O estresse. Um inimigo traiçoeiro

Viver na sociedade moderna é quase sinônimo de passar por situações estressantes. Em vez de nos acostumarmos com isso, porém, devemos cada vez mais ficar alertas para o perigo representado pelo estresse: uma vez instalado, ele pode levar anos para desaparecer

Viver na sociedade moderna é quase sinônimo de passar por situações estressantes. Em vez de nos acostumarmos com isso, porém, devemos cada vez mais ficar alertas para o perigo representado pelo estresse: uma vez instalado, ele pode levar anos para desaparecer
Viver na sociedade moderna é quase sinônimo de passar por situações estressantes. Em vez de nos acostumarmos com isso, porém, devemos cada vez mais ficar alertas para o perigo representado pelo estresse: uma vez instalado, ele pode levar anos para desaparecer (Foto: Luis Pellegrini)

 

 

Por Eduardo Araia

 

O Pitch Black Restaurant, em Pequim, é um lugar inusitado. A qualidade da comida – consumida no escuro, supostamente para salientar o sabor dos alimentos – é, aparentemente, o que menos importa. O grande diferencial do estabelecimento é um espaço no qual os clientes podem descarregar as tensões do dia a dia, arremessando objetos de porcelana ou garrafas (comprados no próprio restaurante) em alvos pintados na parede ou esmurrando sacos de areia. O sucesso do restaurante pequinês é um sinal inequívoco de que, na batalha entre a milenar paciência oriental e o alucinante ritmo de vida do capitalismo implantado na China, o segundo ganhou – e aguente-se o estresse que ele acarreta.

O estresse, é lembrar, não é um estado ruim em si. Ligado originariamente à sensação de perigo, que levava nossos ancestrais a decidir se lutavam contra o agressor ou fugiam, ele é importante, por exemplo, para se conseguir um rendimento ótimo em ocasiões de competição. O corpo humano tem sofisticados mecanismos nesse sentido, mas não foi preparado para resistir a uma situação de estresse prolongado. Ele exige descansos periódicos que tirem a pessoa de sua rotina desgastante – o que, é bom salientar, não significa uma ou outra viagem de feriadão. Quem desrespeita isso é forte candidato ao estresse, cujas consequências podem ser graves.

 

 

As dimensões adquiridas pelo estresse no mundo contemporâneo o tornam um alvo preferencial da pesquisa científica, e muito se tem descoberto sobre ele nas últimas décadas. Um dos achados mais recentes, por exemplo, é um sinal de alerta para os estressados que deixam de vigiar sua dieta alimentar: segundo um trabalho publicado na revista Nature Medicine, um neurotransmissor, o neuropeptídeo Y (NPY), que exerce controle central sobre o apetite, também regula a obesidade abdominal induzida pelo estresse. De acordo com a pesquisa, realizada pelo Centro Médico da Universidade de Georgetown, em Washington, estimular por estresse a atividade desse neurotransmissor é um incentivo e tanto para o acúmulo de gorduras na região do abdômen: ele chegou a 50% nas cobaias testadas.

 

 

Estresse é também uma questão hormonal

Outras novidades importantes surgiram com o estudo dos hormônios relacionados ao estresse. Os cientistas já conheciam há um bom tempo o papel da adrenalina nessa área, mas, nos últimos anos, o cortisol tem conquistado lugar de destaque. De produção mais lenta (e ação mais duradoura), ele exige um nível de equilíbrio preciso. Sair desse equilíbrio é certeza de problema.

A liberação de cortisol é algo rotineiro no corpo, observa Christine Gorman no artigo “6 Lessons for Handling Stress”, publicado em 2007 na revista Time. O hormônio tem papel fundamental no despertar: horas antes de acordarmos, o hipotálamo, uma região situada na base do cérebro, envia uma instrução às glândulas suprarrenais para que comecem a liberar o cortisol, que age como um alarme de despertador. O nível do hormônio vai aumentando, cumpre seu objetivo de fazer a pessoa despertar e atinge seu pico algumas horas depois disso. Seu declínio é deflagrado quando o hipotálamo recebe a informação de que o nível já está alto; ele desativa o alarme, outras regiões do cérebro entram em ação e, enfim, as glândulas suprarrenais interrompem a produção do hormônio.

 

 

Esse é o padrão rotineiro para a maioria de nós. Em pessoas muito deprimidas, porém, aparentemente não há um comando para reduzir a produção do cortisol, e, com isso, seu nível permanece alto o dia inteiro (o mesmo ocorre com os insones). Já os pacientes com desgaste psíquico apresentam um desarranjo diferente: o nível de cortisol sobe um pouco durante a manhã, mas cai rapidamente e fica baixo durante todo o dia. O mesmo foi observado em soldados com síndrome de estresse pós-traumático, vítimas de estupro e sobreviventes do Holocausto. Ou seja: tratando-se do cortisol, a virtude está no meio – níveis altos ou baixos não são nada desejáveis.

A avaliação que cada pessoa faz de si mesma também é um fator de grande importância no exame do estresse. Num estudo recente, descobriu-se que pessoas com baixa autoestima possuem uma tendência maior ao problema. A partir de exames de neuroimagens, Jens Pruessner, da Universidade McGill, em Montreal (Canadá), sugeriu que o tamanho da região cerebral conhecida como hipocampo – ligada à formação e à retenção das memórias – deve estar relacionada a isso. O hipocampo é especialmente sensível à quantidade de cortisol no cérebro e, ao perceber que o nível do hormônio começou a subir, envia um conjunto de sinais para ajudar a interromper esse fluxo. Analisando as neuroimagens, Pruessner percebeu que as pessoas testadas que manifestaram baixa autoestima tendiam a apresentar hipocampos menores.

 

 

Ele tem um efeito envelhecedor

Outra descoberta recente a respeito desse tema foi o efeito envelhecedor do estresse. Há dois anos, pesquisadores da Universidade da Califórnia em San Francisco examinaram amostras de leucócitos (células brancas do sangue) de um grupo de mães cujos filhos apresentavam distúrbios crônicos como autismo ou paralisia cerebral. Eles descobriram fortes indícios de que as mães que cuidavam por mais tempo de seus filhos ou que tinham menos controle sobre suas próprias vidas se mostravam mais envelhecidas do que as outras.

A evidência disso foi o estado dos telômeros, minúsculas estruturas que “embrulham” as pontas dos cromossomos e as impedem de desfazer-se. Em geral, as células mais jovens possuem os telômeros mais compridos, mas nas mulheres estressadas estudadas observou-se que essas estruturas são bem menores do que nas demais integrantes da amostra. A consequência disso foi que, em termos genéticos, o primeiro grupo apresentava uma idade entre 9 e 17 anos mais avançada do que as demais integrantes do estudo.

Mesmo com as exigências impostas pelo ritmo de trabalho e por outras circunstâncias da vida, é fundamental que as pessoas não abram espaço para o estresse dominar sua vida. Christine Gorman observa que é muito difícil reverter os efeitos fisiológicos do problema – se os níveis de cortisol se desregularem por completo, aparentemente levam anos para voltar ao normal. Será que é possível resistir por todo esse tempo?

Conheça a TV 247

Ao vivo na TV 247 Youtube 247