O filho da Palestina que o Paraná entrega ao Brasil
Ualid Rabah e a pré-candidatura que atravessa fronteira
Por Emir Mourad (*) - No dia 16 de maio de 2026, o presidente da Federação Árabe Palestina do Brasil (FEPAL), Ualid Rabah, sentou-se diante das câmeras da TV 247 e trouxe uma reflexão que ecoa muito além daquela entrevista: "O sionismo é uma ameaça real ao Brasil."[1] A frase, dita com a serenidade de quem já soma quatro décadas de militância, não era apenas uma denúncia geopolítica. Era o recado claro de que a causa palestina, tantas vezes vista como um tema distante na política brasileira, virou um eixo central na nossa própria luta por soberania, democracia e um mundo multipolar.
Em 2026, Ualid — nascido em Toledo, no interior do Paraná, e filho de palestinos de Arura e Kobar, na região de Ramallah — assume o desafio como pré-candidato a deputado federal pelo PT paranaense. Para quem olha de perto, essa candidatura carrega um peso que vai muito além de uma disputa eleitoral comum. É o ponto de encontro de uma história inteira de exílio, resistência e esperança que agora bate às portas do Congresso Nacional.
O menino de Toledo que cresceu respirando a Palestina
Ualid Rabah nasceu e cresceu no oeste do Paraná. Seus pais cruzaram o Atlântico trazendo na bagagem muito mais do que roupas e pertences: trouxeram a língua, a fé, o cheiro dos pratos típicos e a dor latente de uma terra ocupada. Sua mãe veio de Arura e seu pai de Kobar — dois povoados que hoje se veem sufocados pelas colônias israelenses na Cisjordânia ocupada.
Há uma lembrança que Ualid costuma partilhar e que traduz perfeitamente o afeto que guia seus passos. Com a voz embargada, ele recorda a marcação que o pai deixou na última página do Al-Corão que leu antes de partir. O grande sonho do velho era voltar à Palestina para viver seus últimos dias. E ele conseguiu: após 37 anos morando no Brasil, retornou à sua terra natal. Viveu lá por mais 37 dias antes de falecer. "Um dia para cada ano que passou longe de casa", conta Ualid.[2]
Essa trajetória mostra como o exílio se grava na história de uma família, provando que a distância não apaga a identidade. A caminhada de Ualid ganhou um contorno decisivo no início dos anos 1980. Em 15 de maio de 1983, foi fundado em São Paulo o movimento da juventude árabe-palestina "Sanaud", uma iniciativa que aglutinava jovens da comunidade palestina. A organização rapidamente se espalhou pelo Brasil, alcançando mais de 20 cidades. Em 1985 Ualid se integrou ao movimento. Essa imersão precoce consolidou seu caminho, permitindo-lhe afirmar com orgulho: “Em 1985 tomo parte do Primeiro Encontro Nacional da Juventude Árabe Palestino Brasileira em Foz do Iguaçu.”[2]
A caminhada de Ualid na militância começou cedo, ainda nos tempos de movimento estudantil, passou pelo PCB e se consolidou enquanto cursava em Direito pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Desde 2019, ele está à frente da FEPAL, a entidade que representa uma das maiores diásporas palestinas da América Latina, reunindo mais de 200 mil imigrantes, refugiados e descendentes.[3] Além disso, entre 2008 e 2016, atuou como conselheiro no Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPI), unindo de forma muito natural a pauta palestina à luta antirracista em solo brasileiro.[4]
Uma pré-candidatura que nasce como manifesto
A decisão de Ualid de concorrer a uma vaga na Câmara Federal não foi fruto de um mero cálculo político. O convite partiu de militantes históricos do próprio Partido dos Trabalhadores, que enxergou no líder da FEPAL uma combinação rara de diálogo com as bases, consistência intelectual e compromisso histórico.
A expectativa é que sua campanha ganhe muita força em Curitiba, onde mora atualmente, e em Maringá, cidade onde viveu por 15 anos, estudou e trabalhou como jornalista por mais de uma década. Mas a caminhada também se projeta muito forte em Londrina e Foz do Iguaçu — um polo tradicional de arabidade —, além de sua terra natal, Toledo, e de outros médios centros importantes do estado, como Ponta Grossa, Guarapuava e Cascavel.
Só que o projeto de Ualid ultrapassa as fronteiras do Paraná. É a primeira vez que um líder expressivo da comunidade palestino-brasileira disputa o Parlamento colocando a questão palestina no centro do debate. E não como uma pauta isolada ou identitária, mas como uma lente essencial para entender o que significa lutar por soberania e justiça social no século XXI.
Para ele, essas esferas são indissociáveis. Como costuma apontar o líder político: “Um grande debate que sempre me encantou é o debate sobre soberania nacional.”[6] Esse encantamento se traduz na sua visão de projeto para o país: "Defesa de um país, o Brasil soberano, desenvolvido, democrático, que capitaneie no mundo um grande processo civilizatório"[1], resumiu Rabah ao apresentar suas ideias.
O plano de atuação do pré-candidato passa por temas urgentes como a reindustrialização do país, a soberania tecnológica, o apoio firme às universidades públicas e a retomada de setores estratégicos — como os de fertilizantes, informática, transportes e pneus. Mas ele também traz para a mesa um debate que poucos têm coragem de encarar abertamente: a denúncia do sionismo como um risco real para a democracia brasileira e para os povos do Sul Global.
