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Áudio revela que policial negociava drogas com facção na Paraíba

Investigação da Polícia Civil e do Gaeco aponta desvio de drogas, movimentação de R$ 10 milhões e participação de agentes públicos em esquema criminoso

Áudio revela que policial negociava drogas com facção na Paraíba (Foto: Reprodução/TV Globo )
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247 - Um áudio obtido durante as investigações da Operação Perfídus revela detalhes de uma suposta negociação de drogas envolvendo policiais civis e integrantes de uma organização criminosa na Paraíba. As gravações fazem parte de uma apuração que resultou na prisão de agentes da Polícia Civil e de suspeitos ligados ao tráfico de drogas. As informações foram divulgadas pelo G1 Paraíba.

Segundo a reportagem, um dos diálogos interceptados mostra o investigador Everton Rychelyson da Silva Aires, conhecido como "Bomba", orientando João Wicttor Alves de Lima, o "Vitor", sobre a comercialização de uma quantidade de loló que estaria armazenada pelo grupo. A conversa integra o conjunto de mais de 40 mil áudios analisados ao longo das investigações.

No trecho divulgado, Everton pede que o comparsa verifique a quantidade do entorpecente disponível e registre imagens para facilitar a venda. Ele afirma ainda que pretendia utilizar um contato com acesso a uma linha telefônica dentro de um presídio para tentar negociar a droga. “Victor, quando tu estiver em casa, vê mais ou menos quantos litros de loló tem lá, faz uma mídiazinha, um vídeo do Bujão, tal, pra mostrar o loló, que eu vou mandar pro menino aqui, porque ele tá com uma linha no presídio, pra ver se a gente consegue vender esse loló”.

Investigação aponta divisão de lucros

Ainda na gravação, Everton afirma que os recursos obtidos com a venda seriam divididos entre cinco pessoas. Entre os citados por ele estariam o delegado Braz Morroni e o investigador Eduardo Jorge Ferreira do Egito, conhecido como "Mão Branca".

“Eu disse que, se ele vendesse, a gente dividia pra cinco. O que tiver aí, a gente divide entre eu, tu, mão branca, o delegado e ele”, declarou Everton na conversa interceptada.

As investigações foram conduzidas pela Polícia Civil da Paraíba em parceria com o Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (Gaeco). Segundo os responsáveis pela operação, o trabalho teve duração superior a um ano e buscou identificar a atuação de agentes públicos suspeitos de colaborar com o fortalecimento de facções criminosas no estado.

Operação teve início após denúncia

De acordo com a Polícia Civil, a apuração começou em fevereiro de 2025 após a denúncia de um traficante que afirmou que drogas apreendidas estariam sendo desviadas por integrantes da corporação. A partir desse relato, investigadores passaram a reunir provas sobre o suposto esquema.

Segundo as autoridades, os elementos coletados indicam que a organização criminosa investigada teria movimentado aproximadamente R$ 10 milhões ao longo de quatro anos por meio da comercialização de entorpecentes desviados.

Durante a operação, a Justiça expediu nove mandados de prisão. Oito deles foram cumpridos. Também foram executados 24 mandados de busca e apreensão e determinado o bloqueio de cerca de R$ 10 milhões em bens e ativos financeiros dos investigados.

Delegado é apontado como beneficiário do esquema

Entre os presos está o delegado Braz Morroni, titular da Delegacia de Crimes Contra o Patrimônio (DCCPAT). Conforme a decisão judicial, ele teria participação ativa na estrutura investigada e seria beneficiário direto dos lucros obtidos com a venda de drogas desviadas.

O documento afirma que o delegado recebia repasses financeiros oriundos das negociações realizadas pelos investigadores, cobrava rapidez na recuperação de valores referentes a vendas realizadas a prazo e utilizava sua posição hierárquica para garantir proteção institucional ao grupo.

A decisão também menciona transferências bancárias realizadas por Everton Aires para contas vinculadas ao delegado, além de conversas interceptadas que apontariam a reserva de parte dos lucros das negociações para Braz Morroni. Há ainda referência ao suposto recebimento presencial de recursos provenientes do tráfico em dezembro de 2025.

Prisão e defesa de Braz Morroni

Com base nos indícios apresentados pela investigação, a Justiça determinou a prisão temporária do delegado, seu afastamento das funções, o bloqueio de bens e a suspensão do porte de armas.

