Sobrevivente da Boate Kiss divulga foto feita minutos antes do incêndio que matou 242 jovens
O registro foi compartilhado nas redes sociais por Delvani Rosso, um dos sobreviventes do incêndio
247 - Treze anos após o incêndio que devastou a Boate Kiss, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, um sobrevivente da tragédia voltou a chamar atenção para a dimensão humana do episódio ao divulgar uma fotografia registrada poucos minutos antes do início do fogo. A imagem mostra um grupo de amigos reunidos no interior da casa noturna, cerca de dez minutos antes do incêndio que vitimou 242 pessoas e deixou mais de 600 feridas, na madrugada de 28 de janeiro de 2013.
O registro foi compartilhado nas redes sociais por Delvani Rosso, um dos sobreviventes do incêndio, acompanhado de uma mensagem de luto e reflexão sobre a tragédia que marcou o país.
Na fotografia, Delvani aparece ao lado de amigos dentro da boate, em um momento de aparente normalidade, pouco antes do início do incêndio provocado por um artefato pirotécnico utilizado durante uma apresentação musical. Minutos depois, o fogo se espalharia rapidamente pelo local, agravado pela presença de material inflamável no teto e pela falta de saídas de emergência adequadas.
O incêndio da Boate Kiss é considerado uma das maiores tragédias da história do Brasil em número de vítimas. A maioria dos mortos eram jovens universitários que participavam de uma festa na casa noturna. Muitos faleceram por asfixia causada pela inalação de fumaça tóxica, que se espalhou rapidamente pelo ambiente fechado.
Ao longo dos anos, a tragédia se tornou símbolo de falhas graves em fiscalização, segurança e prevenção de incêndios em estabelecimentos de grande público. O caso gerou mudanças em legislações estaduais e municipais, além de debates nacionais sobre responsabilidade civil, criminal e administrativa.
A publicação da foto ocorre em meio às lembranças que tradicionalmente marcam o mês de janeiro em Santa Maria, quando familiares, sobreviventes e a sociedade civil realizam atos em memória das vítimas. Para muitos, imagens como essa reforçam a dimensão pessoal da tragédia, ao lembrar que, minutos antes do incêndio, centenas de jovens celebravam a vida sem imaginar o que estava por acontecer.
Após uma longa sequência de idas e vindas judiciais, o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul manteve a validade do júri popular realizado em dezembro de 2021, que condenou quatro réus por homicídio com dolo eventual. A decisão consolidou a responsabilização penal dos envolvidos, encerrando discussões sobre nulidades do julgamento levantadas pelas defesas em instâncias anteriores.
Apesar da manutenção das condenações, o tribunal decidiu rever as penas aplicadas. Os sócios da boate, Elissandro Callegaro Spohr e Mauro Londero Hoffmann, tiveram as condenações reduzidas para cerca de 12 anos de prisão. Já os réus ligados à banda que se apresentava na noite do incêndio, Marcelo de Jesus dos Santos e Luciano Bonilha Leão, tiveram penas fixadas em aproximadamente 11 anos.
Com a redução das penas, os condenados passaram a preencher os requisitos legais para progressão de regime. Em 2025, a Justiça autorizou que três dos quatro réus migrassem do regime fechado para o semiaberto, com possibilidade de trabalho externo. O quarto condenado também obteve benefícios previstos na Lei de Execução Penal, como saídas temporárias, conforme decisões individuais da Vara de Execuções Criminais.
Essas decisões provocaram forte reação de familiares das vítimas e de associações que representam sobreviventes do incêndio. Para esses grupos, a redução das penas e a concessão de benefícios reforçam a sensação de impunidade em um dos casos mais emblemáticos da história recente do país. Representantes das famílias seguem apresentando recursos e manifestações formais junto aos tribunais superiores, questionando tanto a dosimetria das penas quanto o regime de cumprimento.
Do ponto de vista jurídico, especialistas avaliam que o processo entrou em uma fase mais técnica, com menos espaço para reavaliação dos fatos e maior foco em questões processuais e de execução penal. Ainda assim, recursos extraordinários podem manter o caso em discussão por mais alguns anos, especialmente no Superior Tribunal de Justiça (STJ) e no Supremo Tribunal Federal (STF).
Paralelamente aos trâmites judiciais, Santa Maria mantém ações voltadas à preservação da memória das vítimas. As obras do memorial em homenagem aos mortos no incêndio foram retomadas e têm previsão de conclusão em 2026. O espaço é visto por familiares como um símbolo de luto coletivo e também como instrumento de conscientização sobre segurança em locais de grande público.