Espalhe a felicidade, ela é contagiosa

Pesquisa norte-americana mostra que uma pessoa feliz pode transmitir esse estado a um grande nmero de indivduos de alguma forma relacionados a ela

Por Eduardo Araia

O que a felicidade de um amigo do amigo de seu amigo tem a ver com você? Se a primeira resposta que lhe vem à cabeça é “nada”, vale a pena repensar seus conceitos. Essa pessoa – que pode, inclusive, ser uma completa desconhecida para você – tem, sim, relação consigo: se ela estiver feliz, suas próprias chances de se sentir feliz aumentam 6%.

A porcentagem saiu do cuidadoso e, de muitas maneiras, surpreendente trabalho que o cientista social James Fowler, da Universidade da Califórnia em San Diego, e Nicholas Christakis, professor de sociologia na Escola de Medicina de Harvard, estão fazendo sobre relações sociais e suas consequências sobre áreas como saúde e estados emocionais. Em um de seus mais recentes trabalhos, eles se debruçaram sobre a felicidade e mostraram que ela se dissemina em vários lugares por meio de uma rede social. Segundo os pesquisadores, ela não se limita a transitar de uma pessoa para outra: chega a indivíduos até três graus de separação. Além disso, a felicidade parece ter um efeito maior no bem-estar da pessoa do que o dinheiro – um considerável consolo nestes tempos de economia ainda cambaleante na maior parte do mundo.

Os estudos de Fowler e Christakis nessa área têm por base o Framingham Heart Study, um ambicioso plano desenvolvido desde 1948 pelo National Heart Institute, do governo norte-americano, para aprofundar o conhecimento científico sobre as doenças cardíacas. A partir daquele ano, milhares de habitantes da cidade de Framingham, em Massachusetts, e seus descendentes passaram a fazer visitas ao médico a cada quatro anos, em média, para uma completa avaliação da saúde pessoal. A gigantesca massa de dados reunida pode ser aproveitada em diversas outras áreas de estudo, como Fowler e Christakis têm demonstrado.

No caso da felicidade, eles usaram informações da pesquisa de Framingham para recriar uma rede social de 4.739 pessoas cuja felicidade foi medida entre 1983 e 2003. A fim de avaliar o bem-estar emocional dos participantes, eles recorreram às respostas a quatro itens da Escala de Depressão do Centro de Estudos Epidemiológicos: “Eu me sinto esperançoso a respeito do futuro”; “Eu sou feliz”; “Eu desfruto a vida”; e “Eu sinto que sou tão bom quanto outras pessoas”.

Um dos pontos destacados por Fowler e Christakis é que a felicidade adora companhia. As pessoas felizes tendem a se agrupar e, a princípio, pessoas que possuem mais contatos sociais parecem mais felizes. Os autores do estudo ressaltam, porém, que o número total de conexões sociais não chega a ter a importância apresentada pelo número de conexões felizes.

Segundo a pesquisa, a felicidade se dissemina em uma rede social até três graus de separação. Cada pessoa tem 15% mais possibilidade de ser feliz se estiver diretamente conectada a um indivíduo feliz; 10% se é amiga de um amigo que está feliz; e 6% se é amiga de um amigo de um amigo feliz. Na média, cada amigo feliz aumenta em 9% a chance de a própria pessoa ser bafejada pela felicidade.

Fowler e Christakis também flagraram o impacto da infelicidade. De acordo com eles, todo amigo infeliz reduz em 7% a probabilidade de a pessoa se sentir feliz. A infelicidade também se propaga, mas de forma menos intensa.

As porcentagens podem parecer pequenas, mas Fowler chama atenção para um detalhe no estudo de Framingham: um ganho extra de US$ 5 mil representou, para os participantes, um aumento de apenas 2% na felicidade. Outro aspecto importante a considerar, assinalam Fowler e Christakis, é a estrutura das conexões: a posição que ocupamos na rede social tem um grande impacto sobre o nosso nível de felicidade.

Os pesquisadores observam que a felicidade individual depende não apenas de quantos amigos a pessoa tem, mas também de quantos amigos seus amigos possuem. Em termos de rede social, isso é denominado “centralidade”. Quanto mais central uma pessoa é – tanto em termos da qualidade como da quantidade de suas conexões –, maiores são as chances de que elas se tornem felizes. (Mas ficar feliz não significa necessariamente ampliar o círculo social, ressaltam os estudiosos.)

O fator distância também foi avaliado por Fowler e Christakis. Segundo os resultados obtidos, um amigo feliz que vive a até 1,6 quilômetro do lar da pessoa aumenta em 25% a probabilidade desta última ficar feliz. Já amigos que moram mais longe não apresentam efeitos significativos. Efeitos similares foram registrados em irmãos que vivem a até 1,6 quilômetro do lar da pessoa estudada e em cônjuges que moram sob o mesmo teto na respectiva comparação com irmãos e cônjuges que residem a distâncias superiores a uma milha. Os vizinhos de porta também apresentam influência considerável: se estão felizes, eles ampliam em 34% a probabilidade de a pessoa se sentir feliz. Já vizinhos mais distantes – mesmo que morando no mesmo quarteirão – não têm impacto significativo.

Entre as diversas implicações práticas do trabalho, Fowler destacou uma: a característica da felicidade como um fenômeno intimamente ligado ao coletivo. De acordo com ele, cabe a nós assumir maior responsabilidade por nossa felicidade, pois ela afeta dezenas de outras pessoas. “A busca da felicidade não é uma meta solitária”, afirmou. Nós somos conectados, e assim é a nossa felicidade.”

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