A força estratégica de uma voz palestina no Congresso
Por muito tempo, a rede de apoio à Palestina no Brasil dependeu do esforço voluntário de comitês populares, intelectuais, movimentos sociais e das próprias famílias de origem árabe. Era um trabalho de formiguinha, tocado com poucos recursos e enfrentando a barreira da grande mídia e de lobbies poderosos.
Mas o cenário mudou, e o próprio Ualid acompanha de perto essa transformação: "Eu nunca vi tantos comitês pró-Palestina quanto agora. Deve ter uns 200 no Brasil. O máximo que tivemos no passado foi uns 20, 30."[1] O debate deixou as margens e hoje pulsa nas universidades, nas redes, na mídia independente e nas manifestações de rua.
Ter alguém que viva essa realidade de perto dentro do Congresso Nacional vai muito além do simbolismo; é um passo estratégico. Um deputado federal com essa vivência tem a força necessária para:
- Articular o apoio político para manter e expandir o reconhecimento do Estado Palestino pelo governo brasileiro;
- Barrar propostas de lei que tentam criminalizar a solidariedade ao povo palestino sob a falsa justificativa de combate ao antissemitismo;
- Usar a tribuna para expor as violações diárias de direitos humanos na região;
- Colocar os direitos humanos no topo das prioridades da política externa do Brasil;
- Dar rosto e voz a comunidade palestina que sempre ajudou a construir o país, mas que raramente se viu representada nos espaços de poder.
Por que a presença de Ualid importa para o futuro do Brasil
Essa pré-candidatura não diz respeito apenas a quem defende a Palestina. Ela interessa diretamente ao futuro do Brasil, talvez muito mais do que parece à primeira vista. O país atravessa um momento decisivo sobre os rumos que deseja tomar. De um lado, há quem queira alinhar o Brasil a interesses de fora, inclusive naturalizando o sionismo como se fosse um "padrão civilizatório”. Do outro, há quem lute pela nossa autonomia, pela parceria com as nações do Sul Global e por uma sociedade justa e plural.
Ualid Rabah se encaixa justamente nessa segunda visão, trazendo uma bagagem rica e diversa: é advogado e empresário, filho de imigrantes, pensador e um homem de fé movido por causas universais. Seu trabalho anterior no CNPI provou que ele sabe conectar a realidade palestina às demandas do movimento negro e antirracista no Brasil — um laço que ainda está sendo construído, mas que tem tudo para renovar a tradição de solidariedade internacional por aqui.
"Somente enxergando a tragédia palestina como tal é que haverá evolução libertária para todos na Palestina", apontou Rabah em uma entrevista à CEBRI-Revista.[5] Essa mesma lógica cabe perfeitamente no nosso contexto: só quando entendermos a Palestina como um espelho das nossas próprias lutas — contra a opressão, o preconceito e a dependência estrangeira — é que o Brasil conseguirá se consolidar como uma nação de fato soberana.
De Toledo a Ramallah
Quando o eleitor paranaense estiver diante da urna escolhendo o número de Ualid Rabah, o gesto significará muito mais do que eleger um parlamentar. Será o reconhecimento do Paraná — um estado construído por tantas mãos imigrantes — à história e ao papel da comunidade palestina na nossa formação. Será uma forma de dizer que a busca pela liberdade na Palestina caminha lado a lado com a defesa da soberania do Brasil.
E, acima de tudo, será o ato de enviar ao Congresso a voz de alguém que guarda na memória do pai, e nas páginas de um livro sagrado, a certeza de que nenhum exílio é capaz de apagar a esperança. A candidatura de Ualid Rabah deixa claro que a Palestina não é um assunto distante ou restrito ao Oriente Médio. Ela está presente no interior do Paraná, nas salas de aula das universidades públicas, nas pautas antirracistas, nos almoços de família e nos valores passados de geração em geração. Desta vez, ela está batendo de frente com as portas do poder.
Referências
- [1] Brasil 247. Ualid Rabah afirma que "o sionismo é uma ameaça real ao Brasil". 17 maio 2026.
https://www.brasil247.com/entrevistas/ualid-rabah-afirma-que-o-sionismo-e-uma-ameaca-real-ao-brasil
- [2] Monitor do Oriente. Eu e o Brasil, sétimo episódio: memórias militantes e afetivas de Ualid Rabah, o filho de palestinos que tornou-se presidente da Fepal. 12 ago 2021.
- [3] FEPAL – Quem somos – Conheça nossa história
https://angelorigon.com.br/2026/01/15/ualid-disputara-camara-federal/
- [4] AYA Laboratório. AYA Indica – Ualid Rabah. 31 jul 2025.
https://ayalaboratorio.com/2025/07/31/aya-indica-ualid-rabah/
- [5] CEBRI-Revista. "Somente enxergando a tragédia palestina como tal é que haverá evolução libertária para todos na Palestina". Ano 3, nº 10, abr-jun 2024.
- [6] Diário do Centro do Mundo (DCM). Entrevista com Ualid Rabah. Transmissão ao vivo. Trecho a partir de 02:48:05 h.
https://www.youtube.com/live/-e_DufdACJw
* Emir Mourad é Secretário Geral da Confederação Palestina Latino-americana e do Caribe (COPLAC), ex-Secretário Geral da Federação Árabe Palestina do Brasil (FEPAL), ex-Conselheiro do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR).
