Meia volta, volver: Jovens britânicas acham que a família é mais importante que o trabalho

Primeiro os filhos, depois o trabalho. A grande onda da ocupação profissional feminina começa a diminuir seu ímpeto exatamente lá, onde começou: a Grã-Bretanha

Primeiro os filhos, depois o trabalho. A grande onda da ocupação profissional feminina começa a diminuir seu ímpeto exatamente lá, onde começou: a Grã-Bretanha
Primeiro os filhos, depois o trabalho. A grande onda da ocupação profissional feminina começa a diminuir seu ímpeto exatamente lá, onde começou: a Grã-Bretanha (Foto: Gisele Federicce)
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Por: Equipe Oásis

As mulheres inglesas passaram os últimos cinquenta anos arregaçando as mangas para conseguir conciliar família e profissão. No período, elas recuperaram, passo a passo, a distância – em termos de salário e de taxa de emprego – que as separava dos homens. Hoje, quando chegaram à quase completa paridade de gêneros, devem enfrentar um novo obstáculo totalmente inesperado: suas próprias filhas. As garotas britânicas na faixa dos vinte anos fizeram uma revisão das suas prioridades: o escritório pode esperar. As crianças crescem melhor quando mamãe está em casa. Assim (coisa que não acontecia desde o final da Segunda Guerra) as millennials – como a sociologia inglesa chama as moças nascidas entre 1985 e 1995 – trabalham menos do que as mulheres que nasceram dez anos antes delas.

Equiparação de gêneros parecia irrefreável

Essa contra-revolucão das jovens britânicas está documentada por um estudo realizado pela London School of Economics e colheu todos de surpresa: em 1965, quando os Beatles gravaram Help, apenas 52% das mulheres com idade ao redor de 25 anos dispunha de um salário. Duas décadas depois, com Margaret Thatcher ocupando Downing Street, esse percentual já tinha subido para 58%. Na passagem ao século 21, a ocupação feminina no país tinha chegado a 71%, mais de dez pontos percentuais acima do resto da Europa. A equiparação dos gêneros feminino e masculino no mercado de trabalho parecia uma corrida irrefreável. Mas não foi assim. A maré mudou: hoje, apenas 68% das jovens inglesas na faixa dos 20 anos possui um emprego, calcula a pesquisa dirigida pelo professor de sociologia Alan Manning. E não apenas. Pela primeira vez em 100 anos – desde aquele 1913, quando as suffragetes ainda lutavam pelo direito ao voto – o ímpeto das jovens inglesas pela equiparação profissional perdeu força.

As millenials ganham em média 5% menos do que os homens da mesma faixa etária, a mesma diferença que existia há dez anos. Culpa da crise? "Não apenas – explica Mannning. Essas cifras refletem transformações culturais e sociais mais profundas na Grã Bretanha e também nos Estados Unidos, onde o mesmo fenômeno se verifica". Um dos fatores mais importantes que estão por trás dessa pequena (por enquanto) porem significativa inversão estatística é que, entre as moças de 20 e poucos anos é cada vez mais forte a convicção de que os filhos são mais importantes do que o trabalho. "Com razão ou não, as mulheres dessa idade pensam que o papel de uma mãe não possa ser substituído por paliativos como uma baby sitter, uma creche ou um pai mais presente e atuante em casa", afirma o professor da LSE. Essas moças temem, muito mais que as mulheres da geração que as precedeu, que as crianças entregues durante tantas horas, diariamente, a "sucedâneos" de mãe, terminem sofrendo muito mais. A pesquisa mostra que 27% dessas moças – segundo dados do British Attitude Survey – está convencida de que uma mãe que trabalha fora proporcione uma vida menos justa e favorável aos filhos. Uma maternidade mais "sadia", em suma, conta mais do que o emprego.

