O novo modelo chinês: A China será o novo ídolo das economias emergentes

A economista Dambisa Moyo fala de um novo modelo econômico mundial, cada vez mais atraente, desenvolvido pela China: Um chamado à cooperação política e econômica de mente aberta, em nome de uma transformação mundial

A economista Dambisa Moyo fala de um novo modelo econômico mundial, cada vez mais atraente, desenvolvido pela China: Um chamado à cooperação política e econômica de mente aberta, em nome de uma transformação mundial
A economista Dambisa Moyo fala de um novo modelo econômico mundial, cada vez mais atraente, desenvolvido pela China: Um chamado à cooperação política e econômica de mente aberta, em nome de uma transformação mundial (Foto: Gisele Federicce)

Panorama da cidade de Xangai

Panorama da cidade de Xangai




Vídeo: TED-Ideas Worth Spreading
Tradução: Leonardo Carvalho. Revisão: Ruy Lopes Pereira

O mundo desenvolvido apoia os ideais do capitalismo, democracia e direitos políticos para todos. Os que estão nos mercados emergentes raramente possuem este luxo. Nesta importante palestra, a economista Dambisa Moyo defende que o ocidente não pode se permitir repousar com os seus troféus e imaginar que os demais países o seguirão cegamente. Em contraponto, ela comenta um modelo econômico diferente, desenvolvido pela China, que se torna cada vez mais atraente. Um chamado à cooperação política e econômica de mente aberta, em nome de uma transformação mundial.

Dambisa Moyo é uma especialista em economia mundial, famosa por suas análises na área da macroeconomia e temas globais. Ela examina a interação entre as economias das nações em rápido desenvolvimento, os negócios internacionais e a economia global, colocando ênfase nas oportunidades de investimento. Dambisa viajou a mais de 60 países na última década, particularmente aos países membros do BRIC – Brasil, Rússia, Índia e China.

Vídeo:
http://www.ted.com/talks/lang/pt-br/dambisa_moyo_is_china_the_new_idol_for_emerging_economies.html
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Tradução integral da palestra de Dambisa Moyo:

"Dê-me liberdade ou me dê a morte". Quando Patrick Henry, o governador da Virgínia, disse estas palavras em 1775, ele nunca poderia ter imaginado o quanto elas iriam ecoar pelas futuras gerações de americanos.

Naquele tempo, estas palavras eram reservadas e disparadas contra os britânicos, mas nos últimos 200 anos, elas encarnam o que muitos ocidentais acreditam, que a liberdade é a maior dádiva, e que os melhores sistemas políticos e econômicos possuem a liberdade como parte integrante. Quem pode culpá-los? Nos últimos 100 anos, a combinação da democracia liberal e do capitalismo privado ajudou a catapultar os Estados Unidos e os países ocidentais a novos níveis de desenvolvimento econômico. Nos últimos cem anos, nos Estados Unidos, a renda aumentou 30 vezes, e centenas de milhares de pessoas saíram da pobreza. Enquanto isso, o talento e a inovação americanos ajudaram a estimular a industrialização e também ajudaram na criação e construção de itens de utilidade doméstica, como refrigeradores e televisões, automóveis e até o celular que está em seu bolso. Não é nenhuma surpresa, então, que até nas profundezas das crises do capitalismo privado, o presidente Obama disse: "A questão diante de todos nós não é se o mercado é uma força do bem ou do mal. Seu poder de gerar riqueza e expandir a liberdade é incomparável." Assim, há compreensivelmente, uma enraizada presunção entre os ocidentais de que todo o mundo decidirá por adotar o capitalismo privado como o modelo de crescimento econômico, de democracia liberal, e continuará a priorizar direitos políticos sobre os diretos econômicos.

A economista Dambisa Moyo

A economista Dambisa Moyo

Entretanto, para muitos que vivem nos mercados emergentes, isto é uma ilusão, e embora a Declaração Universal de Direitos Humanos, que foi assinada em 1948, tenha sido adotada de forma unânime, o que ela fez foi mascarar uma separação que surgiu entre os países desenvolvidos e os países em desenvolvimento, e as crenças ideológicas entre os direitos políticos e econômicos. Esta separação só tem aumentado. Hoje, muitas pessoas que vivem nos mercados emergentes, onde vive 90% da população mundial, acreditam que esta obsessão ocidental com direitos políticos já passou da conta, e o que é realmente importante é entregar comida, abrigo, educação e saúde. "Dê-me liberdade ou me dê a morte" somente é bom quando você pode pagar por isso, mas se você vive com menos de 1 dólar por dia, você estará ocupado demais tentando sobreviver e cuidar da sua família, ao invés de gastar seu tempo por aí tentando proclamar e defender a democracia.

