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Oásis

Europa - Um cheiro de anos 30 paira no ar

O espectro do autorismo neofascista volta a assombrar a Europa. Anne Palmers, jornalista e escritora sueca, comenta o preocupante panorama

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Por Anne Palmers, de Gotemburgo, Suécia, especial para Oásis - A primeira guerra mundial, entre 1914 e 1918, feriu o mundo todo. As assinaturas dos tratados de paz pelos combatentes europeus camuflavam o ódio e uma profunda desconfiança. Os alemães perderam alguns pedaços da sua pátria, e os europeus, asiáticos e americanos sepultaram ao redor de 80 milhões de pessoas, incluídos aqueles que a “gripe espanhola” matou em 1918. Todos os povos que sofreram pobreza, fome e tiveram seus lares destruídos gritaram “nunca mais!”

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Em Liverpool, Inglaterra, manifestantes já se mobilizam contra as crescentes forças neofascistas

A Europa estava em ruínas. Apesar disso, a idéia de repetir essa guerra insensata surgiu no momento em que o humilhado soldado Adolf Hitler regressou a seu quartel na Áustria. Ele preparava a sua revanche. Seu momento de boa sorte chegou quando a bolsa de Nova York despencou em 1929. Alguns descuidos fatais, na forma de empréstimos sem fundos e as dívidas do armamento da guerra recente fizeram estilhaçar uma frágil economia mundial, com consequências desastrosas para povos nervosos, fáceis de entrar em agitação.

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Durante a década anterior à quebra da bolsa, os europeus celebraram um período de impressionante vitalidade criativa. Floresceu o teatro, a literatura, o cinema, a dança, as artes plásticas e a arquitetura em todo o continente, com seu epicentro mágico em Paris. O sonho de viver na paz eterna estava presente em tudo e em todos. Mas tudo isso mudou, da noite para o dia, em 29 de outubro de 1929.

Os Estados Unidos, que era então o país mais próspero do mundo, não pode pagar suas dívidas. Nem a Europa. A verdade emergiu de repente e erradicou todas as esperanças. Os povos fizeram fila indiana diante dos bancos, dos dois lados do Atlântico, para sacar seu último dólar, seu último marco. Homens que tinham perdido todas as suas economias saíram às ruas em manifestações. Protestos políticos e distúrbios enraivecidos fizeram crescer um ambiente hostil, até se chegar a uma agressão insana. Logo, a raiva corria nas veias do povo alemão, austríaco, grego, italiano, acompanhada de altos gritos. Botas negras marcaram o compasso nazista incorporado aos passos das marchas.

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Extremistas de todas as índoles, sadios e enfermos, entraram na arena. Procuravam chamar a atenção, apontando inimigos fictícios ou reais. Os que desejavam filiar-se podiam escolher entre marxismo, nazismo, fascismo, ou permanecer parados, indiferentes, com todas as trágicas consequências que tal postura acarreta. Em poucos anos, o ambiente político na Europa tornou-se completamente manipulado por líderes e semilíderes insanos como Lenin, Stalin, Hitler, Franco, Salazar e Mussolini. Todos eles garantiam que apenas eles sabiam como salvar os miseráveis e como criar o desejado paraíso.

Da França, um amigo de meu pai, autor e jornalista norte-americano, escreveu-lhe algumas cartas comoventes. Eugen Löhrke viajava a serviço pela Europa, fazendo reportagens. Era um homem jovem, rico e bem educado. Perdeu sua inocência intelectual em 1932, nas ruas de Munique, Alemanha.

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Manifestação de partidários da extrema direita em Paris

“...chegamos na última hora ao impressionante congresso nazista. Estou certo de que você é capaz de imaginar esse acontecimento. O som do passo de marcha militar, das botas, tambores e canhões era contínuo. Íamos dormir ao som de gritos e palavras de ordem, e despertávamos apenas a tempo de ver as tropas dos soldados do Assalto Negro perfilar-se na estação ferroviária. Chegado esse momento, quis ir embora, escapando pela ponte do Reno... Mas fomos a Schwartzwald visitar um pintor e sua esposa, e os encontramos mergulhados em desespero e pavor, ninguém confiava no outro e todos temiam o futuro. O pintor se sentia obrigado a esconder todos os seus quadros para que os nazistas não pudessem confiscá-los. Descemos ao porão na semi-escuridão, à luz de velas, para dar uma olhada nas suas melhores telas... E nos alegramos pela sorte de poder escapar cruzando a ponte do Reno... tudo era como nos últimos dias antes da primeira guerra mundial. A estação ferroviária em Paris estava congestionada, cheia de grupos de soldados desolados dizendo adeus a seus familiares queridos. Toda alegria, excitação e colorido, signos de Paris, estavam extintos como uma vela que se apaga na escuridão da noite. Trataremos de voltar a Nova York num navio que estará repleto de turistas americanos em estado de choque”.

Como foi possível que alguém quisesse repetir os horrores da primeira guerra mundial numa segunda guerra que, como a primeira, se converteria num banho de sangue? Medo? De uns poucos doidos?

Há alguns anos um amigo, neurocirurgião, comentava com melancolia o contínuo conflito belicoso interno na Irlanda. E dizia: “Acho que os homens precisam de guerras para não enlouquecer. Alguma coisa os leva a usar sua força corporal em vez de seus cérebros. Os conflitos devoram os seus guerreiros por completo, ou pelo menos em parte. Ser homem é, em si mesmo, conflitante. Não podemos observar a nós mesmos; somente os outros, nunca o nosso próprio eu. Se pudéssemos observar a nós mesmos, como feras prisioneiras de algum zoológico, certamente sentiríamos compaixão e abriríamos as jaulas”.

Hoje, o som de botas negras – por enquanto não tão forte como nos anos 30 – pode ser ouvido em quase todos os países europeus nos quais os partidários do nazismo e do fascismo conseguiram cadeiras na política regional e central. França, Holanda, Dinamarca, Finlândia, Suécia, Noruega, Inglaterra, Itália, e inclusive Israel estão infectados pelo mal. Todos sofrem ataques a seus valores de igualdade e fraternidade.

Olhando para trás, nota-se que os séculos de nossa belicosa “civilização” transcorreram à sombra de uma mesma atitude: ser homem, em nossa sociedade, significa servir; se ele não serve, faça-o desaparecer; se não desaparece, faça-o prisioneiro ou mate-o.

Conflitos internos nos fazem aceitar a opressão externa, seja ela fictícia ou real. Mudar o universo não está escrito em nosso destino. O universo nos domina, e não o contrário. Aquele que se adapta, sobrevive. Estamos adaptados a ver e considerar o globo como uma conta no banco.

Se pudéssemos falar com o globo, com esta Terra preciosa que possibilita nossa existência, ela responderia: Querido homem, eu e você estamos programados para viver o mesmo destino. Estamos aqui, juntos, e podemos nos destruir, um ao outro. Eu tenho meus problemas, meus terremotos e vulcões, e você tem seus desejos incontroláveis. Não há opções, seguiremos juntos até o fim. Não existe tempo nem dinheiro para conflitos.

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