Gladiadores. Superstars do Império Romano

Milhares de torcedores berrando nas arquibancadas, homens em campo ovacionados pela multidão, apostadores à beira do infarto e lotação esgotada na tribuna de honra ocupada por figurões da política e das finanças. Um final de campeonato com Corinthians e Palmeiras? A decisão de um título de MMA? Não. Simplesmente um espetáculo de gladiadores na Roma Antiga.

Milhares de torcedores berrando nas arquibancadas, homens em campo ovacionados pela multidão, apostadores à beira do infarto e lotação esgotada na tribuna de honra ocupada por figurões da política e das finanças. Um final de campeonato com Corinthians e Palmeiras? A decisão de um título de MMA? Não. Simplesmente um espetáculo de gladiadores na Roma Antiga.
Milhares de torcedores berrando nas arquibancadas, homens em campo ovacionados pela multidão, apostadores à beira do infarto e lotação esgotada na tribuna de honra ocupada por figurões da política e das finanças. Um final de campeonato com Corinthians e Palmeiras? A decisão de um título de MMA? Não. Simplesmente um espetáculo de gladiadores na Roma Antiga. (Foto: Luis Pellegrini)


 

 

 

Por: Luis Pellegrini

A descrição acima refere-se a cenas que aconteciam há 2 mil anos, no Coliseu de Roma ou em alguma outra das centenas de arenas espalhadas pelas províncias romanas. Mas poderia perfeitamente corresponder ao que acontece ainda hoje, nos esportes que implicam força física e competição violenta. Como acontecia no passado, a fome de combate persiste na psique coletiva dos torcedores de hoje, e os combatentes – vetores que ajudam a satisfazê-la, num processo que os psicólogos chamam de catarse – continuam sendo aplaudidos e reverenciados como semideuses.

 

 

A arqueologia, fontes históricas e várias reconstruções confirmam que os gladiadores eram tão populares e amados quanto os craques contemporâneos do futebol. Mas o destino daqueles homens escravizados em nome do espetáculo eram bem diverso: a fama ou a morte. Quando vencedores, eram reverenciados e tornados símbolos sexuais, cobiçados pelas mulheres romanas e também por uma parte dos homens. Alguns poucos ficaram registrados na história, como o gladiador Spartacus, que à frente de uma revolta de escravos manteve em cheque as legiões romanas e se tornou um herói rebelde. A imensa maioria, no entanto, perecia em combate e, como derrotados, não mereciam nenhuma reverência ou honraria. Seus despojos eram simplesmente atirados em alguma vala comum, e é nelas que, hoje, arqueólogos vão buscar informações.

 


Idade média era de 30 anos

Tais investigações com metodologia científica já revelaram uma série de dados importantes sobre essa casta de superstars combatentes. Os gladiadores tinham em média entre 25 e 35 anos (a maioria deles oscilava ao redor dos 30 anos), alinhados com as expectativas de vida naqueles tempos. Também a estatura estava de acordo com a época: 1,68 m em média.

 

 

A que serviam os gladiadores? Segundo as modernas interpretações dos estudiosos de história romana, a instituição dos combates entre gladiadores tinha objetivos essencialmente políticos: atrair as boas graças dos cidadãos e desviar a sua atenção da vida política nacional. Era também um instrumento de propaganda muito eficaz, e o primeiro a perceber isso foi o filósofo e historiador Juvenal, que sintetizou essa estratégia política com a expressão : “panem et circenses”, pão e circo.

 

 

Os jogos dos gladiadores tornaram-se um instrumento através do qual os magistrados, e a seguir, de modo ainda mais forte, o próprio imperador conseguiam fazer publicidade de si mesmos. Tornaram-se a tal ponto importantes que foi estabelecido por lei que um magistrado, uma vez eleito, tivesse a obrigação de organizar um campeonato de gladiadores ou de construir um edifício público. Quase todos escolhiam patrocinar os jogos: garantiam uma aprovação popular muito mais ampla.

 

 

A maior parte dos gladiadores eram escravos ou ex-escravos, mas não foram raros os casos em que um indivíduo nascido livre combatia sob contrato com um “manager”. Como categoria social, os gladiadores não eram considerados muito distantes das prostitutas, dos atores e dos cafetões. Com frequência se usava a expressão “infames” para se referir a eles. Mas nada disso ofuscava a imagem de símbolos sexuais da qual desfrutavam. Foram amados inclusive por mulheres da nobreza, que estavam dispostas a tudo pelo amor de um gladiador. Como foi o caso de Eppia, mulher de um senador, que abandonou o marido para fugir com um desses heróis da arena.

