A biologia marinha sempre trabalhou com uma regra prática: não existem tubarões na Antártida. No entanto, imagens capturadas por uma câmera de águas profundas do Minderoo-UWA Deep-Sea Research Centre (Universidade da Austrália Ocidental) acabam de forçar a ciência a reavaliar essa fronteira congelada.
Um tubarão da família Somniosidae (conhecidos como tubarões dorminhocos), com cerca de 3 a 4 metros de comprimento, foi filmado a 490 metros de profundidade, perto das Ilhas Shetland do Sul. A temperatura da água no local beirava 1ºC.
Por Que Essa Descoberta é Incomum?
A esmagadora maioria dos tubarões tem sangue frio, o que significa que a temperatura do oceano dita o funcionamento interno dos seus corpos. Nas águas subzero da Antártida — que não congelam totalmente devido à alta salinidade —, o frio extremo retarda os músculos e a digestão. Para um tubarão, a diferença entre a água fria e a quase congelando é a diferença entre nadar normalmente e mal conseguir se mover.
O vídeo revelou um detalhe técnico importante: o animal não estava nadando de forma aleatória pela coluna d’água. Ele aproveitava uma camada termicamente estratificada, uma “zona de conforto” estreita e ligeiramente mais quente, formada entre as águas mais densas do fundo e o gelo derretido da superfície.
Mudança Climática ou um Ponto Cego Humano?
Sempre que uma espécie surge em um local inexplorado, o instinto inicial é culpar as mudanças climáticas. Os dados confirmam que os oceanos globais absorvem a maior parte do calor excessivo retido pelos gases de efeito estufa desde 1970.
Apesar desse cenário de aquecimento, os pesquisadores tratam o avistamento com rigor. O fundo do mar é o maior ponto cego da Terra (exploramos menos de 0,001% dele). A presença deste tubarão levanta três hipóteses distintas:
- Ele é um visitante raro.
- É um novo residente impulsionado pelo aquecimento sutil daquela camada de água.
- Faz parte de uma população que sempre esteve lá, mas que a limitação técnica de enviar câmeras durante os invernos rigorosos nos impediu de registrar antes.
Para confirmar o status real do tubarão no ecossistema polar, a equipe dependerá agora de análises genéticas coletadas em amostras de água e da instalação de novos equipamentos de observação.




