HOME > Sudeste

Morte em rope jump: homens que lançaram jovem em ponte alegam não entender o que ocorreu e seguem detidos

Três responsáveis pelos saltos foram presos e indiciados por homicídio doloso, quando há intenção ou quando se assume o risco de matar

Maria Eduarda Rodrigues de Freitas (Foto: Reprodução/Instagram)
Selo Fonte Preferida no Google do Brasil 247

247 - A morte de Maria Eduarda Rodrigues de Freitas, de 21 anos, durante um salto de rope jump em Limeira, no interior de São Paulo, expôs uma sequência de falhas em procedimentos de segurança que, segundo os próprios suspeitos presos, eram conhecidos pelo grupo responsável pela atividade. A jovem foi lançada de uma altura de cerca de 30 metros, na Ponte do Esqueleto, sem que a corda de proteção estivesse presa ao corpo.

As informações são do Metrópoles. Três responsáveis pelos saltos foram presos e indiciados por homicídio doloso, quando há intenção ou quando se assume o risco de matar. São eles Maicon Fernandes Cintra, de 42 anos, Vitor de Freitas Gonçalves, de 27, e Luis Felipe Feliciano Egoroff, de 32.

Maria Eduarda morreu no sábado, 13 de junho, após cair da ponte durante a prática esportiva. De acordo com o relato apresentado à Polícia Civil, ela foi arremessada sem o equipamento essencial de segurança. A situação levou a Justiça a manter os suspeitos presos após audiência de custódia realizada no domingo, 14 de junho.

Na decisão, o juiz Paulo Henrique Stahlberg Natal afirmou que os investigados atuavam de forma conjunta em uma atividade de alto risco, mas sem cumprir protocolos básicos de segurança. Para o magistrado, as imagens anexadas ao processo demonstram de maneira clara que Maria Eduarda foi lançada “sem qualquer proteção”.

Os depoimentos prestados à Polícia Civil mostram que os suspeitos tentaram tratar a morte como um episódio inesperado. Ao mesmo tempo, as falas indicam que o salto fatal passou por várias etapas em que a ausência da corda poderia ter sido percebida antes do arremesso.

“Foi uma fatalidade mesmo. A gente não consegue entender o que aconteceu”, afirmou Luis Felipe à polícia.

Segundo Luis Felipe, o grupo já realizava saltos de rope jump havia alguns meses na Ponte do Esqueleto. Ele relatou que havia entre 80 e 90 saltos previstos naquele dia. Cada participante pagava R$ 180 pela atividade, e a filmagem com câmera 360 custava mais R$ 110.

Questionado sobre a divisão de tarefas entre os integrantes, Luis Felipe não apontou um responsável final pela instalação da corda. Ele disse que a colocação e a conferência do equipamento variavam entre os participantes da operação. “Às vezes, um faz, o outro vem, vê se tá certo. Era mais ou menos isso”, declarou.

A delegada Andrea Dantas Levy perguntou se ele se lembrava se era sua função colocar a corda ou fazer a fiscalização. Luis Felipe respondeu que “não lembrava”.

Em outro momento do interrogatório, a delegada destacou que, pelas imagens, era muito visível que Maria Eduarda não estava com a corda presa ao peito. O suspeito afirmou que havia treinamento para esse tipo de procedimento, mas não soube explicar a falha. “É tudo estranho, né? A gente treina”, disse.

Maicon Fernandes Cintra também confirmou à polícia que havia um procedimento conhecido para a realização dos saltos. Segundo ele, a corda deveria ser presa ao peitoral antes de a pessoa passar para a plataforma de lançamento. “É visível. É peito”, afirmou.

Ele declarou que, em alguns momentos, colocava a corda nos participantes e, em outros, Luis Felipe fazia essa etapa. Questionado sobre a existência de uma checagem posterior, Maicon respondeu que sim. Disse que conferia o equipamento, o capacete, o peitoral e as cordas. No caso de Maria Eduarda, porém, afirmou não se lembrar de ter feito essa verificação.