Nada a ver com a crise econômica

Essa nova percepção da importância da mãe no lar tem sua razão de ser e justifica-se plenamente. Mas, além dela, existe também um simples cálculo de economia doméstica por trás dessa nova postura das jovens inglesas. Papel e lápis na mão, basta fazer as contas para se concluir que manter uma empregada e/ou uma babá em casa para cuidar dos filhos pode facilmente custar mais caro do que o inteiro salário que a dona de casa ganhará fora. Um trabalhador doméstico hoje, nos países desenvolvidos, tem todas as garantias de um trabalhador comum e seu salário não é inferior. Pelo contrário, sobretudo na Europa, é comum um prestador de serviços domésticos que trabalhe como diarista, por hora ou por serviço, tais como babás, cozinheiras, faxineiras, pedreiros, encanadores, etc., ganhar tanto ou mais do que o trabalhador com diploma universitário.

Por outro lado, pesquisadores como Raquel Fernandez, professora de economia da New York University, estão convencidos de que a crise econômica atual tenha pouco a ver com o fenômeno, especialmente nos países onde a diferença de gênero no escritório agora conta muito pouco. "A atual geração de moças está menos impregnada dos valores ideais do feminismo", afirma essa professora. "São moças que não sentem mais a obrigação de vencer no mercado de trabalho para demonstrar que valem alguma coisa. Depois da universidade, elas preferem conscientemente mudar suas prioridades e dedicar alguns anos à consolidação da própria família". Por trás dessa escolha existe também a evolução sociológica e demográfica dos núcleos familiares. "O boom dos divórcios dos anos setenta convenceu muitas mulheres a investir em sua própria proteção e subsistência, buscando um trabalho", prossegue Fernandez. Mas hoje, com o índice de casamentos em queda livre – e, portanto, também o índice de separações –, diminuiu a pressão dessa exigência.

O desejo de maternidade das moças britânicas, por outro lado, tampouco parece estar questionando as conquistas históricas do feminismo nacional. Os números falam com clareza: as famílias nas quais a mulher ganha mais do que o homem no Reino Unido são hoje cerca de dois milhões, mais de uma em cada quatro e quase o dobro do que acontecia no início deste milênio, segundo os dados do Institute for Public Policy Research.

No Brasil, persiste o problema da discriminação

E no Brasil? Em nosso país, como nos demais países em desenvolvimento, as coisas ainda são bem diferentes. Calcula-se que estamos cerca de 20 anos atrasados em relação às evoluções que aconteceram nos países desenvolvidos. No Brasil, a hora de trabalho de uma mulher ainda vale um quarto a menos do que a de um homem. Essa diferença não tem a ver com a experiência, a produtividade ou o nível de educação das trabalhadoras. Pelo contrário: simplesmente reflete a discriminação que ainda existe no mercado de trabalho, embora a Constituição garanta direitos iguais para homens e mulheres.

Um novo estudo do Banco Mundial mostra que, se essa desigualdade acabar, não só as brasileiras (mas toda a economia) sentirão os benefícios.

O relatório Igualdade de Gênero e Crescimento Econômico no Brasil (i) trabalha com uma série de leis hipotéticas capazes de promover salários iguais entre homens e mulheres. A consequência imediata dessas leis é o aumento na renda familiar. Há também várias outras vantagens de longo prazo.

Quem ganha mais consegue poupar mais, o que traz um impacto direto no crescimento econômico e na arrecadação de impostos, segundo o estudo. Além disso, uma arrecadação mais alta pode dar origem a mais investimentos em saúde e educação, o que beneficia crianças e adultos.

"A longo prazo, a redução da desigualdade de gênero ajuda a melhorar a saúde das mulheres e traz um aumento de 0.15 ponto percentual na taxa de crescimento do produto", dizem os economistas e autores Otaviano Canuto e Pierre-Richard Agénor. O primeiro deles é vice-presidente do Banco Mundial. O segundo, professor na Universidade de Manchester (Reino Unido).

Oportunidades iguais

As brasileiras representam quase 44% da força de trabalho nacional (i). Além disso, 59,3% das empresas do país têm uma mulher entre os principais donos (i). As mulheres também têm mais escolaridade do que os homens. Mesmo assim, elas não apenas ainda são discriminadas pelo mercado de trabalho, mas continuam a fazer a maior parte das tarefas domésticas.

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