Ualid Rabah afirma que “o sionismo é uma ameaça real ao Brasil”
Presidente da Fepal diz à TV 247 que a causa palestina se tornou eixo central da luta por soberania, democracia e multipolaridade
247 – O presidente da Federação Árabe Palestina do Brasil (Fepal), Ualid Rabah, afirmou em entrevista à TV 247 que o sionismo representa não apenas uma ameaça ao povo palestino, mas também à soberania brasileira, à democracia e ao Sul Global.
Em conversa com Leonardo Attuch, no programa exibido em 16 de maio de 2026, Rabah analisou o genocídio em Gaza, a prisão do ativista Thiago Ávila por Israel, o papel dos Estados Unidos no Oriente Médio, a ofensiva contra o Irã e sua pré-candidatura a deputado federal pelo PT do Paraná.
Segundo Rabah, ações como a flotilha humanitária da qual participou Thiago Ávila têm enorme força simbólica e política. Para ele, a iniciativa “desnuda aquilo que verdadeiramente é o objetivo de Israel”: impedir a entrada de ajuda humanitária e evitar que ativistas internacionais testemunhem diretamente o que ocorre em Gaza.
"Por que impedir a entrada de ajuda humanitária da chegada de ativistas de direitos humanos e com ajuda portando ajuda humanitária ao território de Gaza? Porque de fato é plano israelense e estadunidense impedir que os palestinos tenham habitabilidade em Gaza", afirmou.
Rabah também destacou o papel da mídia independente brasileira, especialmente o 247, na denúncia do genocídio palestino. "O todo o complexo de comunicação 247 foi fundamental para cravar no Brasil que o que acontecia e acontece ainda em Gaza foi genocídio", disse.
“É impossível ser sionista e dizer-se de esquerda”
Um dos pontos centrais da entrevista foi a crítica de Rabah ao chamado “sionismo de esquerda”. Para ele, a expressão é uma contradição histórica e política.
"A julgar que ser de esquerda significa estar do lado mais humano e do progresso da humanidade, ou seja, ser de esquerda é estar do lado civilizacional, é impossível você ser sionista e dizer-se de esquerda", afirmou.
Rabah comparou o sionismo a outros sistemas de dominação, como apartheid, colonialismo e supremacismo. Segundo ele, a superação do conflito na Palestina passa pela abdicação do projeto sionista.
"Os problemas na Palestina só serão resolvidos quando os sionistas abdicarem do projeto sionista supremacista, que é de tomada da Palestina sem palestinos", disse.
Crítica ao projeto de Tábata Amaral
Rabah fez duras críticas ao projeto de lei da deputada federal Tábata Amaral sobre antissemitismo. Segundo ele, a proposta poderia criminalizar a solidariedade à Palestina e normalizar crimes como genocídio, apartheid e colonialismo.
"Criminalizar o movimento palestino, criminalizar a locução de solidariedade à Palestina, normalizar Israel como um regime que pode se realizar pelo genocídio, normalizar um regime de apartheid, normalizar o colonialismo", afirmou.
Para o presidente da Fepal, o projeto teria consequências profundas para a política externa brasileira e poderia constranger o apoio do Brasil à ação da África do Sul contra Israel na Corte Internacional de Justiça.
Sionismo, guerra híbrida e Brasil
Rabah também afirmou que a defesa de Israel por setores da direita brasileira está ligada a uma estratégia política interna. Ele citou Tarcísio de Freitas, Ronaldo Caiado e lideranças evangélicas como exemplos de atores alinhados ao sionismo.
Segundo ele, o uso de bandeiras de Israel em manifestações bolsonaristas revela uma captura ideológica e espiritual de parte da população brasileira.
"Eles estão primeiro sequestrados na sua espiritualidade e sempre estiveram sequestrados ideologicamente, porque existe uma hegemonia estadunidense no continente", disse.
Na avaliação de Rabah, o Brasil é alvo de guerra híbrida por ser o principal país do Sul Global no Ocidente e o único integrante ocidental dos BRICS. Para ele, a soberania brasileira é estratégica em um mundo marcado pela disputa entre Estados Unidos, China, Rússia, Irã e outras potências emergentes.
Irã, energia e multipolaridade
Ao comentar a ofensiva contra o Irã, Rabah afirmou que o país persa ocupa posição central na disputa geopolítica global. Ele destacou o peso do Estreito de Ormuz no fluxo de petróleo e gás para China, Índia, Japão e Coreia do Sul.
"Energia, o domínio dela hoje é mais importante que o domínio da comunicação. Dominar a energia hoje é dizer quem vai ser desenvolvido e quem não vai", afirmou.
Para Rabah, uma eventual vitória do Irã diante das pressões ocidentais representaria um marco no declínio da ordem imperial liderada pelos Estados Unidos.
"Do fim da ruína do império global ocidental. Ali é a fronteira", disse.
Pré-candidatura pelo PT do Paraná
Na parte final da entrevista, Rabah falou sobre sua pré-candidatura a deputado federal pelo PT do Paraná. Ele afirmou que sua plataforma será baseada na defesa da soberania nacional, da reindustrialização, da ciência, da tecnologia e do papel estratégico das universidades públicas.
"Defesa de um país, o Brasil soberano, desenvolvido, democrático, que capitaneie no mundo um grande processo civilizatório", declarou.
Ele também defendeu que o Brasil recupere cadeias produtivas estratégicas, como caminhões, tratores, fertilizantes, pneus, informática e tecnologia digital.
Trajetória política e causa palestina
Rabah relembrou sua trajetória no movimento estudantil, no antigo PCB e no PT, além de sua militância de mais de quatro décadas pela causa palestina no Brasil. Filho de palestinos da região de Ramallah, ele nasceu em Toledo, no Paraná, e hoje preside a Fepal.
Ao avaliar a mobilização brasileira contra o genocídio em Gaza, Rabah afirmou que, embora as manifestações de rua não tenham alcançado a escala de países europeus, a opinião pública brasileira rejeita majoritariamente os ataques contra palestinos e iranianos.
"Eu nunca vi tantos comitês pró-Palestina quanto agora. Deve ter uns 200 no Brasil. O máximo que tivemos no passado foi uns 20, 30", disse.
Para ele, a causa palestina deixou de ser marginal no debate público brasileiro e passou a ocupar espaço nas universidades, no Parlamento e na mídia independente.


