Discurso de ódio contra nordestinos disparou nas redes durante a eleição de 2022
Estudo acadêmico identifica aumento de 821% em mensagens xenofóbicas online e aponta relação direta com o período eleitoral
247 - A intensificação do discurso de ódio contra nordestinos nas redes sociais marcou a campanha presidencial de 2022 no Brasil. Uma pesquisa acadêmica revela que manifestações xenofóbicas direcionadas à população do Nordeste cresceram de forma exponencial ao longo do processo eleitoral, acompanhando a radicalização do debate político no ambiente digital.
O levantamento foi divulgado pela Folha de São Paulo e teve como base um estudo conduzido pelo grupo Interfaces, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). A pesquisa analisou, com o apoio de métodos computacionais, 282 milhões de postagens publicadas no Twitter — atual X — entre julho e dezembro de 2022, identificando um aumento de 821% no uso de linguagem preconceituosa associada a nordestinos durante o período.
De acordo com o estudo, à medida que a eleição se aproximava, termos pejorativos passaram a surgir com mais frequência vinculados à palavra “nordestino”. Em outubro, mês em que ocorreram os dois turnos da disputa presidencial, o volume de publicações que mencionavam o Nordeste chegou a triplicar em comparação aos meses anteriores, evidenciando um pico de hostilidade online.
A pesquisa contou com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e foi publicada na revista científica GEMInIS. Para identificar padrões de discurso de ódio que não são facilmente perceptíveis a olho nu, os pesquisadores recorreram a técnicas avançadas de processamento de linguagem natural (PLN), área da inteligência artificial voltada à análise de grandes volumes de texto.
Ao todo, foram utilizadas quatro abordagens computacionais complementares, com destaque para o algoritmo Word2Vec, que mede a proximidade semântica entre palavras. “Esse algoritmo classifica uma associação entre dois termos de 0% [nenhuma associação] a 100% [significado semântico igual]”, explicaram os autores do artigo. Segundo os pesquisadores, a ferramenta permite mapear padrões recorrentes sem emitir qualquer juízo de valor sobre o conteúdo analisado.
Os resultados mostram uma evolução clara ao longo do tempo. Em julho de 2022, predominavam associações neutras ou geográficas, como “sertão”, “interior” e nomes de estados. Em setembro, a palavra “pobre” passou a ter maior proximidade com “nordestino”, saltando de 57% para 67%. Já em outubro, surgiram pela primeira vez termos abertamente ofensivos, como “ingrato”, com 64% de associação, e “analfabeto”, com 59%.
Um aspecto destacado pelos autores é que essas palavras não foram definidas previamente na metodologia. Elas emergiram espontaneamente da análise dos dados. “Isso é uma evidência de que os textos coletados sob as condições dessa pesquisa contêm sentenças que associam nordestinos e o Nordeste brasileiro às ideias associadas com tais palavras-chave”, afirmaram os cientistas.
Os achados dialogam com dados da ONG SaferNet, que atua em parceria com o Ministério Público Federal. Segundo a entidade, 2022 foi o terceiro ano eleitoral consecutivo com crescimento expressivo de crimes de ódio na internet. Além da xenofobia, que liderou o ranking com alta de 821%, também houve avanço significativo de casos de intolerância religiosa, com aumento de 522%, e de misoginia, que cresceu 184%.
Para os pesquisadores da UFSCar, o fenômeno não é novo. “O preconceito regional no Brasil, especificamente contra o nordestino, se constitui em uma forma de xenofobia moderna”, observaram. Eles apontam que esse tipo de discurso se apoia em estereótipos históricos que remontam ao final do século 19, associados a fatores climáticos, econômicos e aos fluxos migratórios internos.
Do ponto de vista jurídico, o estudo indica que a aplicação da Lei 7.716/1989, conhecida como Lei Antirracismo, ainda é limitada quando se trata de casos de xenofobia regional. Os autores avaliam que os dados quantitativos reunidos podem contribuir para o debate sobre a regulação das plataformas digitais e o fortalecimento das políticas de moderação de conteúdo.
Segundo os pesquisadores, as próprias plataformas já dispõem de tecnologias capazes de identificar conteúdos problemáticos, semelhantes às usadas para detectar violações de direitos autorais. A efetiva utilização desses recursos para enfrentar discursos de ódio, no entanto, depende de escolhas corporativas e de marcos regulatórios mais claros.