Após audiência de custódia, a prisão temporária foi mantida. Braz Morroni foi encaminhado ao Presídio Especial do Valentina, em João Pessoa.

Em nota divulgada à imprensa, a defesa do delegado afirmou que “é preciso rassaltar o direito constitucional à presunção de inocência” e informou que “irá analisar os autos visando a adoção das medidas pertinentes para restaurar a liberdade do delegado”. Os advogados também declararam que, “no momento oportuno, irá provar sua inocência”.

Investigadores são apontados como operadores

O investigador Everton Rychelyson da Silva Aires é apontado pela Justiça como um dos principais operadores do esquema. Segundo a decisão, ele atuaria como elo entre policiais e traficantes, sendo responsável pela guarda de drogas desviadas, negociação de carregamentos, organização da contabilidade clandestina e orientação sobre mecanismos de lavagem de dinheiro.

Outro policial citado é Eduardo Jorge Ferreira do Egito, o "Mão Branca". Conforme os autos, ele teria participação direta em desvios de drogas, monitoramento de carregamentos de facções criminosas, manipulação de rastreadores instalados em veículos e armazenamento de entorpecentes em sua residência.

Assim como o delegado, os dois investigadores tiveram as prisões temporárias mantidas pela Justiça e foram encaminhados ao Presídio Especial do Valentina.

Quem são os demais investigados

A investigação também aponta João Wicttor Alves de Lima, o "Vitor", como responsável por armazenar, refinar e comercializar drogas fornecidas pelos policiais, além de realizar transferências financeiras para integrantes do grupo.

Brendo Roberth Fernandes Sobral, conhecido como "Breno", seria subordinado de João Wicttor e atuaria na guarda, refino e distribuição dos entorpecentes. Já Paulo Ricardo Barbosa de Souza, o "Galinha", é apontado como informante dos policiais e distribuidor de drogas, repassando informações sobre depósitos de facções rivais em troca de parte das cargas desviadas.

Também aparecem nas investigações José Alexandrino de Lira Júnior, o "Júnior Lira", apontado como responsável pela distribuição de grandes carregamentos de drogas entre a Paraíba e o Rio Grande do Norte, e Vanessa Dantas Fernandes, identificada pela Justiça como tesoureira da organização criminosa.

Como funcionaria o esquema

Segundo os investigadores, traficantes ligados ao grupo informavam aos policiais a localização de drogas pertencentes a facções rivais. Os agentes realizavam a apreensão do material, mas parte da carga não era encaminhada aos procedimentos oficiais.

O delegado Rafael Bianchi explicou a dinâmica identificada durante a apuração. “Traficantes de confiança dos policiais informavam onde havia essa droga armazenada. Os policiais iam até o local, realizavam a subtração e repassavam essa droga para esses traficantes de confiança, que são todos da mesma organização criminosa”.

O delegado André Rabello afirmou que as investigações revelaram ainda desvios de drogas que deveriam ser destruídas. “A gente se debruçou e se deparou com essa realidade, com nove alvos, nove traficantes, incluindo três policiais, retirando do meio criminoso entorpecentes e, em vez da entrada na polícia, voltando para outras organizações criminosas. E o que dava entrada na delegacia, quando ia ser incinerado, também havia o desfalque lá naquele momento de incinerar.”

Facção criminosa e alcance da investigação

A Polícia Civil afirma que a operação também tem como objetivo combater a expansão do Comando Vermelho na Paraíba. Durante a apresentação dos resultados da investigação, autoridades destacaram a gravidade da participação de agentes públicos em esquemas ligados ao tráfico.

“Mais de um ano de investigação, mais de 40 mil áudios analisados pela Polícia Civil e Gaeco. A gente tá combatendo a chegada do Comando Vermelho no nosso estado e agentes de segurança pública associados com traficantes alimentam essa facção para que possam retornar as drogas para as ruas. É uma gravidade importante de considerar”, afirmou uma das autoridades responsáveis pela operação.

Entre os alvos da investigação está ainda Dankennedy Vieira Brito da Silva, conhecido como "Babau", integrante da facção Nova Okaida. Segundo os investigadores, ele teria sido uma das vítimas do desvio de drogas praticado pelos policiais e foi responsável pela divulgação de imagens que contribuíram para o início das apurações. Ele foi o único alvo de mandado de prisão que não havia sido localizado até a divulgação das informações.