrepeso. A maioria tem apenas um excesso de alguns quilos, mas uma pequena parte entra na definição de «superobesidade», o que corresponde a um IMC (índice de massa corporal) de 50 na idade adulta – um homem de 1,75 m que pesa 153 kg. Trata-se de adolescentes com peso que ultrapassa com frequência os 120 kg (por comparação, o peso normal médio de um rapaz de 16 anos de idade, é de cerca de 60 kg).

• Quais são as consequências do excesso de peso significativo em um organismo em pleno crescimento?

Até recentemente, a maioria das doenças conhecidas por estarem ligadas à obesidade eram consideradas como privilégio da idade adulta. No entanto, não somente podemos encontrar em idade precoce, hipertensão arterial como também a esteatose hepática (acúmulo de gordura no fígado), apneias do sono (distúrbios da respiração que ocorrem durante o repouso noturno), até predisposição para o diabetes, mas esses adolescentes acumularão os efeitos do excesso de peso significativo com o passar do tempo.

• Qual é o impacto do excesso de peso na vida dos adolescentes?

As anomalias metabólicas não são o problema principal desses adolescentes. Sem que seja necessário entrar nos detalhes de uma avaliação psicológica detalhada, as consequências sobre o equilíbrio psicoemocional do sobrepeso precoce, que continua a se agravar ao longo dos anos, são bem evidentes. Gradualmente dessocializados e auto-condenados ao isolamento que pode chegar a formas graves, esses jovens não fazem mais planos para o futuro e nem imaginam que um dia, eles possam sair de seu estado.

• Quais são as propostas uma vez que a prevenção falhou?

De 1995 a 2010, temos tratado um grande número de crianças e adolescentes obesos: mais de 90 % não puderam estabilizar o seu peso e nem melhorar visivelmente as consequências da obesidade. As regras habituais de higiene alimentar, eficazes, sobretudo para a prevenção ou para a correção da obesidade moderada, se revelaram rapidamente um fracasso para as obesidades graves.

Em 2010, retiramos as consequências de nossos fracassos ao dedicarmos nosso esforço para a grande obesidade e concentramos nossa oferta de cuidados em um programa de cirurgia bariátrica, ou seja, a cirurgia da obesidade. As indicações são rigorosas: previsão de peso superior a 120 kg aos 16-18 anos, falha dos cuidados clássicos bem estruturados. As técnicas utilizadas em adultos - anel gástrico, gastrectomia vertical, bypass gástrico – também podem ser utilizadas em adolescentes, em um ambiente altamente regulamentado.

Após uma primeira experiência com o anel gástrico (um anel é preso ao redor do estômago, com a criação de uma bolsa promovendo uma sensação de saciedade mais precoce e importante), nossa equipe focou sua atenção na gastrectomia vertical: trata-se da redução definitiva do volume do estômago, que é realizada graças à experiência da equipe cirúrgica do Hospital Antoine-Béclère com quem nós trabalhamos, por via única. Isto significa que o cirurgião cria uma passagem com uma única incisão no abdômen, de 2,5 cm em vez das 4-5 incisões da técnica convencional, reduzindo assim a agressividade do procedimento cirúrgico.

Atualmente, nossa unidade assegura cerca de trinta intervenções por ano. Os resultados foram brilhantes, sem complicações até o momento e, sobretudo com a percepção por todos os pacientes de uma melhoria da qualidade de vida. A evidência de obesidade massiva, resistente, evoluindo rapidamente na adolescência, se tornou nossa indicação. A cirurgia está no centro de um percurso de cuidados que acompanhará a pessoa ao longo de sua vida, pois uma gestão eficaz deve considerar a obesidade como uma doença crônica em si.

Na França, a cirurgia bariátrica é permitida em adolescentes apenas por derrogação. Não se trata do tratamento ideal, mas é o único a ter mostrado sua eficácia a curto e médio prazo em situações de obesidade grave e evolutiva.

Quando esses pacientes perdem 40 kg, abrimos-lhes um horizonte completamente novo que eles anteriormente não se permitiam mais levar em consideração.

Participe da campanha de assinaturas solidárias do Brasil 247. Saiba mais.

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247