Imagine observar um animal dormindo profundamente e, de repente, ver sua pele explodir em ondas de cores: branco fantasmagórico, marrom intenso, manchas amareladas que pulsam como um caleidoscópio submarino. Não é ficção científica. É exatamente o que cientistas registraram em laboratório ao estudar polvos durante o sono — e a descoberta está fazendo neurocientistas, biólogos marinhos e filósofos repensarem o que significa “sonhar”.
A Descoberta Que Deixou Cientistas Sem Palavras
Em 2021, pesquisadores do Instituto Brasileiro de Neurociência e Neurotecnologia, liderados pelo cientista Sidarta Ribeiro, publicaram um estudo bombástico na revista iScience. Eles observaram que polvos da espécie Octopus insularis alternam entre dois estados de sono distintos: um sono “calmo”, em que ficam pálidos e imóveis, e um sono “ativo”, em que sua pele dispara mudanças cromáticas espetaculares, seus olhos se mexem e seus tentáculos se contraem.
Esse padrão é assustadoramente parecido com o sono REM dos mamíferos — a fase em que nós, humanos, sonhamos. A grande questão é: o que um polvo poderia estar sonhando?
Você pode ler o estudo original publicado em iScience, que documenta cada fase do ciclo do sono desses animais com precisão impressionante.
Por Que Isso é Tão Surpreendente?
Polvos são, evolutivamente falando, alienígenas. Nossa última ancestral comum com eles viveu há mais de 500 milhões de anos — era provavelmente um verme achatado e quase cego. Desde então, seguimos caminhos completamente opostos. Enquanto vertebrados desenvolveram um cérebro centralizado, os polvos espalharam dois terços de seus neurônios pelos braços. Cada tentáculo, em certo sentido, “pensa” sozinho.
Que dois ramos tão distantes da árvore da vida tenham desenvolvido, de forma independente, algo parecido com sono REM sugere algo profundo: sonhar (ou algo análogo a isso) pode ser uma necessidade biológica fundamental para sistemas nervosos complexos, não um luxo exclusivo de mamíferos e aves.
Mas Eles Realmente Sonham?
Aqui é onde a ciência se encontra com o mistério. Os cientistas são cuidadosos em afirmar que os polvos têm experiências subjetivas como as nossas. Porém, as evidências comportamentais são intrigantes:
Durante o sono ativo, o polvo reproduz padrões de pele típicos de situações específicas — camuflagem para se esconder de predadores, cores de caça, sinais de ameaça. É como se o cérebro do animal estivesse “ensaiando” cenários da vida real, exatamente como sugerem algumas teorias modernas sobre a função dos sonhos em humanos.
Em uma reportagem do The New York Times, o biólogo marinho David Scheel descreveu o fenômeno como “uma janela direta para a mente de uma criatura que mal podemos compreender”.
O Reconhecimento Oficial: Polvos São Conscientes
A descoberta dos sonhos cefalópodes vem se somar a um corpo crescente de evidências sobre a inteligência desses animais. Em 2012, neurocientistas reunidos na Universidade de Cambridge assinaram a histórica Declaração de Cambridge sobre a Consciência, reconhecendo formalmente que polvos — junto com mamíferos e aves — possuem os substratos neurológicos da experiência consciente.
Em 2022, o Reino Unido tornou-se um dos primeiros países a incluir polvos, lulas e caranguejos em sua legislação de bem-estar animal, com base em revisão científica conduzida pela London School of Economics.
O Que Mais os Polvos Podem Estar Escondendo?
Eles resolvem labirintos, abrem potes por dentro, brincam de jogar bolinhas para correntes de água, reconhecem rostos humanos individuais e até parecem ter “personalidades” distintas. Há relatos de polvos em aquários que esguichavam água em pesquisadores de quem não gostavam — e ignoravam tranquilamente outros.
Se a um polvo é possível sonhar, talvez seja preciso aceitar que a inteligência e a consciência não seguem uma linha reta na natureza. Elas surgem, desaparecem e ressurgem em formas que mal começamos a compreender.
A próxima vez que você observar um polvo num aquário, lembre-se: por trás daqueles olhos estranhos pode existir um universo interior tão vívido quanto o seu — povoado por sonhos coloridos que nenhum humano jamais conseguirá decifrar completamente.




