PF aponta mensagens e viagens como provas contra Bacellar
Relatório da Operação Unha e Carne detalha troca de mensagens, planilha de cargos, passagem aérea e jammer como indícios de vazamento de investigação
247 - Reportagem publicada pelo jornal O Globo detalha o conjunto de provas reunidas pela Polícia Federal (PF) no relatório que indiciou o deputado estadual Rodrigo Bacellar, presidente afastado da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), e outras quatro pessoas por vazamento de informações sigilosas. O documento foi encaminhado ao Supremo Tribunal Federal (STF) no âmbito da Operação Unha e Carne.
Segundo a PF, Bacellar exercia “a liderança do núcleo político” do Comando Vermelho (CV) e atuava na interlocução institucional do grupo. Em 188 páginas, o relatório afirma que o parlamentar “fornece a interlocução política necessária à blindagem das ações da horda”.
Mensagens interceptadas
Entre os elementos citados estão mensagens interceptadas que indicariam que Bacellar avisou o ex-deputado TH Jóias sobre uma operação policial na véspera de sua prisão. Conforme a investigação, após o alerta e sob orientação do deputado, o então alvo teria feito uma limpeza em casa e no celular. Um caminhão-baú estaria preparado para uma mudança às pressas.
Os investigadores recuperaram diálogos com orientações de fuga enviadas por Bacellar ao ex-deputado, que seria preso no dia seguinte.
O relatório também aponta mensagens do ex-governador Sérgio Cabral solicitando ajuda a Bacellar para interceder em um processo em tramitação no Tribunal de Justiça do Rio (TJ-RJ). Cabral queria que uma ação na qual é réu por improbidade administrativa fosse retirada da pauta de julgamentos. O processo posteriormente saiu de pauta, o que motivou uma mensagem de agradecimento: “Te amo, amigo”.
A PF ainda menciona uma “relação de intimidade” entre Bacellar e o desembargador Macário Judice, caracterizada por “palavras de afeto e troca de declarações efusivas de carinho, que denotam confiança e lealdade”. Em conversa de 4 de novembro de 2025, Bacellar escreveu: “Vc eu levo pro caixão meu irmão nunca duvide disso”, após o magistrado agradecer “pela confiança”. Em outro diálogo, o parlamentar afirmou: “Você é irmão de vida”. O desembargador também o chamava de “irmão” e, em determinado momento, declarou: “Te amo”.
Planilha de cargos
Outro documento apreendido no gabinete do deputado é uma planilha intitulada “PEDIDOS EM 12-04-23”. De acordo com a PF, o material funciona como um inventário detalhado dos cargos e espaços de comando já ocupados por deputados estaduais e de novos pleitos dentro da estrutura administrativa do governo do estado.
O relatório sustenta que “sob a administração de Rodrigo Bacellar, a Alerj potencializou sua influência na tomada de decisões inseridas no rol de prerrogativas do governador do Estado, como, por exemplo, a nomeação dos secretários da Fazenda, Assistência Social, Educação, Polícia Militar e, em certa ocasião, da Polícia Civil”.
Passagem e encontro em São Paulo
A investigação também cita a compra de passagem aérea do desembargador Macário Judice para São Paulo, onde ele se encontrou com o ex-presidente Michel Temer. Segundo a PF, a viagem teria sido uma “contramedida que visava impor empecilhos à persecução penal”.
Em 10 de dezembro de 2025, o magistrado embarcou em voo da GOL Linhas Aéreas, do Rio de Janeiro para São Paulo. A Polícia Federal afirma que ele tinha pressa em buscar o encontro por “esperança” de que Temer “intercederia a seu favor” para “frear” a investigação sobre o vazamento de informações. O objetivo seria tentar chegar ao ministro Alexandre de Moraes, relator do caso no STF.
Em diálogo interceptado com a esposa, o desembargador relatou o encontro: “Foi boa a conversa, muito educado, muito boa”.
Contramedidas e prisão
A PF afirma ainda que Bacellar adotou medidas para dificultar o rastreamento de deslocamentos e comunicações, como o uso de aparelhos não vinculados diretamente ao usuário, conhecidos como “celulares bomba”. Conforme o relatório, “tais dispositivos, por não estarem associados ao titular da linha ou por operarem em circuitos reduzidos, tendem a limitar a rastreabilidade de contatos, dificultar a obtenção de dados dos fluxos de comunicação, conteúdos presentes no aparelho e as reais interações mantidas pelo usuário”.
A investigação também identificou a utilização de um “jammer” no gabinete do deputado, equipamento destinado a bloquear sinais e impedir a captação de áudio ambiental.
Em dezembro, Bacellar foi preso por determinação do ministro Alexandre de Moraes, sob suspeita de envolvimento no vazamento de informações da ação que resultou na prisão de TH Jóias, em setembro. Na decisão, Moraes afirmou que a investigação demonstra que Bacellar é “primeiro contato da lista de comunicação urgente enviada pelo próprio ‘TH Jóias’, evidenciando a importância e a premente necessidade do investigado em se comunicar com o parlamentar”, a quem chama de “01”.
Em nota, o advogado Daniel Bialski, que representa Bacellar, declarou que “inexiste qualquer elemento probatório para pretender lhe imputar qualquer participação em ilicitude e ou vazamento; ao contrário, só há ilações desamparadas”. A defesa acrescentou que o indiciamento é “arbitrário e abusivo”

