Doentes e violentos. Treze ideias erradas sobre o excesso de população

O estresse nas metrópoles não é uma prerrogativa dos tempos modernos: superpopulação, doenças e carestias estruturais eram problemas típicos de várias comunidades humanas de 9 mil anos atrás.

Na Índia. trem abarrotado
Na Índia. trem abarrotado

Por: Equipe Oásis 

Na Turquia, há 9 mil anos, os habitantes de Çatalhuyuk já sabiam muito bem o que significa compartilhar pouco espaço e poucos recursos com muitas pessoas. Essa observação emerge de um amplo e longo trabalho de análise de restos de populações humanas encontrados no sítio neolítico de Çatalhuyuk, descoberto na região turca da Anatólia no final dos anos 50.    

Uma sepultura no sítio neolítico de Çatalhuyuk, na região da Anatólia (Turquia). São os restos de uma mulher jovem e grávida (o feto é indicado pela flecha). A mãe foi decapitada. Foto: Clark Spencer.

  Durante um período que durou cerca de mil anos, o assentamento abrigou de forma estável entre 3.500 e 8.000 pessoas. Hoje, esses números podem parecer pequenos, mas na época tratava-se de uma enormidade, bastante comparável aos nossos níveis de superpopulação na atualidade. “O estudo dos esqueletos encontrados forneceu muitos detalhes sobre as condições de vida e os problemas vividos naquela grande e populosa comunidade agrícola”, explica Clark Spencer Larsen, antropólogo e biólogo da Universidade de Colombo (Ohio, EUA), coordenador do estudo publicado na revista da PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America).  

Uma discussão que não tem fim: a violência é inerente à natureza do gênero humano? A região onde outrora e localizava Çatalhuyuk, na Anatólia, Turquia. No passado remoto, as casas eram todas subterrâneas.  

Por causa do progressivo aumento da densidade populacional, foi preciso intensificar a pecuária e a agricultura. Dos cereais (sobretudo trigo) se obtinha pão e várias farinhas para mingaus de diferentes tipos. O excesso de alimentos moles e macios na alimentação (que, em geral, no mundo habitado, levou a uma evolução da linguagem) para os moradores de Çatalhuyuk acarretou um enfraquecimento geral das estruturas do organismo, sobretudo cáries nos dentes e uma maior porosidade dos ossos.     

Uma habitação na Çatalhuyuk neolítica: o único acesso era pelo teto. Sob a habitação ficavam as sepulturas.  

Doenças e violência  

Como em um jogo de dominó, um problema se conectava a um outro: a superpopulação e a presença de animais que viviam em contato estreito com os humanos favoreceu o aparecimento de infecções e numerosas outras moléstias. No período de máxima expansão do assentamento as casas eram escavadas na rocha (em geral arenito) umas ao lado das outras, sem espaços intermediários, como pequenas células de uma colmeia. Os moradores entravam nelas pelo teto, utilizando escadas, e os mortos eram enterrados no piso das próprias casas, já repletas de lixo e de excrementos. 

A distância entre o assentamento e as áreas de cultivo aumentava cada vez mais. A força de trabalho exigida era cada vez maior, ao mesmo tempo em que a fadiga, as doenças, a péssima alimentação deterioravam cada vez mais os corpos das pessoas. Todas essas mazelas podem ser “lidas” claramente nas estruturas dos ossos encontrados. Com efeito, em muitos esqueletos e crânios (a maioria de mulheres, mas não apenas) podem ser vistos evidentes sinais de violências, com frequência mortais.        

TREZE IDEIAS ERRADAS SOBRE O EXCESSO DE POPULAÇÃO   

Fonte: www.overpopulationawareness.org/pt/artigos/treze-ideias-erradas-sobre-o-excesso-de-populacao   

Nos debates sobre o excesso de população surgem inevitavelmente ideias erradas. Às vezes por relutância em reconhecer o problema, outras vezes pela falta de informação. As treze ideias erradas mais importantes são refutadas abaixo.  

Ideia errada n.º 1  

Há mais do que comida suficiente para todas as pessoas na Terra, tanto agora como no futuro. O problema é uma distribuição desigual. Nos países ricos há abundância, nos países pobres uma escassez.  

Reação.  A abundância nos países ricos baseia-se na importação de produtos alimentares do exterior. Vivem dos recursos de outros países. Os habitantes dos países pobres não conseguem fazê-lo. Têm de ser autossuficiente ou são obrigados a trocar as suas matérias-primas por comida. Por definição, o excesso de população é uma situação em que uma área não consegue satisfazer as necessidades dos seus habitantes. De acordo com a definição, os países ricos e pobres podem ter excesso de população: os países ricos pela importação de produtos alimentares do exterior e os países pobres pela falta de oportunidade de subsistência para os seus habitantes. Haverá um equilíbrio se a capacidade de sustentação natural de uma área estiver de acordo com o número dos seus habitantes e se não for necessário um transporte em grande escala de produtos alimentares. O transporte causa muitas emissões de dióxido de carbono e, portanto, contribui para a alteração climática, tendo como consequência o aumento dos problemas agrícolas. Uma distribuição mais equitativa de alimentos pelo mundo implicaria um maior transporte e um maior consumo energético para processamento e conservação, assim como para a construção de estradas. As emissões de dióxido de carbono aumentariam mais.  

