BRB sustentou crise do Banco Master com aportes desde 2024, mostram mensagens
Diálogos revelam pedidos urgentes de recursos e indicam agravamento da situação financeira do banco ao longo de meses
247 - Diálogos inéditos extraídos do celular do banqueiro Daniel Vorcaro revelam que o Banco Master recorreu a sucessivos aportes do Banco de Brasília (BRB) desde pelo menos agosto de 2024 para enfrentar uma crescente crise de liquidez. As informações foram divulgadas pelo jornal O Estado de S. Paulo e mostram que a dependência financeira da instituição privada antecede em meses o anúncio oficial de aquisição parcial pelo banco estatal, ocorrido em março de 2025.
As mensagens, obtidas com exclusividade pelo Estadão, indicam que o BRB já atuava como suporte financeiro para evitar o colapso do Banco Master ainda em meados de 2024. Os aportes eram viabilizados principalmente por meio da cessão de carteiras de crédito consignado, cédulas de crédito bancário e outros instrumentos financeiros.
Em diversas conversas, Vorcaro destaca a urgência na liberação dos recursos. Em uma delas, datada de 2 de setembro de 2024, ele escreve: “Tem notícia do BRB? Se não vier vou ter que devolver a grana de sexta e vamos usar compulsório hoje”. A mensagem foi enviada a Augusto Lima, então sócio do banco, que respondeu que verificaria a situação.
No dia seguinte, o banqueiro voltou a cobrar uma definição: “Irmão, preciso saber se eles vão fazer ou não. Já tem 15 dias esse negócio do ccb (Cédula de Crédito Bancário). Se for agarrar e não sair agora preciso saber, depois te explico”. Em resposta, Lima afirmou: “Falei agora de novo. Estão dizendo que fazem até quinta”.
Os registros mostram que, a partir de julho de 2024, o Banco Master passou a negociar carteiras de crédito com o BRB. Em 31 de agosto, Vorcaro demonstrou preocupação com a possibilidade de atraso em um dos aportes: “Fala irmão. Tá sabendo que deu merda no BRB? Não liquidou e parece que não vai”. Lima respondeu: “Iria ser liquidado ontem os 400 [milhões]”.
Com o passar dos meses, as mensagens indicam um agravamento da situação financeira do banco. Em dezembro de 2024, Vorcaro menciona a necessidade de reforço significativo no caixa: “Precisamos por uns 600 mm [milhões] no caixa. Pra resolver tudo nosso”. Lima respondeu: “Essa semana entra”.
Já em janeiro de 2025, a pressão por novos recursos se intensificou. O banqueiro solicitou a criação de novas carteiras de crédito consignado para repasse ao BRB, mas enfrentou resistência. “Estamos precisando da carteira com urgência. BRB no saldo não selecionou a carteira”, escreveu. Lima respondeu: “A carteira é boa. O problema é que ele só quer a premium”.
Segundo as investigações, até o fim de 2024 as carteiras cedidas possuíam lastro real. No entanto, posteriormente, o Banco Master teria passado a estruturar carteiras sem respaldo, com o objetivo de viabilizar novos aportes. A partir de 2025, surgem operações envolvendo a empresa Tirreno, apontada como uma entidade de fachada criada para simular transações e permitir a entrada de recursos no banco.
Antes mesmo do anúncio da aquisição parcial pelo BRB, o Banco Master já havia transferido R$ 4,6 bilhões ao banco estatal por meio de 20 contratos firmados entre janeiro e março de 2025. Os valores foram distribuídos em seis contratos em janeiro (R$ 1,66 bilhão), seis em fevereiro (R$ 1,82 bilhão) e oito em março (R$ 1,12 bilhão).
A operação de compra de participação no Banco Master pelo BRB, estimada em R$ 2 bilhões, acabou sendo barrada pelo Banco Central em setembro de 2025. As investigações apontam que as chamadas carteiras problemáticas negociadas com o banco estatal somaram R$ 12,2 bilhões.
As apurações das autoridades indicam que o Banco Master teria realizado fraudes bilionárias, desviando recursos por meio de uma estrutura complexa que envolvia fundos de investimento e operações simuladas. O caso culminou na liquidação da instituição em novembro de 2025 e na prisão de envolvidos, incluindo o ex-presidente do BRB, sob suspeita de irregularidades relacionadas ao esquema.