 


Gladiadoras muitas vezes eram voluntárias

Os gladiadores não eram apenas homens. Existem provas que indicam a existência de combatentes do sexo feminino. Mas, a diferença dos homens, a maior parte das gladiadoras não era formada de escravas, mulheres estrangeiras ou cidadãs pobres obrigadas a empunhar as armas por dinheiro ou obrigadas a isso pelos maridos, amantes ou familiares. Quase todas as gladiadoras assumiam tais práticas por paixão. “Algumas mulheres desenvolviam uma tal paixão pelos combates que decidiam voluntariamente descer para a arena”, explica Fik Meijer, professor de história antiga na Universidade de Amsterdã (Holanda).

 

 

O público que frequentava as arenas desenvolvia e manifestava paixões claramente sanguinárias. Por isso, nos espetáculos, antes que os gladiadores se exibissem, pela arena já tinham passado os animais ferozes e muitas vezes as execuções públicas dos condenados à morte. Tais preliminares amainavam o desejo de sangue por parte do público, tornando menos intensas as irrupções de violência no seio da plateia. Para alguns, no entanto, a imagem que se desprende dos estudos históricos, especialmente em centros menores como Pompeia, é diversa: “As pessoas não eram assim tão sedentas de sangue e muitas não gostavam do espetáculo da morte em si mesma”, explica o historiador italiano Fausto Jacobelli. “Em geral, o que o público queria ver eram bons combates, com gladiadores competentes, corajosos e que soubessem respeitar as regras, as quais eram rígidas e bem codificadas”, completa o estudioso.

 

 

O papel dos espectadores nos campeonatos sempre foi fundamental: o público torcia por este ou aquele combatente e quem se manifestasse a favor da morte do derrotado devia levar isso em conta, pois podia ser agredido pelos torcedores do mesmo. Dar ouvidos ao povo era uma questão de prestígio político, mas também um sinal do próprio poder e uma medida da aprovação conquistada.

 

 

O polegar para baixo, gesto de condenação à morte por parte do público, pode muito bem nunca ter existido. Muitos estudiosos afirmam que a graça era expressa com o polegar escondido na mão, imitando o gesto da espada que é recolocada na bainha, e a condenação era expressa com o polegar para cima. A ideia de que fosse voltado para baixo se difundiu no decorrer do século 19, nas pinturas românticas que evocavam os duelos no Coliseu. A verdade é que os combates frequentemente terminavam com um dos gladiadores se rendendo.

 


Bebida revigorante à base de cinzas

Dados curiosos acabam de ser obtidos a respeito da alimentação dos gladiadores. Após analisar ossos de gladiadores que morreram em Éfeso, na atual Turquia, os cientistas detectaram altas porcentagens de estrôncio (elemento presente nas proteínas vegetais fornecidas por legumes, cereais e o leite) e baixas porcentagens de zinco (presente nas proteínas animais). “O percentual de estrôncio é o dobro em relação àquele contido nos ossos das pessoas que naquela época viviam nas proximidades de Éfeso”, explica o médico austríaco Karl Groschmidt, que efetuou estudos nos restos de alguns heróis da arena. Isso significa que os gladiadores eram quase inteiramente vegetarianos: comiam mais e melhor do que a maioria das pessoas, mas certamente não eram tão carnívoros como se poderia esperar de esportistas. “De algum modo, os romanos tinham compreendido que alguns alimentos são essenciais para os ossos, os reforçam e possibilitam uma recuperação mais rápida”, comenta o pesquisador alemão. Não à toa os gladiadores eram apelidados de “comedores de cevada”.

Os ossos dos gladiadores se mostraram duas vezes mais ricos de estrôncio e cálcio do que os ossos das pessoas comuns, apesar de que a dieta de ambas as categorias era praticamente a mesma. Isso levou os cientistas a lançarem a hipótese – agora praticamente acertada – de que, ao terminar as sessões de treinamento, os atletas consumissem pelo menos um copo de uma bebida revigorante às vezes descrita nos testos antigos, feita à base de água, vinagre e cinzas de madeiras (o historiador Plínio o Velho descreve isso na sua Naturalis Historia). Em compensação, esses heróis das arenas com frequência tinham os dentes cariados, como testemunham diversos achados arqueológicos.

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