Ideia errada n.º 2  

As pessoas nos países pobres consomem menos e causam menos poluição que as pessoas nos países ricos. O esgotamento da terra e as alterações climáticas causadas pelas emissões de gases de efeito de estufa são a consequência do consumo excessivo dos países ricos. Os países pobres não são, de forma alguma, responsáveis por isso. O verdadeiro problema não devia ser chamado de excesso de população, mas consumo excessivo. 

 Reação. Certo. Se os países ricos consumissem e poluíssem muito menos, diversos problemas seriam resolvidos. Uma redução do consumo e poluição pode ser alcançada mais eficazmente ao reduzir o número de consumidores, ou seja, o número de pessoas. Os países emergentes como a China e a Índia estão trabalhando com vista ao padrão de consumo dos países ricos. Isto exacerba a situação global. Nos países emergentes, a redução populacional é a melhor solução contra a sobre-exploração e poluição. Em suma: quanto menos pessoas a viver aqui como nós vivemos, melhor. Além disso, quanto menos pessoas viverem lá como nós vivemos, melhor.

Ideia errada n.º 3  

Precisamos de mais pessoas jovens para impedir o envelhecimento da população. Quem vai manter o crescimento econômico e pagar as nossas pensões? E quem vai cuidar dos idosos?  

Reação  

Há vários argumentos contra o aumento das taxas de natalidade ou a atração de migrantes jovens. Em primeiro lugar, estas medidas só vão mudam o problema: estes jovens também envelhecem e quem vai cuidar deles? Em segundo lugar, menos se a população atual envelhecer, continua a haver muita capacidade de trabalho escondida. Muitas pessoas trabalham a tempo parcial ou estão à procura de trabalho. Em terceiro lugar, é necessária uma menor força de trabalho como consequência da automação e robotização, como já é possível observar nos bancos e lojas. Por último, o que temos de gastar mais no cuidado a idosos será economizado nos custos dos jovens, como escolas e educação.  

Ideia errada n.º 4  

O excesso de população não é a causa da escassez alimentar em diversos países na África e no Médio Oriente, mas a guerra e a pobreza são. Não faz diferença se muitas ou poucas pessoas vivem lá. Se tiver o azar de viver lá, vai passar fome.  

Reação  

Mais depressa a guerra e a pobreza são a consequência do excesso de população que uma causa de escassez alimentar. Em quase todas as áreas de conflito no Médio Oriente (Síria e Iémen) e em África (Somália e Eritreia), a escassez alimentar e causada por secas graves. Não há água suficiente, pastagem e terra arável para um excesso de pessoas. Se terceiros têm mais que você e não estão dispostos a partilhar, você vai e tira e começa uma guerra. No entanto, em todos estes casos, o excesso de população é a causa mais profunda: demasiadas pessoas para uma área com capacidade de sustentação insuficiente.  

Ideia errada n.º 5  

Ter filhos é um direito fundamental e uma escolha individual. O governo não pode interferir nisso. Afinal de contas, não vivemos na China.  

Reação 

O artigo 16.º da Declaração Universal dos Direitos Humanos afirma que os homens e as mulheres têm o direito de casar e constituir família. No entanto, se este direito for exercido sem restrições, a consequência pode ser a violação de outros direitos humanos por excesso de população, p. ex., o direito a um padrão específico de vida (artigo 25.º), no caso de uma descendência numerosa, acabando numa situação de escassez. Além disso, o governo já interfere na procriação há muitos anos ao responsabilizar a comunidade pelos custos na forma de abono de família, incentivos fiscais ou subsídio por guarda de criança. É injusto para as pessoas que não procriam; contribuem para o desejo das outras pessoas terem filhos. As primeiras podem ser grandes amantes de cães, mas enquanto donos de um cão têm de pagar impostos! 

Ideia errada n.º 6  

Os cenários assustadores anteriores de escassez de alimentos como consequência do excesso de população não se tornaram realidade. Malthus e o Clube de Roma estavam redondamente enganados. A tecnologia agrícola encontrou sempre soluções: a Revolução Verde no último século e, mais uma vez, com culturas geneticamente modificadas.  

Reação  

10% da população mundial continua a ser subnutrida. As alterações climáticas ameaçam o abastecimento alimentar a um nível crescente. De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, a produção mundial de alimentos, ração e fibras alimentares tem de duplicar até 2050 para satisfazer a necessidade crescente de uma população mundial em constante expansão. Assim, estamos a entrar num círculo vicioso. Uma maior produção alimentar evita a fome. Portanto, há mais pessoas vivas, que vão procriar e precisar de uma produção alimentar crescente para alimentar um número crescente de bocas famintas. Este círculo vicioso será interrompido da forma mais violenta assim que a produção alimentar já não conseguir acompanhar o crescimento populacional. Já é o caso em diversas regiões. A situação na África Subsaariana só piorou nos últimos anos. Um aumento permanente da produção alimentar vai levar-nos eventualmente a uma rua sem saída.  

