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Wi-fi gratuito de SP tem equipamentos sem sinalização e pontos que não existem

Programa de wi-fi da Prefeitura de SP é operado por ONG ligada a filme de Bolsonaro

Dark Horse e Karina Gama (Foto: Reprodução )
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247 - A execução do programa WiFi Livre da Prefeitura de São Paulo voltou ao centro das atenções após uma reportagem do g1 identificar falhas de sinalização, divergências em endereços informados e pontos de acesso que não foram encontrados nos locais indicados em documentos oficiais. O serviço é operado pelo Instituto Conhecer Brasil (ICB), organização contratada em 2024 pela administração municipal para ampliar a oferta de internet gratuita em áreas periféricas da capital.

Segundo reportagem publicada pelo g1, a ONG responsável pelo programa pertence à empresária Karina Ferreira da Gama, que também é proprietária da produtora responsável pelo filme "Dark Horse", obra que retrata a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. O contrato firmado entre a entidade e a Prefeitura de São Paulo também é alvo de investigações conduzidas pelo Ministério Público e pela Polícia Civil.

Durante visitas realizadas na última semana de maio, equipes do g1 e do telejornal SP2 percorreram diversos endereços listados na prestação de contas apresentada pelo ICB à prefeitura. Embora moradores tenham relatado que o serviço funciona em algumas localidades, a ausência de identificação visual dos equipamentos foi um dos problemas mais frequentes observados.

Falta de sinalização dificulta acesso ao serviço

Em um dos locais visitados, na Rua Manuel Martins Collaço, 250, no Jardim D'Abril, Zona Oeste da capital, um equipamento de wi-fi foi instalado antes das eleições municipais de 2024. O aparelho funciona normalmente, mas moradores e comerciantes da região afirmam que a falta de placas impede que a população saiba da existência do serviço.

O marceneiro Genival de Souza Ribeiro contou como ocorreu a instalação do equipamento em seu estabelecimento. "Chegou um cara em 2024 [antes da eleição] oferecendo para mim e para a marcenaria e acabei aceitando. Eu só tenho que manter ela [o equipamento] ligada 24 horas por dia. Era uma equipe de duas pessoas que diziam que estavam a serviço da prefeitura", afirmou.

Já William Souza Ribeiro, filho de Genival, destacou o desconhecimento da população local sobre a finalidade do aparelho. "O pessoal não sabe [que tem wi-fi gratuito aqui]. Eles às vezes passam e perguntam: 'Que trambolho que é esse aí?', porque não sabem o que é. Devia ter uma sinalização ali, porém, não tem. Muita gente não sabe e tem gente que pergunta se o aparelho é um chuveiro", disse.

Moradores relatam desconhecimento sobre pontos gratuitos

A poucos metros da marcenaria, funcionários e clientes de uma barbearia também afirmaram desconhecer a existência do serviço público de internet.

"Não faço a menor ideia [do que é aquele aparelho]. Para mim, era qualquer coisa, menos sinal de wi-fi. Agora que sei o que é, vou usar sempre", declarou o barbeiro Bruno da Silva.

O cliente Carlos Eduardo reforçou a importância da sinalização adequada. "Eu tenho um pacote bom [de serviço de internet no celular], mas vai que você necessita de uma internet grátis? Por isso precisa de uma sinalização. Se tivesse essa sinalização, ia me ajudar muito. Quantas vezes já pedi Uber daqui, direto para o trabalho", afirmou.

Enquanto alguns pontos visitados apresentavam ausência de identificação, outros locais, como a Rua Rocha, na Bela Vista, e a Praça Nossa Senhora Aparecida, em Moema, contavam com sinalização adequada informando a existência do serviço.

Equipamentos próximos levantam dúvidas

Outra situação observada pela reportagem ocorreu na Praça Tomás Coelho de Almeida, também no Jardim D'Abril. No local, diversos equipamentos estavam instalados a menos de 15 metros uns dos outros.