Agora, sei que muitas pessoas nesta sala e ao redor do mundo irão pensar: "Bem, na verdade, isso é difícil de compreender", pois o capitalismo e a democracia liberal são tratados como algo divino. Mas eu pergunto a vocês hoje: o que fariam se tivessem que escolher? Se tivessem que escolher entre um teto sobre sua cabeça ou o direito de votar?

Nos últimos 10 anos, eu tive o privilégio de viajar por mais de 60 países, muitos deles nos mercados emergentes, na América Latina, na Ásia, e no meu próprio continente, a África. Eu me encontrei com presidentes, dissidentes, políticos, advogados, professores, doutores e pessoas nas ruas, e durante essas conversas, ficou claro para mim que muitas pessoas nos mercados emergentes acreditam que realmente há uma divisão acontecendo entre o que as pessoas acreditam ideologicamente, em termos de política e economia no Ocidente, e o que as pessoas acreditam no restante do mundo.

Agora, não me entendam mal. Não estou dizendo que as pessoas que moram nos mercados emergentes não entendem a democracia, nem estou dizendo que elas não gostariam de escolher seus presidentes e líderes. Claro que gostariam. No entanto, estou dizendo que, em suma, eles se preocupam mais com a melhoria da sua condição de vida e como seus governantes conseguirão isto, do que escolher ou não seus governantes através de democracia.

O ponto principal é que isto se tornou uma questão preocupante, pois é a primeira vez, em muito tempo, que surge um desafio real para os sistemas ideológicos ocidentais de política e de economia, e este é um sistema encarnado pela China. Ao invés de terem um capitalismo corporativo, eles têm um capitalismo estatal. Ao invés de democracia liberal, eles reduziram a prioridade do sistema democrático. E eles também resolveram priorizar direitos econômicos sobre direitos políticos. E digo a você hoje que este sistema encarnado pela China é que está ganhando força entre as pessoas nos mercados emergentes como um sistema a ser seguido, porque eles acreditam cada vez mais que este sistema promete obter os melhores e mais rápidos avanços nos padrões de vida, no menor tempo. Se me permitem, gastarei algum tempo explicando primeiramente por que, do ponto de vista da economia, eles chegaram a esta crença.

Primeiramente, é o desempenho econômico da China nos últimos 30 anos. Ela foi capaz de produzir crescimento econômico recorde e retirar uma quantidade considerável de pessoas da pobreza, colocando especificamente um corte na pobreza, retirando mais de 300 milhões de pessoas da miséria. Não somente na economia, mas também nos padrões de vida. Podemos ver que, na China, 28% das pessoas tiveram acesso ao ensino médio. Hoje, está próximo de 82%. Então, em sua totalidade, os avanços econômicos foram bastante significativos.

Segundo, a China foi capaz de melhorar significativamente sua desigualdade de renda sem mudar sua estrutura política. Hoje, Estados Unidos e China são as duas maiores economias do mundo. Eles possuem sistemas políticos muito diferentes e sistemas econômicos diferentes, um com capitalismo privado e o outro com capitalismo estatal. De toda forma, estes dois países têm o mesmo Coeficiente de GINI, que é um índice do nível de distribuição de renda. Entretanto, o que é mais perturbador é que a distribuição de renda na China tem melhorado nos últimos tempos, enquanto nos Estados Unidos tem piorado.

