Ao alcance de todos

“Maria, por que você é puta?” E ela, em subserviência que foge à compreensão comum, filosofou: “Não sei o que sou quando não sou para alguém”

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Maria, uma prostituta virgem. Uma verdadeira artesã, dessas que comovem pela simplicidade, pela humildade, pela fé no que fazem. Dessas que já não se encontram mais. “Você é médica”, elogiavam, “seu aroma é poesia e sua poesia é a cura da loucura”, exacerbavam. Tinha tamanha dedicação à sua técnica, que fazia de seu exercício algo comovente. Passar uma noite com ela era sentir um prazer indescritível, muito além de uma mera satisfação: deleite existencial, alimento para o espírito.

No entanto, houve um homem que, após passar uma dessas noites transformadoras com Maria, ficou profundamente triste. Por que uma mulher tão bela e tão sincera estaria assim esquecida, em um lugar frequentado por pouquíssimos fregueses, que ninguém sabe onde fica e onde ele veio parar quase sem querer?

Esse homem tinha uma empresa de Marketing Cultural. Ele se ofereceu para vendê-la, para produzi-la, para oferecê-la aos cafetões mais poderosos, quem sabe até inscrevê-la em alguma lei de incentivo. Ela era boa demais para não estar ao alcance de todos.

Imaginem se, ao invés de dois, Maria tivesse dois mil fregueses por noite. Será que ela aguentaria? Sua técnica deixaria de ser uma arte se fosse vista como um produto? Poderia ela ter o mesmo poder de entrega? E os fregueses, desfrutariam da mesma essência?

Com dois mil clientes por noite Maria logo ficaria rica e talvez pudesse parar de trabalhar. Talvez pudesse deixar de ser puta, ou, devido a tamanho sucesso, nunca mais pudesse deixar de ser. De qualquer jeito, as coisas precisam ser vendidas. Maria teria apenas que treinar e se adaptar para atender mais pessoas por noite. Ainda que tivesse o costume de receber apenas um por mês. Todos têm que ter acesso ao que é bom, dizem. “Como vender Maria sem fazer com que ela seja o que ela não é? Será que toda e qualquer arte pode mesmo estar ao alcance de todos?” Ele pensava.

Aquele homem, que sempre repudiou as coisas marginais, agora estava diante de um dilema. Perplexo, percebeu que diante de uma arte tão sublime não tinha recursos para alcançar a profundidade daquele ritual. Sentiu-se pequeno. Aquela mulher o tratou como a um amante e ele não passava de um consumidor.

Angustiado, não resistiu: “Maria, por que você é puta?” E ela, em subserviência que foge à compreensão comum, filosofou: “Não sei o que sou quando não sou para alguém”.

O homem decidiu não vendê-la.

Maria, dizem, morreu de fome. E eu nunca consegui convencer meus amigos a irem conhecer a arte daquela mulher, simplesmente porque eles nunca tinham ouvido falar dela.

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