A descrição do serviço no portal do ICB informa que cada ponto possui cobertura média de 200 metros e capacidade para até 150 conexões simultâneas. Questionada sobre a proximidade entre os aparelhos, a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia (SMIT) afirmou que a configuração foi necessária para garantir melhor distribuição do sinal.

Em nota, a pasta informou que "tanto no caso da Rua Manuel Martins Collaço, quanto da Praça Tomás Coelho de Almeida, foi necessária uma distribuição mais próxima entre os equipamentos para solucionar intercorrências e garantir uma maior distribuição e qualidade do sinal acessado pelos usuários da comunidade".

Endereços informados não tinham equipamentos

A reportagem também visitou três endereços que constavam na lista de pagamentos da Prefeitura de São Paulo referentes ao mês de abril de 2026. Nos locais, entretanto, não foram encontrados equipamentos de wi-fi.

Um dos casos ocorreu na Rua Solon, 819, no Bom Retiro. O imóvel está desocupado e passa por reformas para ser transformado em apartamentos. Segundo pessoas que trabalham na obra, uma entidade que funcionava no local deixou o endereço há mais de um ano.

Também foram apontadas inconsistências em dois endereços na Rua Eça de Queiroz, na região da Ana Rosa. Os números 37 e 154 constam na documentação apresentada pela ONG, mas não existem na via, e não havia sinal de internet disponível nas proximidades.

Prefeitura apresenta justificativas

A Prefeitura de São Paulo afirmou que não existem pagamentos por pontos inexistentes e que os dados do sistema passam por atualizações constantes. Segundo a administração municipal, o equipamento que constava na Rua Solon foi transferido para a Rua Três Arapongas, 80, e a alteração ainda seria incorporada aos relatórios.

Sobre os pontos vinculados aos números 37 e 154 da Rua Eça de Queiroz, a gestão municipal informou que os equipamentos existem e atendem internamente unidades do CRAS e do CREAS da Vila Mariana, localizadas na Rua Arthur de Almeida, 54.

A prefeitura argumenta ainda que os endereços originalmente informados serviam apenas como referência geográfica para localização dos serviços.

Contrato é alvo de investigação

Além das questões operacionais apontadas pela reportagem, o contrato do programa WiFi Livre está sendo investigado pelo Ministério Público de São Paulo e pela Polícia Civil.

Na segunda-feira (1º), agentes da 2ª Delegacia de Crimes Contra a Administração Pública, Combate à Corrupção e Lavagem de Dinheiro realizaram buscas em endereços ligados à empresária Karina da Gama e também na Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia.

De acordo com manifestação da promotora Marina Pedersolli incluída no inquérito, há indícios de "possível direcionamento do chamamento público, ausência de capacidade técnica da entidade contratada, suposto sobrepreço nos valores pagos pela Administração Municipal, antecipação de repasses públicos e pagamentos por serviços supostamente não executados".

A promotora também registrou que "a autoridade policial também menciona suspeitas de pulverização dos recursos públicos por meio de subcontratações com empresas privadas, além de possível utilização de valores oriundos do contrato público para financiamento de produção cinematográfica vinculada à investigada Karina Gama".

Contrato teve aditivos e prazo ampliado

O acordo original previa a instalação de 5 mil pontos de internet gratuita até junho de 2025. Até o momento, segundo os dados apresentados, cerca de 3.200 equipamentos foram instalados.

A Polícia Civil aponta que, após aditivos contratuais e prorrogações, o valor total do contrato pode alcançar R$ 157 milhões por ano. A administração municipal contesta esse cálculo e afirma que os repasses seguem os critérios previstos na legislação que regula parcerias com organizações da sociedade civil.

Segundo a Prefeitura de São Paulo, os serviços previstos estão sendo executados normalmente e não foram identificadas irregularidades no processo de contratação ou na operação do programa até o momento.

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