Ideia errada n.º 7  

Assim que o assunto dos métodos contraceptivos surge, está sempre associado aos países em desenvolvimento. Lá as pessoas têm de limitar o número de filhos de acordo com a vontade dos países ricos. Apresenta laivos de racismo.  

Reação  

Muitas mulheres nos países em desenvolvimento precisam de planejamento familiar, mas não conseguem pô-lo em prática. Em muitas culturas, as moças se casam cedo e o marido determina o número de filhos. É mais uma questão de falta de capacitação da mulher que de racismo.  

Ideia errada n.º 8  

À escala mundial, o número de nascimentos por mulher está diminuindo ainda mais. O ponto de reposição está no limite de dois filhos por casal. Portanto, a população mundial vai estabilizar aos 10 mil milhões de pessoas no final do século e até mesmo diminuir depois disso.  

Reação  

Isto é uma suposição. Com esta previsão, assume-se a projeção média das Nações Unidas, mas não há garantia de que vai se tornar realidade. Se as taxas totais de fertilidade dos anos 2005–2010 se mantiverem, acabaremos com 27 bilhões de pessoas. Mas mesmo se a projeção média provar estar correta, haverá demasiadas pessoas para os recursos globais disponíveis, certamente quando todas essas pessoas estão lutando por um padrão de vida superior. Calcula-se que a população mundial atual de cerca de 7,5 mil milhões de pessoas podia viver de forma sustentável a um nível de prosperidade existente em 1950. Isto representaria um grande passo atrás para os países ricos ou uma redução considerável do número de habitantes.    

Ideia errada n.º 9  

A insistência nos métodos contraceptivos representa a opressão das mulheres. As gravidezes são consideradas indesejadas pois deixam as mulheres menos disponíveis para o mercado de trabalho. É um obstáculo à realização pessoal feminina. 

Reação  

Em princípio, as mulheres são livres para cumprir o seu desejo de ter filhos. Por lei, devem poder dar à luz em paz e tranquilidade. É para isso que serve a licença de maternidade. No entanto, na situação atual de excesso de população, os incentivos governamentais para procriação são indesejáveis. O governo não deve discriminar as pessoas sem filhos contra as pessoas com filhos ao conceder às últimas redução de impostos e sobretaxas. 

Ideia errada n.º 10  

A migração e o excesso de população são problemas completamente diferentes. Os migrantes já lá estão. Mudam-se, mas os números mantêm-se. Devem ter a liberdade pessoal de escolher o local de residência no mundo. 

Reação  

Na situação atual de consumo excessivo nos países ricos com consequências desastrosas para o ambiente, o número de pessoas com esta maneira de viver deve ser substancialmente reduzido pelos métodos contraceptivos, assim como a redução e até mesmo o bloqueio da imigração. É injusto que os países que contribuíram para as alterações climáticas com as suas emissões de longa data de dióxido de carbono se recusem a acomodar os fluxos migratórios pelos quais são parcialmente responsáveis. No entanto, se o combate ao excesso de população e consumo excessivo for a maior prioridade, os países ricos só podem aceitar imigrantes depois de reduzirem drasticamente o tamanho da população e o nível de consumo. 

Ideia errada n.º 11 

O excesso de população não pode ser um problema grave pois o governo nunca o menciona.  

Reação  

É possível ganhar vantagens políticas ao mencionar o tema. Os partidos cristãos consideram as (grandes) famílias uma pedra angular da sociedade, os esquerdistas acreditam que a procriação é um direito humano fundamental e os neoliberais consideram as pessoas principalmente como consumidores e força de trabalho. Na direita há oposição contra a imigração, mas por outros motivos que não o crescimento populacional.  

Ideia errada n.º 12  

A História ensina-nos repetidas vezes que a tecnologia resolve todo o tipo de problemas. Porque não seria o caso com o excesso de população?  

Reação  

Com a tecnologia, em primeiro lugar, pensa-se na produção alimentar, engenharia genética e gestão da água. No entanto, na realidade, a tecnologia resolveu o problema do excesso de população tão cedo quanto no último século. A invenção dos contraceptivos modernos dá à humanidade a possibilidade de ter relações sexuais sem filhos e de ajustar o número à situação de vida. A tecnologia necessária já existe, só temos de a difundir e utilizar. 

Ideia errada n.º 13  

Dar acesso a contraceptivos modernos a todas as mulheres e o problema do excesso de população desaparece totalmente.  

Reação  

A disponibilidade de contraceptivos modernos é uma condição necessária, mas não suficiente de planejamento familiar. Investigação revela muita ignorância. Por exemplo, as mulheres pensam que não podem engravidar se tiverem uma vida sexual modesta ou enquanto estiverem amamentando. As mulheres também receiam que a pílula as engorde ou prejudique a sua saúde. No entanto, o principal obstáculo é cultural. As mulheres solteiras que tomam a pílula são consideradas como promíscuas, o ambiente social ou os líderes religiosos acham que as pessoas devem poder ter filhos sem restrições ou os homens tornam o seu estatuto dependente de um grande número de filhos.

Conheça a TV 247

Ao vivo na TV 247 Youtube 247