Terceiro, as pessoas nos mercados emergentes observam o incrível e lendário crescimento de sua infraestrutura. Não se trata apenas da China construir estradas, portos e ferrovias dentro de suas próprias fronteiras. Ela foi capaz de construir 85 mil quilômetros de rodovias, ultrapassando os Estados Unidos. Mas, mesmo que você veja lugares como a África, a China foi capaz de ajudar a asfaltar a distância entre a Cidade do Cabo e o Cairo, o que corresponde a 14.500 quilômetros, ou 3 vezes a distância entre Nova Iorque e a Califórnia. Bem, isso é algo que as pessoas podem ver e apontar. Talvez não seja surpresa que numa pesquisa Pew, em 2007, quando entrevistados, africanos de 10 países disseram que eles acreditavam que os chineses estavam fazendo coisas incríveis para melhorar seus modos de vida, por uma ampla margem de 98%.
Finalmente, a China está provendo soluções inovadoras para velhos problemas sociais que o mundo enfrenta. Se você viajar para Mogadíscio, Cidade do México ou Mumbai, você verá que a infraestrutura e a logística precárias continuam sendo uma barreira para fazer chegar medicamentos e cuidados médicos nas áreas rurais. Contudo, através de uma rede de empresas do governo, os chineses puderam ir até estas áreas rurais, usando suas companhias para ajudar a distribuir as soluções para a saúde.

Xangai, grande metrópole chinesa, vista do alto

Xangai, grande metrópole chinesa, vista do alto

Senhoras e senhores, não é nenhuma surpresa que, em todo o mundo, as pessoas apontem para o que a China faz e digam: "Eu gosto disso. Eu quero isso. Quero poder fazer o que a China está fazendo. Este é o sistema que parece funcionar." Estou aqui também para dizer a vocês que muitas mudanças estão acontecendo em torno do que a China esta fazendo na postura democrática. Em particular, há uma crescente dúvida entre as pessoas nos mercados emergentes, quando as pessoas agora acreditam que a democracia não é mais para ser vista como um pré-requisito para o crescimento econômico. De fato, países como Taiwan, Singapura e Chile, e não só a China, mostraram que, na verdade, o crescimento econômico é um pré-requisito para a democracia. Em um estudo recente, as evidências mostraram que a renda das pessoas é o item mais determinante do quanto a democracia pode durar. O estudo evidenciou que, se sua renda per capita estiver em torno de mil dólares por ano, sua democracia irá durar 8 anos e meio. Se sua renda per capita estiver entre 2 mil e 4 mil dólares por ano, então, você conseguirá ter 33 anos de democracia. Mas somente se sua renda per capita estiver acima de 6 mil dólares por ano você terá a democracia por um longo tempo.

O que isto nos diz é que precisamos primeiramente estabelecer uma classe média que seja capaz de fazer o governo prestar contas. Mas, talvez isto também nos diga que devemos nos preocupar sobre sair pelo mundo defendendo a democracia, porque fundamentalmente, corremos o risco de acabar ficando com democracias não liberais,democracias que, de algum modo, podem ser piores do que governos autoritários que elas procuram substituir.

As evidências em torno de democracias autoritárias são muito deprimentes. A Casa da Liberdade acredita que, embora 50% dos países hoje sejam democráticos, 70% desses países são autoritários, no sentido de que as pessoas não gozam de liberdade de expressão, ou liberdade para ir e vir. Mas também vimos, por meio da Casa da Liberdade, num estudo publicado no ano passado, que a liberdade tem decrescido todos os anos, nos últimos 7 anos.

O que isto diz é que pessoas como eu, que se preocupam com a democracia liberal, têm que achar uma forma mais sustentável de garantir que tenhamos uma forma sustentável de democracia de cunho liberal, e isto possui suas raízes na economia. Mas também diz que, conforme a China caminha rumo a ser a maior economia do mundo, algo que os especialistas esperam que aconteça em 2016, que o antagonismo entre as ideologias política e econômica do ocidente e do resto do mundo tende a se ampliar.

Como ficará o mundo? Bom, o mundo poderá ter mais envolvimento estatal e capitalismo estatal, grandes protecionismos dos Estados-nação, mas também, como eu disse momentos atrás, um grande declínio dos direitos políticos e dos direitos individuais.

A questão que nos fica em geral é: o que o Ocidente deve fazer? E eu sugiro que o Ocidente tem duas opções. O Ocidente pode competir ou cooperar. Se o Ocidente resolver competir com o modelo chinês, e efetivamente percorrer o mundo e continuar a tentar forçar uma agenda de capitalismo privado e democracia liberal, isto será basicamente lutar contra o vento, mas seria uma posição natural a ser tomada pelo Ocidente, porque, de várias formas, ele é uma antítese do modelo chinês de não priorizar a democracia e priorizar o capitalismo estatal. Agora, o importante é que, se o Ocidente decidir competir, será criado um antagonismo ainda maior. A outra opção do ocidente é cooperar, e esta cooperação significa dar aos mercados emergentes a flexibilidade de pensar, de forma construtiva, qual sistema político e econômico é o mais adequado para eles.

