PF relaciona soltura de Bacellar à distribuição de cargos no governo do RJ
Relatório enviado ao STF aponta planilha com pedidos de deputados e liga soltura de Rodrigo Bacellar à distribuição de espaços na máquina estadual
247 - A Polícia Federal identificou indícios de que a votação na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) que resultou na soltura do deputado estadual Rodrigo Bacellar estaria associada à distribuição de cargos e espaços de influência no governo do estado. O parlamentar, que presidia a Casa, foi indiciado no âmbito de investigações que apuram vazamento de informações sigilosas.As informações foram divulgadas pelo jornal O Globo e constam em relatório da PF encaminhado ao Supremo Tribunal Federal (STF).
O documento detalha a apreensão de uma planilha no gabinete de Bacellar que listaria pedidos feitos por deputados estaduais, relacionando cargos já ocupados e novas demandas dentro da estrutura administrativa fluminense.
Intitulada “PEDIDOS EM 12-04-23”, a planilha, segundo a PF, funcionaria como um inventário com a descrição do que cada parlamentar “possui” na máquina pública e os pleitos adicionais apresentados. Os registros estariam organizados por nomes, com especificações sobre órgãos, funções e áreas estratégicas de atuação.
De acordo com o relatório, “Sob administração de Rodrigo Bacellar a Alerj potencializou sua influência na tomada de decisões que estariam inseridas no rol de prerrogativas do Governador do Estado, como por exemplo, a nomeação dos Secretários da Fazenda, Assistência Social, Educação, Polícia Militar e, certa vez, Polícia Civil”. Para os investigadores, a distribuição de cargos e órgãos públicos estaria “diretamente correlacionada” à fidelidade política de deputados ao grupo que controlava a Alerj.
O levantamento da PF indica que 87,88% dos parlamentares mencionados na planilha votaram a favor da soltura de Bacellar em dezembro de 2025. Na ocasião, ele havia sido preso pela própria PF em outra etapa das apurações.
Entre os exemplos citados no relatório estão pedidos atribuídos a deputados como Arthur Monteiro, que teria solicitado o controle do Poupa Tempo em Duque de Caxias, além de postos no Detran e na Faetec; Carlinhos BNH, que, segundo o documento, teria pleiteado o comando de unidades do Detran em Queimados e posições na Fundação Leão XIII; Guilherme Delaroli, que requereu 15 cargos na Alerj e o controle do Detran e da Faetec em Itaboraí e Rio Bonito; e Rodrigo Amorim, que teria solicitado vagas no Detran da capital, na OSP e na Lei Seca, além de cargos para “compensar o Ceperj”.
Durante a mesma operação, agentes apreenderam um caderno pessoal de Bacellar. A PF classifica o material como um “organograma de sua futura administração”, com anotações manuscritas que indicariam nomes, cargos e setores que o deputado pretendia ocupar caso assumisse o governo estadual. Segundo os investigadores, o conteúdo sugeriria intenção de exercer controle sobre áreas como Polícia Civil, Polícia Militar, Secretaria de Administração Penitenciária (SEAP) e Saúde.
Indiciamento e investigação sobre vazamento
Bacellar e o ex-deputado Thiego Raimundo dos Santos Silva, conhecido como TH Jóias, foram indiciados sob suspeita de vazamento de informações à facção criminosa Comando Vermelho. Outras três pessoas também foram indiciadas.
Conforme a investigação, TH Jóias teria utilizado o mandato parlamentar para beneficiar o crime organizado. Ele é acusado de intermediar negociações envolvendo drogas, fuzis e equipamentos antidrones destinados ao Complexo do Alemão, além de indicar a esposa de Gabriel Dias de Oliveira, conhecido como Índio do Lixão, para um cargo na Alerj.
A prisão de Bacellar ocorreu em dezembro, por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do STF. Ele é suspeito de envolvimento no vazamento de dados sigilosos relacionados à ação que levou à prisão de TH Jóias, em setembro. A PF sustenta que o vazamento teria prejudicado a investigação conduzida na Operação Zargunq, que apontou ligações do ex-deputado com o Comando Vermelho.
A análise de mensagens trocadas entre Bacellar e TH Jóias é apresentada como um dos elementos que fundamentam a suspeita de vazamento. Em petição, Moraes afirmou que a investigação indica que Bacellar era o “primeiro contato da lista de comunicação urgente enviada pelo próprio ‘TH Jóias’, evidenciando a importância e a premente necessidade do investigado em se comunicar com o parlamentar” identificado como “01”.
Segundo o documento do STF, em mensagem na qual comunica a troca de número de telefone, Bacellar respondeu com uma figura indicando que “já tinha conhecimento de que haveria a troca”.
Bacellar foi detido na sede da PF após ser convocado para uma reunião com o superintendente. Também foram cumpridos mandados de busca e apreensão em quatro endereços ligados ao deputado — em Botafogo, Campos dos Goytacazes e Teresópolis — além de seu gabinete na Alerj.
TH Jóias também foi conduzido à sede da Polícia Federal. Ele permaneceu cerca de 1h20 no local e optou por não responder aos questionamentos dos investigadores.
Além de Bacellar e TH Jóias, foram indiciados Flávia Júdice Neto, ex-assessora da Alerj; Jéssica Oliveira Santos; e Tharcio Nascimento Salgado, apontados como ligados ao ex-deputado.
Em nota, o advogado Daniel Bialski, que representa Bacellar, afirmou que “inexiste qualquer elemento probatório para pretender lhe imputar qualquer participação em ilicitude e ou vazamento, ao contrário, só há ilações desamparadas”. A defesa sustenta ainda que o indiciamento é “arbitrário e abusivo”