Maicon também disse que o sistema utilizado teria dois pontos de segurança e que a possibilidade de falha do equipamento era praticamente nula. A declaração reforça um dos pontos centrais da investigação: se o equipamento não apresentou defeito e a corda era visível, a queda não teria ocorrido por rompimento ou falha técnica, mas porque a jovem foi lançada sem que a etapa básica de conexão tivesse sido cumprida.

Na decisão que manteve as prisões, o juiz afirmou que os suspeitos “não adotaram as cautelas mínimas e indispensáveis” para uma atividade “intrinsecamente perigosa”. Segundo o magistrado, o procedimento padrão exigia que a corda fosse conectada ao peitoral da vítima antes do arremesso, com “dupla checagem pelos operadores”.

Vitor de Freitas Gonçalves, por sua vez, afirmou que estava em uma tenda, equipando outros participantes, quando foi chamado para ajudar no lançamento de Maria Eduarda. Nas imagens, ele aparece segurando os pés da jovem antes do arremesso.

À Polícia Civil, Vitor disse que não era o responsável pela colocação da corda naquele momento. Segundo ele, quando era chamado para ajudar a lançar alguém, presumia que tudo já estivesse correto. A delegada perguntou se ele verificou se a checagem havia sido feita. Vitor respondeu que “só tinha que levantar” a vítima e seguir o que estava fazendo.

Ele também confirmou que o procedimento de colocação da corda era feito antes de a pessoa entrar na plataforma. A fala se soma aos depoimentos de Luis Felipe e Maicon e indica que os três conheciam a etapa de segurança que falhou no salto fatal.

O juiz Paulo Henrique Stahlberg Natal também apontou a responsabilidade de Vitor na sequência que terminou com a morte de Maria Eduarda. Na decisão, afirmou que ele, “embora chamado apenas para auxiliar no arremesso, também não verificou a condição de segurança da vítima antes de participar do lançamento”.

Outro ponto analisado pela investigação envolve o alerta feito antes da queda. Em vídeos do caso, pessoas percebem que Maria Eduarda estava sem a corda. Luis Felipe afirmou ter visto alguém com uma filmagem dizendo algo sobre o equipamento, mas disse que havia aglomeração e muitas pessoas falando no local. Segundo ele, a advertência não foi assimilada, “não passou”.

Vitor afirmou que não ouviu o alerta. Ao ser questionado pela delegada se qualquer pessoa que escutasse teria entendido o aviso, ele respondeu que sim.

Os depoimentos evidenciam uma contradição em relação à versão de fatalidade apresentada pelos suspeitos. Eles disseram conhecer o protocolo de segurança, afirmaram que a corda deveria estar presa antes da chegada à plataforma, reconheceram que o peitoral era visível e admitiram que havia checagem. Mesmo assim, nenhum deles explicou por que Maria Eduarda foi lançada sem o equipamento que evitaria a queda livre.

Na decisão judicial, o magistrado destacou que a conduta foi classificada, neste primeiro momento, como homicídio doloso. Para ele, os elementos do caso indicam que os responsáveis não adotaram cautelas mínimas em uma atividade de risco. O juiz também ressaltou que o grupo explorava comercialmente os saltos, mas não demonstrou padrão adequado de gerenciamento de segurança.

“Colhe-se claramente pelos vídeos que não foram realizados protocolos básicos, como dupla checagem, validações cruzadas verbais em voz alta, instrução técnica ao usuário e saltador”, afirmou o juiz.

O magistrado também escreveu que o grupo não tinha “nenhum padrão ou protocolo de gerenciamento dos riscos da operação”. Segundo ele, ao deixar de conectar a corda de segurança e não realizar a checagem obrigatória antes do arremesso, os indiciados “assumiram o risco de que a vítima caísse em queda livre e viesse a óbito”.

Ao rejeitar a tese de que a morte tenha sido apenas um acidente, o juiz afirmou que o resultado fatal decorreu da concretização de um risco criado pela própria conduta dos suspeitos. “O resultado morte, que efetivamente ocorreu, não foi um mero acidente, mas a concretização do risco que eles voluntariamente criaram e aceitaram correr”, escreveu.

Artigos Relacionados