Agora, tenho certeza de que alguns nesta sala estarão pensando: "Bem, isto é como render-se à China, e este é um caminho, em outras palavras, para o Ocidente ficar em segundo plano". Mas eu lhes digo que se os Estados Unidos e os países europeus quiserem preservar sua influência mundial, talvez tenham que considerar a cooperação em curto prazo para poder competir, e, através disso, eles devem focar mais agressivamente em resultados econômicos, para ajudar a criar uma classe média e, portanto, ser capaz de fazer o governo prestar contas e criar as democracias que realmente desejamos.

O fato mais importante é que, ao invés de sair pelo mundo e censurar os países por se aproximarem da China, o Ocidente deveria incentivar seus próprios negócios a comerciar e investir nessas regiões. Ao invés de criticar a China pelo seu mau comportamento, o Ocidente deveria estar mostrando que seu sistema de política e de economia é superior. E, ao invés de forçar a democracia pelo mundo, talvez o Ocidente devesse reler uma página da própria história e lembrar-se de que é necessária muita paciência para desenvolver os modelos e sistemas que hoje existem. De fato, Stephen Breyer, da Suprema Corte de Justiça americana nos lembra que os Estados Unidos levaram aproximadamente 170 anos, desde que sua Constituição foi escrita, para que houvesse direitos iguais nos Estados Unidos. Alguns argumentam que ainda não existem direitos iguais. De fato, existem grupos que reclamam ainda não terem direitos iguais garantidos por lei.

Na melhor das hipóteses, o modelo ocidental fala por si só. É o modelo que coloca comida na mesa. São os refrigeradores. Levou o homem à Lua. Mas o ponto mais importante é que, embora no passado as pessoas costumassem olhar para o Ocidente e dizer: "Eu quero isso, eu gosto disso", agora existe uma nova pessoa na área, em forma de país, a China. Hoje, gerações estão observando a China e dizendo: "A China pode criar infraestrutura, a China pode gerar crescimento econômico, e nós gostamos disso".

Pois, essencialmente, a questão diante de nós, e a questão perante 7 bilhões de pessoas no planeta é: como podemos criar prosperidade? As pessoas vão se importar e vão se engajar no modelo de política e de economia de uma forma muito racional, naqueles modelos que garantam que eles terão um melhor padrão de vida no mais curto período de tempo.

Quando vocês saírem daqui hoje, eu gostaria de deixá-los com uma mensagem muito pessoal, que é aquilo que eu acredito que deveríamos praticar como indivíduos, e que trata-se realmente de termos a mente aberta, mente aberta para o fato de que nossas esperanças e sonhos de criar prosperidade para as pessoas do mundo, reduzir de forma significativa a linha de pobreza para milhões de pessoas, precisa se apoiar em ter a mente aberta, pois estes sistemas têm coisas boas e também coisas ruins.

Somente para ilustrar, eu voltei às profundezas do meu passado. Esta é uma foto minha.
Ohhh. (risos)

Eu nasci e fui criada na Zâmbia, em 1969. Quando nasci, os negros não possuíam certidão de nascimento, e essa lei somente mudou em 1973. Esta é uma declaração do governo da Zâmbia. Eu trouxe isso para dizer a vocês que, em 40 anos, eu evoluí da condição de não ser reconhecida como um ser humano para estar diante desta ilustre plateia do TED hoje para falar das minhas opiniões. Neste caminho, podemos aumentar o crescimento econômico. Podemos diminuir nossa linha de pobreza. Mas também, é necessário que examinemos nossas suposições e as restrições com as quais fomos criados acerca da democracia, acerca do capitalismo, acerca do que cria crescimento econômico e diminui a pobreza e cria liberdade. Precisamos rasgar esses livros e começar a analisar outras opções e termos a mente aberta para buscar a verdade. Em última análise, trata-se de transformar o mundo e fazer dele um lugar melhor. Muito obrigada.

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